TURÍBIO SANTOS (São Luis/MA, 7 de março de 1943)

             Aos três anos de idade, Turíbio Soares Santos veio com a família para o Rio de Janeiro. Após hospedagem inicial com os avós maternos na Tijuca, mudaram-se para Copacabana em 1948. O pai seresteiro gostava muito de violão e colecionava discos de Dilermando Reis, entre outros. Interessado  pela música, aos doze anos de idade, teve suas primeiras aulas de violão. Logo depois, acompanhado do pai, ao assistir um filme sobre o mestre espanhol Andrés Segóvia, conheceu o português Antonio Rebello (dono de açougue em Copacabana e professor de violão), personagem fundamental em sua formação profissional, além do compositor Hermínio Bello de Carvalho e do violonista Jodacil Damasceno, que apresentavam na Rádio MEC o programa Violão de Ontem e Hoje, dedicado à história e à literatura do instrumento.

Em 1958, ainda estudante do Colégio Pedro II, Turíbio foi convocado pela dupla para substituí-los assistindo a uma conferência do compositor Heitor Villa-Lobos na Escola de Canto Orfeônico na Urca. Instruído com a função de anotar todos os detalhes da palestra, empolgou-se pelas histórias e a figura envolvente do novo ídolo, de quem gravaria sua obra completa. Em 1961, ao se apresentar como violonista em uma conferência de Hermínio Bello de Carvalho sobre o mestre Heitor Villa-Lobos (falecido em 1959), foi convidado pela viúva Arminda Villa-Lobos a gravar a primeira versão integral dos 12 estudos dedicados a Andrés Segóvia, para o então recém-fundado Museu Villa-Lobos. Estudante da Faculdade Nacional de Arquitetura, a partir de 1962, Turíbio Santos passou a se apresentar em recitais e gravou (em duo com o amigo e professor uruguaio Oscar Cáceres) no ano seguinte o LP Villa-Lobos: 12 Estudos para Violão (selo Caravelle).

Ao conquistar, em 1965, o 1º prêmio do concurso internacional de violão da ORTF (Office de Radiodiffussionet Télévision Française), sua carreira de músico profissional tornou-se inevitável: a arquitetura “o vento levou” e foi feliz residir em Paris durante dez anos, iniciando estudos de violão clássico com o inglês Julian Bream e o já citado Andrés Segóvia. Nessa época, gravou o álbum Turíbio Santos: Concerto de Aranjuez (Musidisc, 1968), com a orquestra do Le Collegium Musicum de Paris, e incluiu mais quatro obras espanholas, por ele escolhidas. Como artista exclusivo do selo Erato foram editados uma série de discos: Villa-Lobos: 12 études pour Guitare; Villa-Lobos: concerto pour guitare & petit orchestre; Classiques d’Amerique Latine; Musique Française pour Guitare; Turíbio Santos & Oscar Cáceres: music pour deux guitares; Danses Espagnoles; Le Charme de La Guitare; Valsas et Choros - Turíbio Santos et son ensemble “Choros do Brasil”, entre outros. Durante esse período, atuou em diversos programas de rádio e percorreu vários países participando de concertos (como solista) na Orchestre National de France, Royal Philharmonic Orchestra de Londres, e de recitais ao lado do violoncelista russo Mstislav Rostropovitch e da soprano espanhola Victoria de Los Angeles, entre outros. De volta ao Brasil, Turíbio Santos publicou o livro Heitor Villa-Lobos E O Violão, editado em 1975 pelo Museu Villa-Lobos.

Em 1977, gravou o LP Choros do Brasil (selo Tapecar), de ótimo repertório (Dengoso - JoãoPernambuco, Choro da Saudade - Agustin Barrios, Tristezas de Um Violão - Garoto, Doutor Sabe Tudo - Dilermando Reis),  acompanhado por talentosos instrumentistas como Raphael Rabello (violão 7 cordas), Jonas (cavaquinho), componentes do seu conjunto, que dá nome ao disco. No mesmo ano, se apresentou ao lado do violonista Yehudi Menuhin no seu famoso festival celebrado anualmente em Gstaad, nos Alpes suíços. No início da década de 80, o selo Kuarup editou Grandes Sucessos do Violão Latino-Americano, da já citada versão original francesa, incluindo Valsa Venezolano (Antonio Lauro), Ecos de Paisage (Alfonso Broqua). Convidado pelo escritor e amigo Guilherme de Figueiredo, dirigiu por seis meses a Sala Cecília Meireles, e criou o “curso de violão” na antiga Escola Nacional de Música (atual UFRJ) e na UNI-RIO.

Em 1984, participou do precioso álbum Encontro (selo Kuarup), ao lado de Paulo Moura (sax), Clara Sverner (piano) e Olivia Byington (voz), no qual atuou como solista na faixa Suíte Nordestina (músicas de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), além de duos e com todos os demais integrantes do disco. No ano seguinte, com o falecimento de sua amiga Arminda Villa-Lobos, convidado para dirigir o Museu, preferiu atuar como assessor, o que fez por mais de vinte anos. Ainda em 1985, realizou seu brilhante projeto Turíbio Santos e Orquestra de Violões Brasileiros (selo Kuarup), quando reuniu 26 alunos violonistas sob sua regência e apresentaram Maracatu do Chico Rei (Francisco Mignone), Baião (Roberto Gnattali).

Em 1987, o LP Villa-Violão: Heitor-Villa-Lobos (Kuarup), exibiu a obra completa do mestre para violão solo: cinco prelúdios, um choro e doze estudos. No ano seguinte, para o mercado fonográfico europeu, Turíbio Santos fez sucesso com o álbum Guitar Music of Spain (Sanctus Recordings, 1988), uma viagem por clássicos da música espanhola como Recuerdos de la Alhambra (Francisco Tárrega), Mallorca Op. 202 (Isaac Albéniz), Theme and Variations (Fernando Sor). Em produção independente, Turíbio editou o precioso LP Brasileiríssimo (1989), com destaques para os choros Um A Zero (Pixinguinha, Benedito Lacerda), Graúna (João Pernambuco), e o frevo Gostosão (Nelson Ferreira).

Em 1993, homenageou o seu instrumento de trabalho, autores  e intérpretes com O Violão Brasileiro de Turíbio Santos (selo Columbia), em brilhantes momentos:  Jorge do Fusa (Garoto), Pequena Suíte Nordestina (Radamés Gnattali). Outro álbum admirável de Turíbio, Fantasia Brasileira (selo Visom, 1994), apresentou uma série de suítes Teatro do Maranhão, tributo ao seu estado natal (Rua das Hortas, Valsa de Arthur Azevedo), cinco peças para violão (autorias de Guinga): o choro Sinuoso, a canção Sete Estrelas (parceria com Aldir Blanc). Gravado ao vivo no saudoso Mistura Fina lançou o CD Mistura Amigos (Visom, 1997), acompanhado de Pedro Amorim (bandolim), Zé Nogueira (sax), entre outros, e acrescentou ao seu repertório os choros Nostalgia (Jacob do Bandolim), No Coreto (Pedro Amorim), Língua de Preto (Honorino Lopes).

No ano seguinte, o álbum Turíbio Santos: Latinidad (Warner Music) apresentou as inéditas Prelúdio Nº 4 (autoral) e Escovado (Ernesto Nazareth). Ainda em 1998, com nova formação, mostrou Turíbio Santos & A Orquestra de Violões (selo Visom), sempre aplaudido em Lenda do Caboclo (Villa-Lobos), Suíte Samba de Ary Barroso(Terra Seca, Na Baixa do Sapateiro, Aquarela do Brasil).Em 1999, gravou o CD Turíbio Santos: O Guarani (Ritornelo Records), com a participação do violonista Leandro Carvalho, interpretam a abertura e a suíte Quilombo da famosa ópera do compositor brasileiro Carlos Gomes, além de várias peças dos pioneiros Chiquinha Gonzaga (Desfile) e  Ernesto Nazareth (Brejeiro). Com o peculiar título Johann Sebastian Bach visita a Mata Atlântica (Rob  Digital, 2001), o violonista executou obras do compositor alemão J. S. Bach em (Fuga, Prelúdio Em Ré Menor) em paralelo a composições de Villa-Lobos (Prelúdio Nº 3, Estudo Nº 1), acompanhado do violão de Francisco Frias e da percussão de Ricardo Costa. Gravado ao vivo em concerto na Sala Cecília Meireles/RJ, Turíbio com a soprano Carol McDavit, CD Amazônia É Brasil (Rob Digital, 2003), navegam em viagem pelo nosso cancioneiro erudito, em várias pérolas: Modinha (Villa-Lobos, Manuel Bandeira), O Amor Em Lágrimas (Cláudio Santoro, Vinicius de Moraes), Azulão (Jaime Ovalle, Manuel Bandeira).

Em 2006, o músico estudou e  reuniu no CD Violão Amigo: canções de todos os tempos (selo Delira Música), várias peças do tradicional popular, harmonizadas por ele: Prenda Minha, Boi da Cara Preta, Nesta Rua.No ano seguinte, lançou o álbum Turíbio Santos Interpreta Agustín Barrios (Delira Música, 2007), de quem gravou músicas para o já citado selo Erato, nos anos 70 em Paris. Nesse disco, acrescenta outras composições como Junto A Tu Corazón, Choro da Saudade, Oración, Valsa Op. 8 Nº4, além do prelúdio La Catedral, lançada em sua estreia parisiense em 1967. Seu último CD editado Mistura Brasileira (Delira Música, 2008), registrou canções de Tom Jobim ao lado do ídolo Villa-Lobos, e reverenciou outros craques do violão com a Suíte Senhores (Seu Maurício – Batuque, Seu Quincas – Marchinha, Seu Sátiro – Carimbó).

Tendo aprendido com tantos mestres do violão, aliado ao seus inúmeros trabalhos de pesquisas, com sólido conhecimento do histórico e potencialidade do mesmo, entusiasta das raízes e riquezas musicais de seu país, intérprete vigoroso, intimista e sofisticado, versátil e criativo nos mais variados estilos, onde se destacam a harmonia, melodia e o ritmo, Turíbio Santos é um dos mais importantes violonistas, com trajetória brilhante, em todo o cenário mundial.


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