Trilha Sonora

            As 42 músicas apresentadas, a seguir, com seus autores e respectivos intérpretes, em várias épocas, estilos e gêneros, não significam as melhores do vasto cenário musical popular brasileiro. Aliás, não acredito e nem julgo listas, a qualquer título ou pretexto. O único critério, na escolha, foi o de destacar jovens valores, ou mesmo já consagrados (alguns falecidos ou menos lembrados), em leituras primorosas que comprovam todo o talento de seus protagonistas.

            Cabe comentar da nova geração (a partir dos anos 90): Augusto Martins, que acertadamente deixou a medicina e “caiu no samba”, aqui acompanhado ao violão e vocal pelo “veterano” compositor Cláudio Jorge no antológico Antonico (Ismael Silva, 1950), o paulistano João Macacão, exímio violonista de sete cordas a serviço do “caboclinho querido” Silvio Caldas por mais de vinte anos, que se descobriu um grande intérprete e não deixou de homenagear seu mestre com  a emblemática Chão de Estrelas (Orestes Barbosa, Silvio Caldas, 1937), a niteroiense Zélia Duncan, com sua voz harmoniosa, rende tributo ao “poeta da vila” no imortal samba-canção Três Apitos (Noel Rosa, 1951), o ótimo cantor Renato Braz na belíssima toada Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira, 1924), Leila Maria, de voz incomparável e apaixonante, emociona ao celebrar o saudoso Johnny Alf em  Ilusão à Toa (de 1961), a dupla Tuninho Galante e Marceu Vieira, que se conheceu nas rodas de samba do botequim Bip Bip em Copacabana, e logo “estourou” no mercado fonográfico com o CD inicial, onde a faixa Amendoim e Caviar abre o desfile criativo de suas músicas, Leandro Fregonesi, cantor e compositor, com dois álbuns e um DVD na praça, da atual geração da Lapa, de ritmo e voz afinados no romântico Festa das Manhãs, a poetisa paulista Ana Salvagni e o conterrâneo Filó Machado cantam, com puro sentimento, a canção Favela (Hekel Tavares, Joracy Camargo, 1933), Eduardo Canto, fã confesso do criador da “dor de cotovelo”, em clima intimista interpreta o samba Esses Moços (Lupicínio Rodrigues, 1948) e Socorro Lira, uma paraibana apaixonada por nossa cultura popular, transmite toda a singeleza da cantiga de ninar Mulher Rendeira (DP/Zé do Norte, 1937).

            Os “estrangeiros” Rogério Bicudo (compositor, violonista e cantor) radicado em Amsterdam, assina o samba  Lavradio 106 (com o poeta Renato Fialho, 2011), aqui apresentado pelo cantor Eduardo Gallotti, um bamba no assunto celebrando 30 anos de vitoriosa carreira; e o bossanovista Normando Santos, que após exibição no histórico show do Carnegie Hall em Nova York (1962), optou por morar em Paris, onde desenvolveu sua reconhecida trajetória artística. De voz grave, aveludada e uma peculiar batida de violão, comparece com o inédito samba Conselho.
            No contexto instrumental, encontram-se registradas peças de renome mundial: o tango  Brejeiro (1905) e a polca Apanhei-te Cavaquinho (1916), ambas do genial Ernesto Nazareth, reverenciadas pela brilhante pianista Maria Teresa Madeira, ao lado do virtuose bandolinista Pedro Amorim; o clássico choro Carinhoso (Pixinguinha, 1928),  duo perfeito de Clara Svener (piano) com o saudoso Paulo Moura (clarineta); o belíssimo samba-canção Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá, 1958), desenvolvido pelo trio do pianista Gilson Peranzzetta (com Paulo Russo, contrabaixo e João Cortez, bateria) e participação especial de Mauro Senise(sax), além da melódica Minha Namorada (Carlos Lyra, 1964), destacada por improvisações jazzísticas do Rio 65 Trio, formado pelos notáveis Dom Salvador (piano) vivendo em Nova York desde 1973, Sérgio Barroso (baixo) atualmente no Osmar Milito Trio e Edson Machado (bateria) falecido em 1990.

            Confirmando o status de “imortal”, o samba dos anos 30/50 mereceu outras ótimas leituras para pérolas como Maria (Ary Barroso e Luiz Peixoto, 1931) por Jane Duboc e Arismar do Espírito Santo ao violão, Escurinho/Escurinha (Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, 1955/1952) pelo ator e sambista tijucano (falecido em 2009) Nadinho da Ilha, Nunca Mais (Dorival Caymmi, 1949) com Ângela Rô Rô e Hélio Delmiro ao violão, Meus Tempos de Criança (Ataulfo Alves, 1956) e E O Mundo Não Se Acabou (Assis Valente, 1938) pelas cantoras da chamada “vanguarda paulistana” Ná Ozzetti e Eliete Negreiros (respectivamente), Alguém Como Tu (Jair Amorim e José Maria Abreu, 1952) na voz do cearense Fagner, Só Pra Chatear (Príncipe Pretinho, 1947) pelo saudoso sambista Noite Ilustrada.

            Composições de grande repercussão popular, com temáticas românticas, ganharam expressivas roupagens em Molambo (Jayme Florence e Augusto Mesquita, 1953) na voz de Roberto Luna, Neste Mesmo Lugar (Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, 1956) com Selma Reis, Eu Sei Que Vou Te Amar (Tom Jobim e Vinicius de Moraes, 1959) por Dori Caymmi, Negue (Adelino Moreira e Enzo de A. Passos, 1960) com Pery Ribeiro, Ternura Antiga (Dolores Duran e Ribamar, 1961) pela cantora Marisa Gata Mansa, Sem Fantasia (Chico Buarque, 1968) dueto de Joyce e Emílio Santiago, Preciso Aprender A Só Ser (Gilberto Gil, 1973) Fafá de Belém acompanhada por Wagner Tiso ao piano, As Rosas Não Falam (1976) performance de Ney Matogrosso, Cão Sem Dono (1977) presença de Zizi Possi, Caçador de Mim (Sérgio Magrão, Luiz Carlos Sá, 1980) interpretação de Milton Nascimento, Pra Fugir da Saudade (Paulinho da Viola e Elton Medeiros, 1982) pela dupla Célia e Zé Luiz Mazziotti.

            Por outro lado, mensagens políticas de protesto e insatisfação social são manifestadas nos sambas De Frente Pro Crime (João Bosco, Aldir Blanc, 1974) e Aguenta a Mão João (Adoniran Barbosa, Hervê Cordovil, 1971) em recados contundentes do conjunto MPB-4 (na formação inicial) e do cantor Carlinhos Vergueiro, respectivamente. Em contraponto, as canções Que Maravilha (Jorge Ben, Toquinho, 1969), Lança Perfume (Rita Lee, Roberto de Carvalho, 1980), se tornaram clássicos instantâneos com suas originalidades interpretativas, misturando amor, sensualidade, alegria e muita bossa.

            Ao finalizar um inesgotável desfile de craques da nossa música popular, cita-se: a inesquecível marchinha Uma Andorinha Não Faz Verão (Lamartine Babo, Braguinha, 1937) em ritmo cadenciado do pernambucano Geraldo Azevedo; a toada Asa Branca (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, 1947) obra prima da canção nordestina em magnífica versão instrumental e cantada pelo valoroso Quinteto Violado; Exaltação a Tiradentes (Arlindo Penteado, Estanislau Silva, Mano Décio, 1949),admirável e campeoníssimo samba enredo da tradicional escola Império Serrano, com o saudoso Mestre Marçal, e o maxixe Pelo Telefone (Donga, Mauro Almeida, oficializado como samba em 1916). Com tanta polêmica em torno desta composição (notadamente quanto ao gênero e autores), apresenta-se a rara gravação do cantor e pesquisador Almirante com Pixinguinha (orquestração e regência) e o Grupo da Velha Guarda, incluindo Donga (prato e faca), João da Baiana (pandeiro), Heitor dos Prazeres (ganzá), Alfredinho (Flautim), Bide (afoxé), entre outros.

            Pelo Telefone terminou como título, acrescentado de Uma Viagem Através da Música Popular Brasileira, do nosso livro iniciado, sem sabermos, aos oito anos de idade, envolvido pelo encantamento da marcha carnavalesca Uma Andorinha Não Faz Verão acima citada.

 

Luiz Carlos de Paula

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