ABEL FERREIRA
(Coromandel/MG, 13 de fevereiro de 1915 – Rio de Janeiro, 13 de abril de 1980)

            As tradicionais bandinhas de coreto despertaram no garoto interiorano o interesse pela música. Ouvindo rádio, encantou-se pela clarineta do mestre Luiz Americano e pelo sax do Pixinguinha, suas principais preferências. De família pobre, trabalhou desde pequeno e recebeu algumas orientações de um professor local, tornando-se praticamente autodidata. A partir de 1935, passou a se exibir em São Paulo, Belo Horizonte, e em outras cidades mineiras. Estreou no mercado fonográfico, ao lançar pelo selo Columbia (1942) de sua autoria: o choro Chorando Baixinho (que se tornaria um de seus maiores sucessos) e a valsa Vânia.

No ano seguinte, transferiu-se para o Rio de Janeiro, atuando em orquestra no Cassino da Urca e depois, nas de Vicente Paiva e Bené Nunes. Em 1949, entrou paraa Rádio Nacional, passando a se apresentar como líder da “Turma do Sereno”, e com seu companheiro o cantor Paulo Tapajós constituíram, em 1952 a “Escola de Ritmos”, realizando tournée por todo o Brasil. Ao formar seu próprio conjunto, Abel Ferreira excursionou por Portugal em 1957, e gravou inúmeros sucessos autorais e do repertório alheio que, a partir de 1958, deram início aos LPs: Acariciando (selo Todamérica), com a participação da filha e cantora Vânia Ferreira nas faixas Constantemente (parceria com Luiz Bittencourt), Melancolia (com Vânia Ferreira), O Que Passou Passou (com Marlene); Jantar Dançante (selo Copacabana), em destaque peças internacionais I Only Have Eyes For You (Harry Warren, Al Dubin), Besame Mucho (Consuelo Velasquez) e as nacionais É Bom Parar (Rubens Soares, Noel Rosa), Ai, Que Saudades da Amélia (Ataulfo Alves, Mário Lago); Jantar Dançante Nº 2 (Copacabana, 1959), no repertório: No Tabuleiro da Baiana (Ary Barroso), O Apito No Samba (Luiz Bandeira, Luis Antônio), Copacabana (João de Barro, Alberto Ribeiro), Evocação (Nelson Ferreira).

Em 1960, com o já citado pianista Bené Nunes, viajou pelos Estados Unidos e Havaí, e no ano seguinte com o conjunto de Waldir Azevedo, pela Argentina. Na década de 60, foram lançados dois ótimos álbuns, em selo Odeon: Abel Ferreira e a Turma do Sereno (1962), entre as faixas: Corta Jaca (Chiquinha Gonzaga), Luar de Paquetá (Freire Júnior, Hermes Fontes), Iara (Anacleto de Medeiros) e Abel Ferreira e seu conjunto: Chorando Baixinho (1965), para aplaudir: Saxofone Por Que Choras? (Ratinho), Pedacinhos do Céu (Waldir Azevedo, Miguel Lima), Doce Melodia (autoral). Ainda em 1964/1965, voltou à Europa, e em 1968, visitou a ex-URSS e outros países europeus.

Nos anos 70, quatro notáveis lançamentos: No Tempo do Cabaré (CID, 1975), um verdadeiro e animado festival dançante: Gosto Que Me Enrosco (Sinhô), Tatu Subiu No Pau (Eduardo Souto), Pelo Telefone (Donga, Mauro de Almeida), Seu Rafael (Caninha), Tango da Meia-noite (autoral); o álbum Abel Ferreira: Brasil, Sax e Clarineta (Marcos Pereira, 1976), com destacadas leituras de Sorriso de Cristal (Luiz Americano), Rapaziada do Brás (Alberto Marino), e das autorais Sai da Frente, Haroldo No Choro;o admirável álbum duplo Choro Na Praça: Waldir Azevedo, Zé da Velha, Abel Ferreira, Paulo Moura, Copinha e Joel Nascimento (WEA, 1977), gravado ao vivo no Teatro João Caetano, com o clarinetista aplaudido em André de Sapato Novo (André Victor Correia), Cavaquinho Seresteiro (Waldir Azevedo) em duo com o autor, entre outras intervenções; o sofisticado LP Altamiro Carrilho, Abel Ferreira, Formiga e Paulo Moura interpretam Vivaldi, Weber, Purcell, e Villa-Lobos (Som Livre, 1977), com a Orquestra Sinfônica Brasileira, regida por Julio Medaglia;o emocionante LP Abel Ferreira e Filhos (Marcos Pereira, 1977), com participações vocais dos filhos nas autorais Luar de Coromandel (Leonardo Bruno), Acariciando – coautoria de Lourival Faissal(Vânia Ferreira), e do repertório alheio A Casa da Serra (Rosina Mendonça, Nunes da Silva) duo de Leonardo e Vânia. Ainda em 1977, Abel Ferreira e a cantora Ademilde Fonseca proporcionaram um espetáculo memorável para o histórico Projeto Pixinguinha, inteiramente dedicado ao choro.

Com apresentações no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, a dupla dividiu o palco com antológicas interpretações de Tico-Tico No Fubá (Zequinha de Abreu, Eurico Barreiros), Apanhei-te Cavaquinho (Ernesto Nazareth, Darci de Oliveira), Brasileirinho (Waldir Azevedo, Pereira Costa), Urubu Malandro (tradicional, adaptada por Lourival de Carvalho, com letra de João de Barro), além de leituras solo, acompanhadas por um regional. Sua última participação em disco, ocorreu com o edição do CD Chorando Baixinho, um encontro histórico: Arthur Moreira Lima, Abel Ferreira, Copinha, Zé da Velha, Joel Nascimento, Época de Ouro (Kuarup, 1979), gravado ao vivo no Hotel Nacional no ano anterior, quando foram interpretadas suas já citadas obras Chorando Baixinho (acompanhado de Arthur Moreira Lima e Época de Ouro), Sai da Frente (com o conjunto Época de Ouro).

Com seu falecimento, Abel Ferreira, exímio instrumentista, profundo e envolvente, inspirado e melodioso compositor de papel fundamental na criação do repertório nacional de rodas de choros e de serestas, deixou seu nome na história da música popular como um exemplo a ser seguido pelas novas gerações. Em 1998, foi lançado o CD Abel Ferreira e seu conjunto, Vol. 2 (RGE), coletânea extraída de 78 rpm (selo Todamérica) apresentando pérolas como: Polquinha Mineira, Chorinho Ao Luar, Mexidinho, e de outros autores Galo Garnizé (Antonio Almeida, Luiz Gonzaga, Miguel Lima), Louco de Amor (Norival Reis), e muito mais.


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