Introdução Parcial - Parte II

            Na Parte II, A Música Popular na História de um Brasileiro, retrocedendo no tempo, retornamos ao início dos anos 50 quando, ainda garoto, ouvia fascinado as inspiradas marchas-rancho e divertidos sambas e marchinhas daqueles inesquecíveis carnavais. Nos salões do Automóvel Clube e do Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, com muita serpentina, confete e lança-perfume, brincávamos ao som das canções de Armando Cavalcanti, Klécius Caldas, Braguinha (João de Barro), Lamartine Babo e de tantos outros. Época saudosa da minha iniciação musical, com os ouvidos e coração voltados para o Rádio, quando desfrutávamos dos carnavais que não voltam mais...
Depois adolescente, sem o conhecimento da minha tradicional família mineira, participava de serestas e boemias ao lado de experientes amigos notívagos. Amores e desejos, existentes ou imaginados, desenvolviam-se por toda a madrugada mediante as belas canções de Adelino Moreira, Ary Barroso, Assis Valente, Ataulfo Alves, Geraldo Pereira, Herivelto Martins, Ismael Silva, J. Cascata, Leonel Azevedo, Luiz Gonzaga, Noel Rosa, Orestes Barbosa, Pixinguinha e Wilson Batista. Por volta das sete da manhã, na extinta padaria Globo, situada entre os bairros dos Funcionários e de Santa Efigênia, quase em frente ao tradicional Colégio Arnaldo, bebia-se a saideira: cerveja casco escuro, estupidamente gelada, com pão tirado do forno e mortadela. Manteiga era artigo de luxo. Vivia-se num clima de grande simplicidade e profunda fraternidade. Ah! Esse tempo tão longe... e a saudade tão perto!
Em 1958, surge a figura inovadora de João Gilberto, sem voz extensa, mas bem intimista e criativa, com uma peculiar batida do violão. Tom Jobim e Vinicius de Moraes completavam o trio responsável pela transformação da música popular brasileira, consagrada internacionalmente como bossa nova, uma forma diferente de cantar e tocar samba. O cenário musical combinava sol, mar, céu azul com a beleza e sensualidade do caminhar molhado e salgado da mulher carioca. Não havia como falar de amor senão com otimismo.  Um dos templos em que se praticava e aperfeiçoava esse novo estilo musical era o famoso Beco das Garrafas, em Copacabana. Ainda limitado ao contexto mineiro e às saudosas serenatas, essa consciência de renovação na música popular só me apareceria mais tarde.
Já na década de 1960, veio a nossa fase das boates, do samba-canção dos anos 50, da dor-de-cotovelo e dos primeiros uísques. O som apaixonante do violão e o luar que se exibia ímpar foram substituídos pela envolvente harmonia do piano tocado no canto de uma sala enfumaçada. O edifício Arcângelo Malleta, na velha Rua da Bahia, surgia como point de notívagos como eu. A vida estudantil seguia à margem, como necessidade secundária. Bom mesmo era ouvir (nem sempre na fossa) Antônio Maria, Billy Blanco, Dolores Duran, Dorival Caymmi, Haroldo Barbosa, Jair Amorim, Evaldo Gouveia, Johnny Alf, Lupicínio Rodrigues e Tito Madi. Comoventes melodias, que tocavam fundo em nossa alma, ficarão sempre eternas. Era no bar que nós, jovens românticos e sonhadores, nos sentíamos reconfortados de nossas tristezas e desilusões, pois a dor da gente não sai no jornal...
Agora, em 1962, universitário de engenharia, com as frequentes idas ao Rio de Janeiro, fui conquistado pela obra do paulista Adoniran Barbosa e dos cariocas: Carlos Lyra, Cartola, Jorge Ben (mais tarde, Ben Jor), Martinho da Vila, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Foi a época da praia, do chope e do ex-Bar Veloso (atual Garota de Ipanema). O samba, novamente resgatado, descia o Morro para ser cantado na Zona Sul. Ficou famoso em um velho sobrado da Rua da Carioca, o restaurante Zicartola. No modesto e acanhado palco, o saudoso Albino Pinheiro (um dos fundadores da Banda de Ipanema), o jornalista Sérgio Cabral e o compositor Hermínio Bello de Carvalho promoviam memoráveis shows, onde se apresentavam os já citados Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola e, evidentemente, Cartola, o dono do terreiro, entre outros. Lirismo puro, cantando as verdades da vida, de forma simples e expressiva: é aquele cheiro de saudade...
Em 1964, surgiu um período complicado no país, com o advento da ditadura militar, sendo felizmente compensado, em contrapartida, pela presença dos jovens: Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo e Gilberto Gil. Da mesma forma que a música popular, sem perder a “bossa” pela vida, buscava-se com posturas críticas um ideal mútuo de liberdade e igualdade. Tornaram-se inesquecíveis as canções dos Festivais da Música Popular Brasileira, tão ardorosamente disputados no período entre 1965 a 1972, realizados na maioria pelas TV Record de São Paulo e TV Globo do Rio de Janeiro. Com o início da repressão e censores atuando nas produções culturais, apesar do exílio de vários compositores e cantores, a música popular nunca esteve tão criativa: ... a gente quer ter voz ativa/ no nosso destino mandar/ mais eis que chega a roda viva/ e carrega o destino pra lá... Chico Buarque utilizava-se da metáfora para dar o seu recado. Mais uma vez, a canção brasileira se renovava, retratando também uma conscientização política: mas acorrentado ninguém pode amar...
Na época em que mudei para o Rio, nos anos 70, o tempo já parecia correr mais depressa, e a nossa música popular continuava a “rolar” acrescida dos talentosos Aldir Blanc, João Bosco, Gonzaguinha, Milton Nascimento e Rita Lee. Estilos diferentes, temperamentos contrastantes impuseram-se quando se desenrolavam os derradeiros e violentos dias de prisões, torturas, assaltos a bancos e sequestros. Deixando para trás a fase romântica e contemplativa, as canções tornaram-se amadurecidas, mordazes e vibrantes. Definitivamente instalado no contexto da Cidade Maravilhosa, “meu carnaval” agora acontecia na Marquês de Sapucaí e na Banda de Ipanema. Na noite imperavam as discotecas, com o monopólio da música estrangeira. A dança, na base do “são dois pra lá dois pra cá...”, quase se extinguia, mas seguíamos em frente: todo dia é dia de viver...

 

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