BEZERRA DA SILVA (Recife/PE, 9 de março de 1927 – Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2005)

            Aos 15 anos de idade, José Bezerra da Silva embarcou em um navio cargueiro para o Rio, trazendo seu sonho de uma vida melhor. Após um período de muitas dificuldades, instalou-se no morro do Cantagalo, e passou a trabalhar como pintor de paredes. Em 1950, foi levado à antiga Rádio Clube do Brasil, pelo compositor José Alcides, seu vizinho de favela, sendo contratado como percussionista.

Em 1969, gravou o primeiro compacto simples com as músicas Mana Cadê Meu Boi (parceria com Jorginho) e Viola Testemunha (coautoria de Almir Delfino e Jorge Garcia), em selo Copacabana. A partir dos anos 70, iniciou a edição de uma série de LPs, entre cocos e partido alto, com destaques para: O Rei do Coco (Tapecar, 1975), Valente Na Boca do Boi (Arnô Canegal, Waldemar Silva), Coco de Itambé, Rima de Doê (ambas de sua autoria), Vai Chover Hoje Urubu (Antônio Rodrigues, Buco do Pandeiro); O Rei do Coco, Vol. 2 (Tapecar, 1976), Carne de Pescoço (parceria com Darci de Souza), Não Sou Valente (Dida, Neoci), O Rei do Coco (de sua autoria), Vamo Simbora Neném (Avarese), e Partido Alto Nota 10 (CID, 1977), Malandro Demais Vira Bicho (parceria com Nilo Dias), Dona Maria Baiana (coautoria Arnô Canegal) participação de Genaro, e Dedo Duro (Joel Silva). Nessa época, começou a estudar música, integrou a partir de 1977 a orquestra de percussão da TV Globo, onde permaneceu até 1985.

Nos primeiros anos da década de 80, assumiu o papel de verdadeiro repórter do morro, ao utilizar compositores que viviam aquele ambiente, com ótimo repertório, e seus álbuns passando a ser editados também em CD, pelo selo RCA Victor, sempre com vários sucessos: Produto do Morro (1983): Fui Obrigado A Chorar, Minha Sogra Parece Sapatão (essas de Tião Miranda e Roxinho), Produto do Morro (Eliezer da Ponte, Walter Coragem), Todo Errado (Athayde Lucena, Nelson Cebola); É Esse Aí Que É O Homem (1984): Defunto Caguete (Adelzonilton, Ubirajara Lucio, Franco Teixeira), Foi O Dr. Delegado Que Disse (Caboré, Pinga, Jorge Portela), O Rei da Cocada Preta (com Délcio Carvalho), Rabo de Foguete (Luiz Grande); Malandro Rife (1985): Bicho Feroz (Tonho, Claudio Inspiração), No Meu Barco (Sarabanda, Zé Dedão do Jacaré), Malandro Rife (Otacilio, Ary do Cavaco), Vítimas da Sociedade (com Crioulo Doido); Alô Malandragem, Maloca O Flagrante (1986): Meu Bom Juiz (Beto sem Braço, Serginho Meriti), Língua de Tamanduá (Tião Miranda, Valmir), Na Boca do Mato (Luiz Grande), Sua Cabeça Não Passa Na Porta (Barbeirinho do Jacarezinho); Justiça Social (1987): Partideiro Indigesto (Nilo Dias, Adelzonilton, Crioulo Doido), O Dr. Está Na Sua Capitulação (Moacir da Silva, Ubiracy de Oliveira), Justiça Social (Marujo, Duda); Violência Gera Violência (1988): Candidato Caô Caô (Walter Meninão, Pedro Butina), Vida de Operário (Romildo, Edson Show, Nei Alberto), Violência Gera Violência (Grilo, Sergio Fernandes, Reinaldo), Raiva de Tudo (Gracia do Salgueiro) com participação de Genaro.

A partir dos anos 90, assumiu o selo BMG, com novos lançamentos: Bezerra da Silva: eu não sou santo (1990): Quando O Morcego Doar Sangue (Cosme Diniz, Rosemberg), Mudo Caguete (Pedro Butina, Cosme Diniz), Eu Não Sou Santo (Nilo Dias, Adelzonilton, Crioulo Doido), Se Não Avisar O Bicho Pega (Jorge Carioca, Marcinho, Marquinho PQD) participação de Genaro; Presidente Caô Caô (1992): Assombração de Barraco (José Carlos, Elson Gente Boa), Eu Sou Favela (Noca da Portela, Sérgio Mosca), Sou Cadeado (Pinga, Genilda do Pinga) com Genaro, Nariz de Bronze (Cláudio Inspiração, Tonho Magrinho); Cocada Boa (1993): Overdose de Cocada (Dinho, Ivan Mendonça), Chorão de Aluguel (Carlinhos do Jorge Turco, Pedro Butina, Jaime Bahia), Prepara O Pinote (Nilo Dias, Adelzonilton, Franco Teixeira), Veneno de Peçonha (Zaba) participação de Genaro. Ao sair da gravadora BMG, Bezerra viajou para os Estados Unidos, onde fez vários shows desde a Flórida até Washington, seguindo depois para Angola. De volta ao Brasil, gravou Contra O Verdadeiro Canalha (RGE, 1995), incluindo O Verdadeiro Canalha (Jorge Mirim, Rodrigo, Sergio Fernandes) participação de Genaro, Malandro Moderno (Eli Santos, Raimundo Barros Filho), Com Dinheiro Tudo Bem (Mathias de Freitas, Carlinho Bohemia), Defunto Morto Não Fala (Adelzonilton, Franco Teixeira). Ainda em 1995, Bezerra da Silva, Dicró e Moreira da Silva realizaram o espetáculo Os 3 Malandros In Concert, uma bem humorada sátira aos notáveis tenores José Carreras, Pavarotti e Plácido Domingo, que resultou no CD homônimo (selo CID), direção musical do maestro Jaime Alem, e nos acordes iniciais já proclamam: É o maior show do ano/ esse grande recital Dicró, Bezerra e Moreira/ cantando no Municipal. No ano seguinte, apresentou Meu Samba É Duro Na Queda (RGE, 1996): com destaques para Tira Gosto (Marimbondo, Regina do Bezerra, Carlinhos Russo), A Fumaça Subiu Pra Cuca (Adelzonilton, Tadeu do Cavaco), Venta Nervosa (Careca MC, Valéria do Cavaco, Regina do Bezerra), Vírus da Corrupção (Nilo da Bahia, Zaba). Na virada do século, lançou o ótimo CD Malandro É Malandro Mané É Mané (Atração Fonográfica, 2000), com o humor de sempre: Tem Coca Aí Na Geladeira (Regina do Bezerra), Medo De Virar Galeto (Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho, Marcos Diniz), Só Não Posso Dar O Céu (parceria com Regina do Bezerra), e a faixa que dá nome ao disco (autoria de Neguinho da Beija-Flor). A respeito desta música, Bezerra tirou suas conclusões: o pobre é Mané! Malandros são os que têm curso superior e ficam em prisão especial, os que têm imunidade parlamentar e outros tantos espertos.

Em seus últimos anos de vida, adotou a doutrina da igreja evangélica, mas continuou a gravar suas verdades em defesa das comunidades dos morros, onde conheceu uma dura realidade. Intérprete de estilo peculiar, irreverente e com muito humor, palavreado malandro, Bezerra da Silva intercalava entre intervalos de versos, expressões como Aí Tá Certo!, Certíssimo! Diga Lá!, Eu Falei!, Eu Falei pra Você!, Olha Aí!, Podes Crer!, Sujou, Sujou!, usou e abusou de temas explosivos ao tratar de drogas e traficantes, criticou sem piedade alcaguetes, fofoqueiros e mercenários, abordou, sem relutar, personagens corno sogras e piranhas, combateu intensamente a corrupção, a impunidade e as injustiças sociais. Um grande sambista, que soube dizer: Eu não sou santo!


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