LECI BRANDÃO (Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1942)

            Nascida no bairro de Madureira, de família humilde, Leci Brandão da Silva foi criada em Vila Isabel e desde criança ajudava a mãe na limpeza da escola onde trabalhava, no centro da cidade. Cresceu ouvindo Jamelão, Carmen Costa, Ruy Rey e sua orquestra, Luiz Gonzaga, Bienvenido Granda, Jacob do Bandolim na vitrola do pai, e lendo seus jornais. Estudava à noite, além de conseguir empregos na Datamec e Telerj.

Nesta época, participou do programa A Grande Chance, apresentado por Flávio Cavalcanti (TV Tupi, 1968) vencendo na categoria de compositora. No início dos anos 70, formou-se em Direito pela Universidade Gama Filho. Em 1972, ingressou na ala de compositores da Mangueira. No ano seguinte, Jorge Coutinho (um dos responsáveis pelo histórico projeto “Noitada de Samba”) ao ver Leci cantar na quadra da “verde e rosa”, a convidou para se apresentar no Teatro Opinião. Segundo suas palavras: “Ela foi e ficou. Agradou, cantando descalça.”  

Em 1974, levada por Sérgio Cabral, gravou seu primeiro álbum Leci Brandão (compacto duplo, Marcos Pereira) com as autorais Deixa pra Lá, Benedito de Lima, Preferência e Quero Sim (com Darcy da Mangueira). No ano seguinte, foi editado o LP Antes que eu volte a ser nada (selo Copacabana, relançado em CD, série 2 em 1 – EMI, 2003), incluindo músicas autorais, como a faixa título, samba finalista no Festival Abertura, da rede Globo no mesmo ano e do repertório alheio como A Mais Querida (Padeirinho). Vieram, em seguida: Questão de Gosto (1976), Coisas do Meu Pessoal (1977) e Metades (1978) todos em selo Polydor.

Na década de 80, após o lançamento do LP Essa Tal Criatura (Polydor, 1980) rescindiu contrato com a gravadora Polydor, e só voltou a gravar cinco anos depois, o álbum Leci Brandão (selo Copacabana) no qual incluiu um dos seus maiores sucessos Zé do Caroço (...E na hora que a televisão brasileira/ Distrai toda gente com sua novela/ É que o Zé põe a boca no mundo/ É que faz um discurso profundo/ Ele quer ver o bem da favela/ Está nascendo um novo líder/ No morro do Pau da Bandeira...). o disco foi relançado em 2003, conforme anteriormente citado. Novo trabalho surgiu em 1987, com o LP Leci  Brandão: Dignidade (selo Copacabana), no qual manda o seu recado, na contundente Talento de Verdade (coautoria de Alceu Maia): Mulher, deixa de bandeira/ Mulata nunca foi uma profissão/ Mucama você é a musa/ No canto da minha nação.../ Assuma a sua identidade/ Seja negra de verdade/ Seja mais, seja mulher. Em prosseguimento, com a gravadora Copacabana: Um Beijo no seu Coração (1988) sucesso nacional para Olodum, Força Divina (Betão, Tonho Matéria), e Leci recebe seu primeiro Disco de Ouro; As Coisas que Mamãe me Ensinou (1989) empolgante desde o início: A mãe da gente é um caso diferente/ Muito mais que comovente que não dá pra comparar/ O que eu sei, é que tudo que eu sou/ Simplesmente é resultado das coisas que mamãe me ensinou (parceria com Zé Maurício).

Os anos 90 começaram brilhantes com o LP Cidadã Brasileira: Leci Brandão da Silva (selo Copacabana), que mereceu do Prêmio Sharp de Música Brasileira, na categoria “Samba”, troféus para a canção Maravilha “Ara Ketu: semente da memória” (de Tonho Matéria) e arranjos  (Alceu Maia). Em 1992, o álbum Leci Brandão: Comprometida (selo Copacabana), vale destacar Bate Tambor (com Zé Maurício): É na palma da mão olha meu amor/ Nesse meu Brasil todo mundo bate tambor/ Bumba meu Boi e Boi-Bumbá, Ijexá, Maculelê/ Carimbó, Tambor de Mina, Ciranda, Cateretê/ Tem Calango e tem Fandango, tem Partido versador..., entre outras pérolas. No ano seguinte, gravou na RGE o CD Leci Brandão: Atitude. É para aplaudir o criativo samba Deixa Viver (coautor Dionísio Santos): Veste a bermuda e um bom chinelo/ Toma cerveja, domingo é belo/ Bota uma carne na churrasqueira/ Para um amigo que viu na feira/ Essa é a vida da zona norte/ Paz e saude, que boa sorte. Em 1995, novamente pela RGE, lançou o CD Anjos da Guarda, com música dedicada aos professores: Na sala de aula/ É que se forma um cidadão/ Na sala de aula/ É que se muda uma nação/ Na sala de aula/ Não há idade, nem cor/ Por isso aceite e respeite/ O meu professor. Em seguida, foi editado o álbum Somos da Mesma Tribo (Movie Play, 1996), interpretações antológicas em Desta Vez Eu Vou (Martinho da Vila, Alceu Maia), Reconquista (Serginho Beagá), Depois Que o Ilê Passar (Miltão), e na incisiva e autoral, que dá nome ao disco (...Somos da mesma guerra/ Se mexerem com a bandeira/ Somos da mesma terra/ Tribo Brasileira). Em 1999, com temas românticos, emplacou Leci Brandão: Autoestima (selo Trama), incluindo pérolas como Nota Máxima (André Renato, Sereno, Júlio César), Rendição (Adauto Magalha, Almir Guineto, Capri), Cumplicidade (Peninha, Elias Muniz), Autoestima (...Foi você quem jurava mentindo/ E sorrindo fingia me amar/ Me feriu de um modo profundo/ E agora quer me restaurar...), coautoria de Zé Maurício.

Ao alvorecer do novo século, em show realizado na Choperia do SESC Pompéia/SP, gravou Ao vivo Leci Brandão: eu sou assim (Trama, 2000), e homenageia seu amigo e parceiro Martinho da Vila no pot-pourri Canta Canta, Minha Gente/ Quem é do mar não enjoa/ Madalena do Jacu (adaptado de congada de Barra do Jacu/ES)/ Casa de Bamba. Em 2002, pela Indie Records, repetiu a dose do local anterior, desta vez na celebração do 80º aniversário da mãe com o show A Filha da Dona Lecy: ao vivo: Eu sou a filha da dona Lecy/ Mulher que mora no meu coração/ E tudo aquilo que já construí/ Foi resultado dessa criação. Com título sugestivo, novo excepcional lançamento: Leci Brandão: A Cara do Povo (Indie Records, 2003), para citar, entre outras, Perdoa (Xande de Pilares, Helinho do Salgueiro), Sofreguidão (Cartola, Elton Medeiros), e com sua assinatura O Dono e o Povo (...Quem desceu pra votar, não muda a vida/ Quem subiu pra enganar, sabe a saída/ Mas não conta pro povo do morro). Em 2008, sempre inovando e renovando, Leci apresentou o CD Eu e o Samba (LGK Music, Som Livre), com participações especiais do sambista “Fundo de Quintal” Mário Sérgio (┼ 2016) em Sei que não valeu te amar (Arlindo Cruz, Junior Dom, Maurição), de Simoninha em Tributo a Martin Luther King (Wilson Simonal, Ronaldo Bôscoli), de Mart’nália em O Criador (Xande de Pilares, Luiz Cláudio Picolé), e o belo samba Difícil de Acreditar (Foi difícil acreditar/ Quando você falou/ Que era o fim/ Mais difícil foi disfarçar/ E uma lágrima rolou de mim), com o parceiro sempre constante Zé Maurício. Seu último trabalho Leci Brandão: simples assim (Independente), chama atenção para inéditas como Nasci pra te Amar (Quando a lua adormeceu/ E o sol docemente acordou/ Pra aquecer nosso amor/ Eu e você/ Uma noite linda de prazer/ No momento se fez, como a gente sonhou...), parceria com Xande de Pilares e Gilson Berlini, e Com as graças de Deus (O amor tem de ser/ Com as graças de Deus/ Se não for/ Não vai durar/ Vai fazer chorar/ Pode até enlouquecer/ Seu amor tem que ter bem querer), coautoria de Pedrinho Sem Braço.

Leci Brandão, cantora de projeção nacional, consagrada com apresentações na Europa, África, Estados Unidos, Canadá, Cuba, de voz e ritmo envolventes que vem do fundo do coração. Mulher guerreira na luta pela igualdade racial, no combate à injustiça social, prega a liberdade de expressão sexual, de múltiplas atividades, personalidade forte, diz o que pensa e com propriedade: “Cantei e canto para o povo, canto o Brasil, canto as agruras do nosso povo” www.vermelho.org.br (8 de março de 2012).


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