CARLINHOS VERGUEIRO (São Paulo, 27 de março de 1952)

            Nascido no bairro da Bela Vista, na região central da cidade, Carlos de Campos Vergueiro, ainda criança, recebeu seus primeiros ensinamentos musicais com o avô materno Guilherme Fontainha renomado pianista. Seu pai Carlos Pereira de Campos Vergueiro foi ator de teatro, compositor e roteirista de cinema, o irmão caçula Guilherme Vergueiro (notório pianista e compositor) e sua filha Dora Vergueiro (cantora e compositora, com vários discos na praça) complementam o DNA musical. Já morando em Higienópolis, aos 12 anos, aprendeu violão com a cantora Inezita Barroso e estudou no tradicional Colégio Mackenzie (no início dos anos 70, fez um show pra 2000 pessoas ao lado do amigo Belchior).

Trabalhando na bolsa de valores em São Paulo, com a atenção sempre voltada para a música, Vergueiro participou como finalista do Festival Universitário da TV Tupi (1972), com o samba Só O Tempo Dirá, gravado em compacto simples (selo Chantecler, 1973), incluindo ainda E Bateu-se A Chapa (Assis Valente). No mesmo ano, lançou outro compacto (selo Ariola), incluindo suas composições Bandida e Refém, coautorias de J. Petrônio e Cacaso, respectivamente.

Em 1974, apósa edição do LP Carlinhos Vergueiro: Brecha, totalmente autoral (selo Continental), deu um sonoro adeus ao mercado financeiro, e decidiu dedicar-se, inteiramente ao que melhor sabia fazer: cantar e compor. Assim, vieram os LPs: anualmente: Só O Tempo Dirá (Continental, 1975) participação da Velha Guarda da Portela na faixa título, todas autorais, exceto Paraquedista (José Leocádio); Carlinhos Vergueiro (Odeon, 1976) parcerias com Toquinho em Camisa Molhada e Eu Sei Que Vou Te Incomodar, além de Cachimbo (E O Vento Levou), de Arthur Gebara Jr (Sem Sentir), de Horondino Silva e Dininho (Inês); Pelas Ruas (Odeon, 1977) vale destacar, entre outras, Porque Será (com Toquinho, Vinicius de Moraes) e a participação de Cristina Buarque em Teimosia (Vergueiro); Contra Corrente (Som Livre, 1978), totalmente autoral (Orelhão de Avenida, Rendição, entre outras,com seu parceiro mais constante J. Petrolino, acrescentado de Toquinho na faixa As Duas Margens do Rio.

Cabe ainda ressaltar, em 1975, o Festival da Nova Música Brasileira – Abertura, realizado no Teatro Municipal de São Paulo, promovido pela Rede Globo, vencido pelo talento de Carlinhos Vergueiro, com a envolvente canção Como Um Ladrão (Como um ladrão roubei/ Rostos, restos, risos/ Como um ladrão corri/ Riscos, mares, medos...). Entre os participantes Djavan, Alceu Valença, Luiz Melodia, Jards Macalé. Em 1978, apresentou- se no badalado Projeto Pixinguinha, espetáculo itinerante por dez capitais brasileiras, dirigido por Sérgio Cabral com foco no mestre Cartola e participação da cantora Claudia Savaget.  

Na década de 80, registraram-se: Na Ponta da Língua (Ariola, 1980), parcerias com Novelli em Desatino e Alvorada; Passagem (Ariola, 1981) sucesso em Samba Menor (com João Nogueira e Novelli); Felicidade (Opus Columbia/CBS, 1983) sobressaem a faixa título (com Danilo Caymmi) e Uma Estória de Amor (com Nelson Ângelo); Carlinhos Vergueiro (RCA Victor, 1986); 15 Anos de Carreira (Ideia Livre, 1988), participações especiais em todas as faixas: Chico Buarque (Brecha), Martinho da Vila (Dia Seguinte), Ney Matogrosso (O Ilusionista). Também atuou como produtor fonográfico nos LP/CD Geraldo Filme (Eldorado, 1980), Nelson Cavaquinho: as flores em vida (Eldorado, 1985), no qual interpreta Pecado (Nelson Cavaquinho, Ligia Uchoa), Malandro (Universal Music, 1985), música de Chico Buarque para o filme Ópera do Malandro, de Ruy Guerra.

Com a carreira consolidada, Carlinhos Vergueiro diminuiu o ritmo, para lançar CDs admiráveis, cuidadosamente trabalhados, como Contra-Ataque: samba e futebol (Independente, 1999): criativo, com temas deliciosamente abordados em parcerias antológicas, como Torresmo À Milanesa (Adoniran Barbosa), Monalisa (Paulo César Feital), Camisa Molhada (Toquinho). Em 2004, gravado ao vivo no Teatro Rival/RJ, com o amigo Ruy Faria (┼ 11/01/2018), o aplaudido Só Pra Chatear (selo Fina Flor), de repertório eclético e irretocável, apenas citando como exemplo, além da faixa (de Príncipe Pretinho) que batiza o disco: Kalu (Humberto Teixeira), Foi Uma Pedra Que Rolou (Pedro Caetano), Amigo É Pra Essas Coisas (Silvio da Silva Jr., Aldir Blanc), Peçam Bis (Ismael Silva). Em 2009, o peculiar CD Mano a Mano – Nossa Aliança: Carlinhos & Guilherme Vergueiro (Independente), com a dupla apresentando preciosidades como Lugar de Cobra É No Chão, Disritimou, Nossa Aliança (de Carlinhos com Arlindo Cruz, Martinho da Vila, Sombrinha/Gordinho, respectivamente).  No ano seguinte, em homenagem aos 100 anos do amigo Adoniran Barbosa, o álbum Dá Licença de Contar (Biscoito Fino, 2010) registra, com perfeição, a obra do mestre, em momentos, como: Apaga o Fogo Mané, Aguenta a Mão João (com Hervê Cordovil), As Mariposa, Trem das Onze, participação do Conjunto Galo Preto. Em 2011, novo tributo ao centenário do companheiro mangueirense, com Carlinhos Vergueiro Interpreta Nelson Cavaquinho (selo Biscoito Fino), emocionante desde os primeiros acordes, com arranjos de Afonso e Tiago Machado, cabe citar, entre outras: Palhaço (com Oswaldo Martins, Washington Fernandes), Notícia (com Norival Bahia, Alcides Caminha), Folhas Secas e Pranto do Poeta (essas com Guilherme de Brito), participações especiais de Wilson das Neves e Marcelinho Moreira, respectivamente. Retornando ao trabalho autoral, o CD Carlinhos Vergueiro: vida sonhada (Biscoito Fino, 2012), o ótimo samba Sem Refrão (com Dora Vergueiro), o choro-fado Chorar no Fim, Samba da Vida e a faixa título (essas com J. Petrolino), justificam a inesgotável inspiração do compositor. Seu último CD Carlinhos Vergueiro interpreta Paulo poeta compositor cientista boêmio Vanzolini (Sarapuí, 2013), fecha (por enquanto) com chave de ouro a discografia, aqui apresentada. É para se ouvir sempre, principalmente pelas pérolas Maria Que Ninguém Queria, Mulher Que Não Dá Samba, Ronda, Volta Por Cima.

Carlinhos Vergueiro, de voz grave e agradável, educada no ritmo certo, compositor de toques sutis e refinados, colecionador de amizades musicais, que lhe proporcionaram uma vivência extraordinária com mestres do nosso cancioneiro, nos mais variados gêneros e estilos.


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