JOÃO DA BAIANA (Rio de Janeiro, 17 de maio de 1887 – 12 de janeiro de 1974)

            Criado na Pedra do Sal, região do bairro da Saúde (próximo ao cais do porto), onde se concentrava a colônia baiana, com seus terreiros de candomblé e grupos festivos, João Machado Guedes aprendeu, ainda criança, a tocar pandeiro quando acompanhava a mãe Perciliana Maria Constança, baiana de Santo Amaro, na casa da famosa Tia Ciata. Logo, passou a se apresentar como porta-machado (responsáveis pela segurança dos estandartes que abriam o desfile) no pioneiro rancho Dois de Ouro, quando introduziu o pandeiro, até então apenas utilizado em orquestras. Aos quinze anos de idade, tornou-se atração em festas da sociedade carioca, por sua habilidade como pandeirista.

Em 1908, João da Baiana tendo sido preso pela polícia, que tomou o seu pandeiro (considerado símbolo de malandragem), quando tocava em uma festa na Penha, foi presenteado com um novo pelo senador Pinheiro Machado, apreciador dos ritmos populares, com a inscrição assinada: À minha admiração, João da Baiana. Em 1910, passou a trabalhar no Cais do Porto, sendo promovido a fiscal, dez anos depois. Em 1911, foi diretor de harmonia do lendário rancho Kananga do Japão, e desfilava pelas ruas batendo o seu pandeiro no ritmo exato, comandando a bateria. Em 1927, Patrício Teixeira gravou seu samba Dona Clara “Não Te Quero Mais” (coautoria do intérprete), em seguida O Futuro É Uma Caveira, Pelo Amor da Mulata (esses em 1930) e Idalina Vai-se Embora (1931), e Almirante o precioso Deixa Amanhecer (parceria com Bide) em 1935, todos em selo Odeon. Ainda em 1928, João da Baiana ingressou no Rádio como ritmista de pandeiro, prato e faca, trabalhando em diversas emissoras como Cajuti, Transmissora, Philips, Mayrink Veiga e Nacional. Ao relembrar as antigas sessões de candomblé realizadas em sua própria casa na Rua Senador Pompeu, e áreas vizinhas, nasceu o interesse de compor e gravar diversas músicas com essa temática, iniciadas com o samba Viva Meu Orixá (Odeon, 1932), e as macumbas Sereia e Folha Por Folha (parcerias com Getúlio Marinho “Amor”), em selo Victor (1938).

Em 1941, participou do grupo de cantores e instrumentistas (incluindo Donga, Pixinguinha, Jararaca e Ratinho, Luiz Americano, entre outros), que gravaram músicas a bordo do navio americano S. S. Uruguay, selecionadas pelo maestro Leopold Stokowski para o álbum Native Brazilian Music (Columbia), como política de boa vizinhança norte-americana, durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1950, João da Baiana e Sussú, expoentes pioneiros na gravação de música umbandista, lançaram em selo Odeon, o raro LP Batuque e Pontos de Umbanda, com João em destaque nos corimas: O Cachimbo da Vovó, Amalá de Xangô, Nanan Boroquê. Também em muitos dos sambas que compôs (Carnaval Sedutor, Desacerto do Lar, etc.) encontram-se frases, bordões apanhados de “pontos” recolhidos de terreiros dos famosos “pais de santos” João Alabá e Cipriano Abedé. Com Donga e Pixinguinha, companheiros de infância, fundou o histórico Grupo da Velha Guarda (com participações de Almirante, J. Cascata, e outros), gravou três LPs (selo Sinter) fundamentais na discografia nacional, com João da Baiana, acompanhado do seu famoso pandeiro: A Velha Guarda, incluindo o clássico partido alto Patrão Prenda Seu Gado, autoria dos três inseparáveis amigos; Carnaval da Velha Guarda, com destaque para os sambas Pelo Telefone, de Donga/Mauro de Almeida, Gavião Calçudo, de Pixinguinha/Cícero de Almeida, (esses em 1955) e Festival da Velha Guarda, no repertório os choros Proezas do Sólon, de Pixinguinha/Benedito Lacerda, Fuxico, de Donga, e muito mais (1956).

Em 1968, foi lançado o álbum Gente da Antiga (selo Odeon), com Pixinguinha, Clementina de Jesus e João da Baiana, com os sambas Quê Quê Rê Quê, Cabide de Molambo e o seu antológico Batuque Na Cozinha (Batuque na cozinha/ Sinhá não quer/ por causa do batuque/ eu queimei meu pé). No ano seguinte, o cantor e diretor de cinema francês Pierre Barouh, fascinado pela nossa música, realizou o extraordinário documentário Saravah, com os pioneiros Pixinguinha e João da Baiana acompanhados dos jovens Paulinho da Viola e Maria Bethânia e do violão vigoroso de Baden Powell. Vale salientar a emocionante cena do saudoso sambista, no quintal do compadre Pixinga, falando de candomblé e macumba, sempre elegante, sapateando e cantando os seus sucessos. Lançado no Brasil somente em 2005 (DVD, selo Biscoito Fino). Retrocedendo a 1972, foi reeditado a compilação inicial Macumba (Sinter, 1958) pela série No Tempo dos Bons Tempos (selo Fontana), com novo título No Tempo de Macumba, e as peças autorais Ogum-Nelê, Vovó Joana do Aguiné, Vai I-Aô, Homenagem A Oxalá, de João da Baiana.

Aos 85 anos de idade, foi recolhido à Casa dos Artistas, falecendo dois anos depois. Multitalentoso, compositor, ritmista, cantor, pintor, sua elegância peculiar era notória com vistoso laço “a la pintor”, sapato de duas cores, de salto carrapeta, chapéu “gelot”, complementada com o andar gingado dos áureos tempos de capoeira e do samba pesado.

 


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