LUPERCE MIRANDA
(Recife/PE, 28 de julho de 1904 – Rio de Janeiro, 5 de abril de 1977)

            Nascido e criado no bairro dos Afogados, aos oito anos de idade, Luperce Bezerra Pessoa de Miranda participava, com os irmãos mais velhos, dos ensaios que o pai, multi-instrumentista, promovia diariamente, para o repertório a ser tocado em clubes e cabarés. A partir de 1916, o talentoso Luperce começou a trabalhar como músico profissional da noite do Recife, tendo realizado seu primeiro recital de bandolim no famoso Teatro Santa Isabel. Três anos depois, tornou-se diretor do conjunto Jazz Band Leão do Norte, principal atração da histórica e sofisticada Confeitaria Glória, onde seria assassinado, em 1930, João Pessoa, presidente do Estado da Paraíba.

Em 1927, convidados por João Pernambuco e sob o patrocínio do Jornal Correio da Manhã, chegou ao Rio de Janeiro o grupo Turunas da Mauricéia, com trajes sertanejos e chapéu de palha de aba virada para cima, identificando seus componentes: Patativa do Norte (Augusto Calheiros – cantor), Periquito (João Frazão – violão), Guajurema (Manoel de Lima – violão), Bronzeado (Romualdo Miranda – violão), Riachão (João Miranda – cavaquinho e bandolim), divulgando ritmos e cantigas nordestinas, pouco conhecidas na região sudeste. A apresentação no Teatro Lírico, de grande repercussão, chegou a influenciar os emergentes Almirante, Noel Rosa, Braguinha, entre outros, que formaram o similar Bando dos Tangarás. No mesmo ano, os Turunas lançaram (selo Odeon) a embolada Pinião (Luperce Miranda, Augusto Calheiros), grande sucesso do carnaval carioca, no ano seguinte.

Em 1928, livre de seus compromissos profissionais em Recife, Luperce veio para o Rio de Janeiro, acompanhado do grupo Voz do Sertão (no qual despontariam o violonista e compositor Jaime Florence “Meira” e o cantor Minona Carneiro). De imediato, gravou vários 78 rpm (selo Odeon), com músicas de sua autoria: os choros A Farra do Olegário, Aguenta Meu Bem, Cavaquinho de Ouro, Lá Vai Madeira, Me Deixa Xavier, Não Fui Eu, Pra Frente É Que Se Anda,as valsas Alma e Coração, Lindete, Lucinete,a marcha Lúcia,a polca Não Te Arrecebo,o fox Primoroso, entre outras. Convidado por Francisco Alves, viajou em 1932 para a Argentina, onde foi bastante aplaudido, acompanhando o cantor ou executando solos. A partir de 1936, passou a atuar na Rádio Mayrink Veiga em seu famoso programa Cazé, que ia ao ar aos domingos pela manhã.

Nessa emissora, organizou o Quarteto Brasil (1943/1944), incluindo Romualdo Miranda, Tute e Zé Menezes, com seus integrantes executando violão. De setembro a novembro de 1946, esteve contratado pela Rádio Nacional. No ano seguinte, Luperce retornou ao Recife, trabalhando na poderosa Rádio Jornal do Comércio, além de apresentações em várias capitais como Salvador e Fortaleza. De volta ao Rio de Janeiro, em 1955, reintegrou-se ao elenco da Rádio Nacional, e gravou seu primeiro LP Ritmos Brasileiros, Vol. II – Choros e Valsas: Luperce Miranda em solos de bandolim (selo Sinter), totalmente autoral incluindo pérolas como os choros Bate Palmas, Picadinho à Baiana e as valsas Tézinha e Quando Me Lembro. No ano seguinte, instalou em sua casa, em Nilópolis, a Academia de Música Luperce Miranda, atuando como professor de bandolim e de outros instrumentos de corda (entre os alunos Déo Rian e Evandro do Bandolim).

Em 1964, em selo Odeon, foi editado o precioso Luperce Miranda: a eterna seresta, onde passeia com toda sua técnica instrumental pelo repertório alheio em clássicos como Última Inspiração (Peterpan), Favela (Roberto Martins, Waldemar Silva), Velho Realejo (Custódio Mesquita, Sady Cabral), Boneca (Benedito Lacerda, Aldo Cabral), e muitos mais. Pelo Museu da Imagem e do Som (MIS), em 1969 gravou o LP Luperce Miranda: de ontem e sempre, fazendo jus ao sugestivo título apresentou entre outras: Santinha (Anacleto de Medeiros), Querida Por Todos (Joaquim Callado), Odeon (Ernesto Nazareth), Pedacinhos do Céu (Waldir Azevedo), Fala Coração, Janete, Um Beijinho Pra Você,essas de sua autoria. No ano seguinte, acompanhado de seu regional, incluindo o filho Jorge Luperce (violão), Iter (cavaquinho), entre outros jovens músicos, editou-se O Bandolim e o Mestre (selo Prodígio), quando exibiu peças inéditas, como Martelando, Domingo Alegre, Na Casa do Athayde, Princesinha. Em seguida, lançou Luperce Miranda (Som, Copacabana, 1971), garimpo de pérolas autorais como Norival Aos Sessenta, Risonha, além de Revendo O Passado (Freire Junior), Bambino (Ernesto Nazareth).Em 1973, aposentou-se pela Rádio Nacional, já apresentando problemas de coração, mas continuava em atividade gravando o LP Luperce Miranda: a história de um bandolim (Discos Marcos Pereira, 1974), no qual apresentou peças do álbum anterior e acrescentou Subindo Ao Céu (Aristides Borges), Bernardino e História de Um Bandolim (Luperce Miranda), Naquele Tempo (Pixinguinha, Benedito Lacerda), e outras. Após seu falecimento, foi lançado o LP Luperce Miranda interpreta Luperce Miranda (MIS, 1978), entre suas 14 faixas: Reboliço, No Meu Sertão, Salve o Rei, Caboclo Brasileiro.

Já em 1995, foi lançado o ótimo CD Pedro Amorim toca Luperce Miranda (selo Saci), leituras de Bumba Meu Boi, Sempre Te Amando, e participações especiais de Teca Calazans em Ai Maria, Pinião e de Joel Nascimento em Responde Moacir.Luperce Miranda, sem escolaridade, autoditada, gênio da nossa música popular, compositor de inúmeras obras-primas, de técnica incomparável, requintado e vigoroso, conhecido como “O Paganini do Bandolim”, pela rapidez com que tocava seu instrumento, permanece fundamental nas atuais rodas de choro.


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