ROSINHA DE VALENÇA (Valença/RJ, 30 de julho de 1941 – 10 de junho de 2004)

             Desde criança, Maria Rosa Canelas se interessou por violão, recebeu de um tio músico as primeiras noções, e desenvolveu sua própria técnica. Logo, passou a tocar em um regional que animava os bailes de sua cidade e a acompanhar cantores na rádio local. Após abandonar os estudos para seguir carreira artística, mudou-se, em 1963, para o Rio de Janeiro. Descoberta pelo cronista Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) no restaurante Au Bon Gourmet, já transformado em casa de espetáculos em Copacabana, recebeu deste o nome artístico de Rosinha de Valença. No ano seguinte, gravou seu LP de estreia Apresentando Rosinha de Valença (selo Elenco), com ótimo repertório: Ela É Carioca (Tom Jobim, Vinicius de Moraes), Praça Onze (Herivelto Martins, Grande Otelo), Consolação (Baden Powell, Vinicius de Moraes), além de cantar em Com Que Roupa (Noel Rosa) e Minha Saudade (João Gilberto, João Donato).

Em 1965, participou do conjunto Sérgio Mendes & Brasil’65, com Chico Batera, o baixista Tião Neto e a cantora Wanda Sá, excursionaram pelos Estados Unidos com gravação de dois discos: Brasil’65 featuring The Sérgio Mendes Trio (Capitol) e In Person at El Matador (Atlantic). No ano seguinte, foi lançado o excepcional álbum Rosinha de Valença ao Vivo (selo Forma) que, apesar do título, foi gravado em estúdio, com participações de Paulo Moura  (sopros), Edison Machado (bateria), Osmar Milito (piano), entre outras “feras”, em peças como: Upa Neguinho (Edu Lobo, Gianfrancesco Guarnieri), Carinhoso e Lamentos (essas de Pixinguinha), Vou Pra Valença (autoral), Doce de Coco (Jacob do Bandolim).

Em 1968, iniciou uma série de apresentações pela Rússia, Israel, Moçambique, Angola, Rodésia e África do Sul, onde gravou em Johannesburg o LP Rosinha de Valença Apresenta Ipanema Beat (RCA Victor, 1970) com seus componentes Duncan MacKay (órgão), Hilton Leite (bateria), Bernardo Bernstein (contrabaixo), em versões apimentadas por sua guitarra de clássicos mundiais: A Whiter Shade of Pale (Keith Reid), a nacional Bossa Na Praia (Pery Ribeiro, Geraldo Cunha) e Forever Yet Forever (Duncan MacKay).

Em 1971, o talento de Rosinha marcou disco Um Violão Em Primeiro Plano (RCA Victor) ao dedilhar: London London (Caetano Veloso), Concierto de Aranjuez (Joaquin Rodrigo) e ainda cantar com harmonia os sambas De Conversa Em Conversa (Haroldo Barbosa, Lúcio Alves) e O Samba da Minha Terra (Dorival Caymmi). A partir desse ano até 1977, participou como violonista de seis LPs de Martinho da Vila, impregnados de sons africanos. Retrocedendo a 1973, lançou Rosinha de Valença, simultaneamente no Brasil (Som Livre) e na França (Barclay) com repertório exclusivamente nacional: Valsa de Eurídice (Vinicius de Moraes), Após O Amanhecer (Tião Neto, Oscar Castro  Neves), Asa Branca (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira), Araponga, Cuíca e Porto das Flores (essas de sua autoria).

Já em 1976, o belíssimo Rosinha de Valença: cheiro de mato (selo Odeon), encontra-se impregnado de poesia e do seu canto suave e puro, em pérolas por ela assinadas; Meus Zelos, Madrinha Lua, e adaptações para as tradicionais Cabocla Jurema, Xangô, além do encantamento do seu violão nos clássicos Pedacinhos do Céu (Waldir Azevedo), Chuá Chuá (Pedro de Sá Pereira). No ano seguinte, apresentou-se ao lado do  saudoso mestre sanfoneiro Sivuca, no Show das Seis e Meia, gravado ao vivo no teatro João Caetano (selo RCA), quando executaram duos vibrantes nas já citadas Asa Branca e Lamentos, e encerrou solo o espetáculo sob aplausos com o samba Tema do Boneco de Palha (Vera Brasil, Sivan Castelo Neto). Seus últimos trabalhos ocorreram na década seguinte, com Violões Em Dois Estilos – Rosinha de Valença e Watel Blanco (Som Livre, 1980) e Encontro das Águas (Independente, 1983).

Nos anos 90, morando em Paris, quando em férias no Brasil, sofreu uma parada cardíaca, com lesão cerebral que a deixou, em 1992, em estado irreversível de coma, durante doze anos, aos cuidados das irmãs em Valença. Reconhecida internacionalmente (acompanhou grandes músicos como o saxofonista Stan Getz), Rosinha de Valença não teve a mesma sorte em seu país, tratada com certa indiferença, apesar de ser uma das maiores violonistas brasileiras.


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