GALLOTTI (Rio de Janeiro, 7 de fevereiro de 1964)

            Quem nasceu em pleno período carnavalesco, só poderia estar predestinado a ser um “folião de raça”, expressão consagrada pelo imortal Ary Barroso no antológico samba Camisa Amarela. Eduardo Gallotti Póvoa foi um desses felizardos contemplados pelo “dom”, que já nasceu em seu coração lá pelas bandas do bairro de Botafogo. Os pais Helion Póvoa Filho (médico) e Maria Lucia Gallotti (advogada) lhe proporcionaram adequada escolaridade, através dos tradicionais colégios Santo Inácio e São Vicente. Neste último, em 1980, conheceu o músico Jayme Vignoli com seu cavaquinho, que exibia para os colegas. O jovem Gallotti (influenciado pelo irmão mais velho Helion Neto) nutria admiração por Moreira da Silva, Paulinho da Viola, e entusiasmado foi conduzido, pelo amigo, a movimentada roda de samba no Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), na rua Conde de Irajá. Lá também comparecia Henrique Cazes, Marcos Suzano, Eduardo Marques, Nelson Sargento, entre outros. Envolvido pelo ambiente do samba e chorinho, passou a estudar com os mestres Cazes (orientou a compra do seu primeiro cavaquinho) e o percussionista Suzano (lições de pandeiro).  

Assim, começou a se exibir nos grupos “Água de Moringa”, “Nó em Pingo d’Água”, além de cursar apenas o primeiro semestre de Biologia na FAHUPE (Faculdades Humanas Pedro II) quando em 1984, felizmente, optou por cantar e tocar cavaquinho em dupla com o já citado Eduardo Marques no extinto “Arco da Velha”, na Lapa. Em 1989, participou do grupo “Éramos Seis”, do ator e cantor Mauro Silveira, na ótima novela de época Kananga do Japão (dirigida por Tizuka Yamazaki, Rede Manchete). A partir da década seguinte, iniciou várias rodas de samba, que movimentaram os fins de semana no Rio e adjacências, em bares e restaurantes badalados, como Candongueiro (Niterói), Sobrenatural (Santa Tereza), Severyna (Laranjeiras), Emporium 100 (Lapa), entre outras. Durante esta época, foi um dos principais responsáveis pela revitalização da Lapa, alcançada pela abertura de novas casas de shows, em paralelo à restauração de edifícios históricos e a promoção de feira de antiguidades.

Seu álbum de estreia Gallotti: O Samba das Rodas (Carioca Discos, Rob Digital, 2002), um desfilar de obras primas expostas em grupos temáticos, como Cem Mil-Réis/ Sem Tostão/ O Orvalho Vem Caindo (Noel Rosa/Vadico/Arthur Costa/Kid Pepe); Nega Dina/ A Banca do Distinto (Zé Ketti/Billy Blanco); Chegou A Bonitona/ Pisei Num Despacho/ Você Está Sumindo (Geraldo Pereira/José Batista/Elpidio Viana/Jorge de Castro); Se Você Jurar/ Quebrei A Jura/ Nem É Bom Falar (Ismael Silva, Nilton Bastos/Haroldo Lobo, Milton de Oliveira). Imperdível! É para se ouvir sempre.Em 2006, em duo com o cantor Pedro Miranda, gravou (para o CD Coisa com Coisa inaugural do amigo - Deckdisc) o clássico Caixa Econômica (Nássara, Orestes Barbosa), no qual se divertiram com muita verve. Neste mesmo ano, atuou como ator e cantor, do premiado e tocante filme Noel: Poeta da Vila, dirigido pelo cineasta paulista Ricardo Van Steen. Em 2007, convidado pela embaixada brasileira em Honduras, Gallotti fez três apresentações na capital Tegucigalpa, acompanhado pelo violonista Felipe Trota e trio de percussionistas. Em 2010, participou do ótimo CD Orquestra Republicana: ao vivo na Lapa, ao lado dos cantores Alfredo Del-Penho (violão 7 cordas) e Mariana Bernardes (cavaco), João Hermeto (bateria), Miro do Surdo, entre outros.De sua autoria (com Orlando Magrinho e Mário Moura), cantou o gaiato samba “Vovó Curandeira” (Desde menina vovó aprendeu a fazer uso das ervas/ E que o bom remédio tem que ser natural/ Só as ervas curam sem efeito colateral) e “Partido do Homem Solteiro”(abaixo citado).Em 2013, apresentou-se em Lisboa no “Espaço Brasil”, em interessante espetáculo Quem foi que inventou o Brasil? ao lado violonista Luiz Filipe de Lima, com repertório que incluiu Sinhô, Noel Rosa, Aldir Blanc e João Bosco, além de Lamartine Babo (que batizou com sua marchinha o show), focado em referências da herança lusitana na cultura do país. Gallotti comemorou, em alto estilo, seus trinta anos de samba com a edição do CD Quem Me Conhece (Independente, 2015), vale conferir “tim-tim por tim-tim”, incluindo as autorais “Ela Não Quer Dançar Contigo”(...Ninguém te aguenta mais/ Você tá sempre a perigo/ E bota banca demais/ Só olha pro seu umbigo/ Preste atenção no que faz...) e “Partido do Homem Solteiro”(Elas só olham pra mim quando chego ao samba acompanhado / É como diz o ditado: elas gostam de homem com a mulher do lado... , do repertório alheio Modificado (Padeirinho), Naqueles Dias (Rogério Bicudo, Albert Barbara), e muito mais. No ano seguinte, foi recebido pelo violonista e parceiro Rogério Bicudo (residente em Amsterdam) apresentando-se no badalado Café ‘t Monumentje, com o seu Clube do Samba. Como compositor, entusiasta do carnaval de rua, assinou sambas para vários blocos tradicionais como: Barbas, Imprensa que eu Gamo, Simpatia é quase Amor, entre outros. Atualmente, o incansável artista acompanhado do seu grupo “Centelha” se apresenta no casarão centenário do “Trapiche Gamboa”, com repertório autoral e clássicos de ontem, de hoje e de sempre. Simplesmente imperdível!

Eduardo Gallotti, de voz rascante e singular, interpreta com naturalidade e no ritmo correto, de acordo com o tema da canção. Suas performances públicas ou em aparelhos de som, são divertidas, bem ao estilo carioca que empolga, faz dançar, cantar, e ouvir feliz de “lavar a alma” em tempos sofridos, carentes, injustos e violentos. O entusiasmo, amor e dedicação pelo seu trabalho continuam a moldar uma carreira, orgulho para a história da nossa música popular. Com certeza, “o samba é o seu dom! Ô sorte”!


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