ROGÉRIO BICUDO (Campos dos Goytacazes /RJ, 11 de janeiro de 1957)

             Filho de pais originários da região divisa entre o extremo sul capixaba com o norte fluminense, Rogério Bicudo Peçanha morava em Mimoso do Sul (ES), quando aos seis anos de idade, mudou-se para a cidade onde nascera. O interesse pela música foi despertado ao assistir as aulas de acordeom dadas para sua irmã mais velha. Com alguns meses de ensinamentos recebidos de um barbeiro, tocador de violão, o adolescente Rogério já estava decidido a seguir a carreira de músico. Aos 15 anos de idade, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, indo morar no bairro Peixoto, em Copacabana. A partir de 1975, cursou a Escola de Música Villa-Lobos, aprendeu iniciação musical, teoria e solfejo, além de ter aulas particulares de violão clássico com Odair Assad.

Em 1978, passou a se apresentar com bastante sucesso (voz e violão) no antigo Bar Zeppelin Terrase, no Vidigal. Em 1982, viajou para a Espanha, matriculado no 5º ano de violão clássico no Real Conservatório de Música de Madrid, e participou ainda de cursos de música barroca e renascentista. Durante as temporadas de verão, se exibia em casas noturnas da famosa ilha de Ibiza, o que custeava suas despesas madrilhenhas. Por ocasião de um festival de música popular, em 1984, conheceu o cantor e compositor Délcio Carvalho e o sambista Ivan Milanez (seu futuro parceiro musical) da Escola Império Serrano, que se uniram às suas apresentações.

Ao tocar chorinho com o saxofonista americano Paul Stocker, em 1987, recebeu deste convite para audições em Amsterdam onde, no mesmo ano foi residir, permanecendo até hoje. No ano seguinte, acrescido do pecussionista paulistano Silvano Michelino, formaram o Trio de Janeiro, quando gravaram, ao vivo no Café Kapitein Zeppos, o LP Chorinhos Brasileiros e Fuga, com brilhantes leituras e improvisos que valorizam o que se pode extrair de clássicos como Lamentos (Pixinguinha, Benedito Lacerda), Chorando Baixinho (Abel Ferreira), Fuga nº 1 (do maestro cubano Leo Brouwer), Bahimbao (temas de Ary Barroso, Baden Powell e do folclore brasileiro).

Ao criar o Clube do Samba, lançou o CD homônimo (CSA Productions, 1995), com a sua envolvente banda Mistura Fina, complementada por Lodewijk Hulsman (cavaquinho), Ronald Bergman (flauta e percussão), Isabel e Geni (vocais), Joselito Dória (percussão e vocais), Rogério Bicudo apresentou a música brasileira em suas variadas facetas, mediante refinado e irretocável repertório: Jongo (João Pernambuco), Clube do Samba (João Nogueira), Kizomba (Luiz Carlos da Vila), Samba do Avião (Tom Jobim), Agoniza Mas Não Morre (Nelson Sargento), Afoxé (Tradicional), Bahia (Dorival Caymmi).

Em 1998, agora com seu quarteto Choro Combinado, de Michael Moore (clarineta, sax alto), Pedro Libert (viola, violino), Eric Calmes (contrabaixo), gravou o precioso CD Sonoroso (BVHaast, CSA), no qual ofereceu leituras camerísticas para peças como Papo de Anjo (Radamés Gnattali), Ingênuo (Jacob do Bandolim), Surfboard (Tom Jobim), Murmurando (Fon-Fon), além do clássico choro (de K-Ximbinho e Del Loro), que empresta o nome ao disco. No ano seguinte, em tournée pelo Rio de Janeiro e adjacências, divulgou o álbum acompanhado do grupo, com audições na Sala Cecília Meireles (Largo da Lapa) e no Teatro Municipal de Niterói.

Em 2001, novamente com o grupo Choro Combinado, e participações da cantora brasileira Lilian Vieira (também radicada na Holanda), gravaram o CD Curare (CSA Records), de repertório notável: a valsa Wals Dje Kangrew (E. Calms), os choros Noites Cariocas (Jacob do Bandolim), André de Sapato Novo (André Victor Correia), Graúna (João Pernambuco), o samba-jazz Fim de Inverno (M. Moore), além da faixa título (choro estilizado de Bororó), na voz de Lilian Vieira. Em seguida, viajou durante tres meses pelo México, em apresentações solo, além de ministrar algumas aulas de violão, como convidado do Conservatório de Las Rosas, na cidade de Morelia.

Em 2006, lançou o antológico álbum Rogério Bicudo: Solução (Independente, gravado em Amsterdam), um extrordinário show de ritmo e harmonia, com ótimos músicos, vocais e a sua estreia como cantor afinado em repertório de extremo bom gosto: Injuriado (Chico Buarque), Pressentimento (Elton Medeiros, Hermínio Bello de Carvalho), Solução (Raul Sampaio, Ivo Santos), Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá, Antonio Maria), Só Nós Dois É Que Sabemos (J. Pimentel), Ciência de Vida (parceria com Orlando Magrinho, Isabel dos Santos).

Em 2008, o sax do sul africano Sean Bergin encontrou o violão do brasileiro Rogério Bicudo, para a produção em Amsterdam do CD Tale of Three City’s (selo Pingo Records), extraordinária junção de linguagens musicais distintas para leituras requintadas de pérolas como: Shepherds (S. Bergin), Ni Famba Uswanga (L. Silveira), Diáspora (R. Bicudo), Naima (J. Coltrane). No ano seguinte, o “repeteco” de uma dupla que deu certo: Rogério Bicudo, Sean Bergin: Mixing it (Pingo Records), sons afro-brasileiros misturados (conforme sugere o título do disco e da faixa inicial, de Sean Bergin) explodem, do primeiro ao último acorde, em belíssimas interpretações: Favela (Padeirinho, Jorge Pessanha), Sonnet 119 (Sean Bergin), Ingênuo (Pixinguinha).

O samba está de “cara nova”, renovado com a criatividade de Rogério Bicudo, em seu último trabalho totalmente autoral, Sambanovo (CSA, 2011) gravado no Rio de Janeiro, exibiu: Lavradio 106, na voz de Lilian Vieira (com Renato Fialho), Samba E Poesia (com Renato Fialho e Marcos Moulin) essas com participação de Joel Nascimento (bandolim), Naqueles Dias (coautoria de Albinho) com presença de Marcelo Bernardes (saxtenor), O Pano Fechou e Navegar Eu Preciso (essas com Renato Fialho), além da faixa título (com Renato Fialho e Ivan Milanez). Ainda em 2011, tendo sua carreira de músico e cantor consolidada no exterior, Rogério realizou diversos concertos em  Amsterdam incluindo a famosa sala Bimhuis (com destaque para o jazz), além de participar do internacional e tradicional North Sea Jazz Festival, em Rotterdam, e de aplaudida tournée por várias cidades, acompanhado de Lilian Vieira, do saxofonista holandês Toon Roos e do já citado Eric Calmes.

Já em 2014, com dois meses de temporada no Rio de Janeiro, apresentou-se  em localidades turísticas de Nova Friburgo, e no Centro de Referência da Música Carioca, no bairro da Tijuca, sempre com muito sucesso. De volta à Europa, atuou em concertos na Espanha (Santander, Madrid), e com Michael Moore, Eric Calmes, entre outras exibições em Amsterdam, no biênio 2014/15. Com o seu Clube do Samba em constante atividade, em 2016, recebeu no badalado Café ‘t Monumentje (área central da cidade), o ótimo cantor Eduardo Gallotti, parceiro e amigo das rodas cariocas de samba, e de casas de show em Portugal.

Embora vivendo há tantos anos na Europa, com formação clássica, é notável a presença marcante do expressivo som popular brasileiro em suas performances, melódicas e harmônicas, tocando e cantando em sintonia perfeita.Versátil, nos mais variados estilos, com pitadas de jazz, Rogério Bicudo divide com intensa paixão e competência sua trajetória musical para a felicidade de brasileiros e europeus.


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