PATÁPIO SILVA
(Itaocara/RJ, 22 de outubro de 1880 – Florianópolis, 24 de abril de 1907)

            Nascido na região noroeste do estado (com grande tradição para bandas de música), primogênito da negra (filha de escravos alforriados) Amélia Amada de Medina Silva e do imigrante português Bruno José da Silva, aos cinco anos de idade fabricou a sua primeira flauta de bambu. Com a separação dos pais, em 1886, Patápio e os dois irmãos mudaram-se para Cataguases (MG), onde Bruno abriu uma barbearia. Já adolescente, passou a trabalhar com o pai, e sempre que podia tocava a sua flauta, aprimorando o desempenho musical. Ao obter algumas aulas com instrumentistas locais, com 15 anos de idade, ingressou na Banda Aurora Cataguasense. Sem apoio do pai para seguir carreira de músico, decidiu deixar a cidade, comprou uma flauta de chaves, e passou a tocar em diversas bandas no interior de Minas e do estado do Rio. Durante três anos, percorreu várias localidades, e compôs dobrados, marchas, valsas e polcas. Por volta de 1898, fez grande sucesso em Campos, conquistando em pouco tempo o posto de regente da Lira Guarani.

Aos 20 anos de idade, decidido a enfrentar o desafio de viver no Rio de Janeiro, Patápio com poucos recursos, graças ao chefe de trem, viajou de graça, num carro de bagagens. Logo começou a trabalhar como tipógrafo, morando modestamente, para manter o sonho de candidatar-se ao curso de flauta do célebre Instituto Nacional de Música (INM). Com auxílio do renomado professor Augusto Duque Estrada Méier, impressionado com o talento do jovem músico, Patápio iniciou seus estudos no INM no dia 1º de abril de 1901. Ao se destacar como aluno brilhante no 2º ano do curso, Patápio realizou 13 gravações fonográficas (selo Odeon) para a Casa Edison, tornando-se o primeiro instrumentista solo comercializado no Brasil, e bastante conhecido.  No repertório foram incluídas, entre outras, composições autorais como a valsa Amor Perdido, a polca Zinha, a mazurca Margarida, bem como de autores estrangeiros Allegro (Adolf Terschak) e Serenata (Franz Schubert). Em dezembro de 1903, concluído com distinção o curso do INM, Patápio Silva ainda recebeu, no ano seguinte, a ambicionada medalha de ouro executando as peças Concerto Op. 38 (Büchner) e a Sonata Op. 85 (F. Kuhlan), para um júri composto pelo diretor e vários professores da instituição.

Em 1905, fez sua primeira apresentação em São Paulo no Salão Steinway, uma das mais sofisticadas casas de concerto da cidade, merecendo aplausos prolongados e vibrantes da plateia. Com a boa impressão causada, Patápio decidiu, no ano seguinte, instalar-se na capital paulista, envolvido em intensa atividade artística. Enquanto se consolidava como emérito concertista, continuava a planejar sua viagem à Europa, onde desejava aperfeiçoar-se e visitar fábricas mais modernas de flautas. Para isso, realizou várias excursões pelo interior de São Paulo e Minas Gerais. Em 1907, após apresentar-se em Curitiba, nos Teatros Guaíra e Hauer, com grande repercussão, chegou à Florianópolis (12 de abril) hospedando-se no antigo Hotel do Comércio, na atual rua Conselheiro Mafra.

Na noite de 18 de abril (data de seu primeiro espetáculo), foi acometido de repentino mal estar e febre alta, permanecendo sob cuidados médicos, vindo a falecer, prematuramente, nas primeiras horas da manhã do dia 24, aos 26 anos de idade, em condições que originaram várias versões, não devidamente elucidadas ou comprovadas. Terminava o sonho musical do virtuose Patápio Silva.

Em 1957, Altamiro Carrilho homenageou o saudoso flautista com o LP Revivendo Patápio, incluindo do seu repertório, entre outras pérolas: Despertar da Montanha (Eduardo Souto), Canção Triste Op. 40 – Nº 2 (Tchaikovsky), Hora Staccato (Dinicu), Canção da Primavera Op. 62 – Nº 6 (Mendelssohn). Em 1977, foi lançado o precioso LP Os Pioneiros – vol. 1: Patápio Silva (Coronado, EMI, Odeon), com gravações realizadas em 78 rpm, da fase mecânica anteriormente citada: a valsa Primeiro Amor, a polca Só Para Moer (Viriato Figueira da Silva), Noturno nº 2 Opus 10 (Chopin). Com ótimo repertório selecionado, a Funarte editou Patápio Silva (1983), com leituras primorosas de sua obra por: Altamiro Carrilho e Luiz Eça (Evocação), Alceo Bocchino e Altamiro Carrilho (Sonho), Galo Preto (Volúvel), Banda do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro (Beija-Flor), e outros.

Em 1999, foi lançado o ótimo CD Toninho Carrasqueira toca Pixinguinha e Patápio Silva (selo Paulinas/COMEP), no qual o talentoso flautista paulistano interpreta Oriental, Idílio, Alvorada das Rosas (essa de Julio Reis). Em 2001, o CD Princípios do Choro (selo Biscoito Fino) promoveu esmerado trabalho ao contemplar, no bloco 15, informações biográficas sobre Patápio com 12 peças (do repertório alheio e autorais), e de seus intérpretes: a polca Quanto Te Amo (Carlos T. de Carvalho) com Pedro Amorim (bandolim) em dueto com Cristóvão Bastos (acordeom) e outros, o choro Nostalgia de Plutão (Patápio Silva), por Marcelos Bernardes (sax), Maurício Carrilho (violão de 7 cordas) e outros. No ano seguinte, o CD - Memórias Musicais 8: Patápio Silva (selo Sarapuí, Biscoito Fino), apresentou texto biográfico, 13 gravações pioneiras (1904 e 1907), como as romanças Serenata Oriental (Ernesto Köhler), Serenata d’Amore (autoral), o prelúdio Variações de Flauta (W. Popp), Allegro de Terschak (Adolph Terschak).

Outro lançamento expressivo ocorreu em 2006, pelo selo Revivendo: Patápio Silva: flauta imortal, em destaque, raridades como os Noturnos Nº 1 e Nº 2 (de autor desconhecido), por Patápio e o violonista Serpa, a já citada Evocação (dedicada ao seu querido mestre Duque Estrada), interpretada pelo flautista E. Marques Porto “Bororó” e Concert Fantasie (Wilhelm Popp), pelo saxofonista mineiro Ladário Teixeira. Flautista e compositor genial Patápio Silva, venceu bravamente as dificuldades financeiras, o preconceito racial, graças ao seu talento e dedicação, que lhe abriram as portas de um merecido sucesso.


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