O Comércio Fonográfico da Música Popular Brasileira

Breve histórico

Colocando-se o cilindro de cera em fonógrafo
marca Edison.

            Frederico Figner, tcheco naturalizado americano, aportou em Belém do Pará no final de 1891, procedente dos Estados Unidos. Trouxe em sua bagagem um aparelho sonoro chamado fonógrafo (fabricado por Thomas Edison), com alguns rolos de cera que registravam o som falado ou musicado. No ano seguinte, após apresentar, com sucesso, a novidade em alguns estados do nordeste, instalou-se no Rio de Janeiro, com sua famosa Casa Edison (fundada em 1900), localizada em um sobrado da rua Uruguaiana, com importação e comércio de aparelhos e cilindros de música estrangeira, além de partituras e instrumentos.

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Um pouco antes, o cientista alemão Emile Berliner patenteou nos Estados Unidos, em 1887, outro equipamento (gramofone), gravando magneticamente a voz num condutor metálico, reproduzindo o som sobre uma superfície plana, em forma de disco, acionado manualmente por uma manivela.

 Como curiosidade, o apelido em inglês do termo gramofone, derivado do nome da fábrica que produzia o aparelho (Gramophone Company) deu origem, mais tarde, ao nome do prêmio musical (Grammy Awards), um dos mais importantes da indústria fonográfica mundial.

FOTO 3: © McCord Museum

Em seguida, o invento foi aprimorado com a criação da Victor Talking Machine (1901), do engenheiro americano Eldridge Johnson: a “victrola” que reproduz, com melhor qualidade, os discos de Berliner, montada dentro de um móvel.

Ao perceber o potencial da nova invenção, Fred Figner transferiu seu estabelecimento, em 1901, para a rua do Ouvidor nº 107, quando abriu seu primeiro estúdio de gravação e varejo de discos. Com a participação inicial da gravadora alemã Zonophone, surgiram, a partir do ano seguinte, os considerados primeiros discos brasileiros, gravados pelos já citados cantores Baiano, Cadete, e em seguida por Mário Pinheiro, Eduardo das Neves, o flautista Patápio Silva, e as bandas do Corpo de Bombeiros e da Casa Edison. A música popular iniciava, desse modo, seu processo de consolidação como atividade cultural de entretenimento em escala comercial, ao divulgar intérpretes e compositores, por todo o território nacional, nos diversos gêneros musicais representativos da época, como a modinha, valsa, cançoneta, maxixes, lundu, marcha, dobrados, cateretê, polca, choro e o emergente samba.  

FOTO 4: http://www.overmundo.com.br

A histórica Casa Edison, de Frederico Figner, pioneira pela popularização dos equipamentos fonográficos, como também na divulgação e comercialização da música brasileira.

Em 1912, Figner instalou a ODEON, primeira fábrica de discos nacionais, situada no boulevard 28 de setembro, na Tijuca, importando o equipamento necessário da Alemanha. Gravações antológicas foram realizadas, nessa época, pelo grupo instrumental gaúcho Terror dos Facões, liderado por Octávio Dutra, compositor sofisticado de valsas e polcas e um virtuose em instrumentos de cordas dedilhadas. Também se deve ressaltar o conjunto Choro Carioca, com a estreia do talentoso flautista Pixinguinha, aos 14 anos, participando do lançamento das polcas Daynéia, Albertina e Nininha, do seu mestre Irineu de Almeida (bombardino e oficleide), acompanhados de Bonfiglio de Oliveira (pistom) e dos irmãos Léo, Otávio (violões) e Henrique Viana (cavaquinho).
Em 1925, foi criado o processo de gravação elétrico, elevando a qualidade do disco a um nível infinitamente superior, com a velocidade da gravação uniformizado mundialmente em 78 RPM. No Brasil, o cantor Francisco Alves foi o pioneiro, em 1927, com o lançamento da marcha Albertina e do samba Passarinho do Má, autorias do baiano Antônio Lopes de Amorim Diniz, com acompanhamento da Orchestra Pan American do Cassino Copacabana, em selo Odeon. Em pouco tempo, Francisco Alves tornou-se o cantor de maior prestígio de nossa fonografia, tendo gravado, no período de 1927 a 1931, a impressionante cifra de 494 músicas (dado extraído do livro Francisco Alves: as mil canções do Rei da Voz, de Abel Cardoso Junior, Ed. Revivendo, 1998), equivalentes a 41 LPs (com 12 faixas), ou seja, uma média de oito LPs por ano. Com o sucesso alcançado no Brasil do disco elétrico, foram sendo instaladas as gravadoras Parlophon (1928), Columbia, Victor e Brunswick, essas em 1929.

FOTO 5: www.google.com.br

O intérprete Francisco Alves e o compositor Duque, protagonistas do pioneiro disco 78 RPM. Nos primórdios  do século XX, o dançarino (também dentista e revistógrafo) tornou-se famoso como Duque, divulgando o maxixe com requintadas coreografias, acompanhado de suas parceiras, em apresentações principalmente no Rio de Janeiro (onde a sua Casa do Caboclo marcou época), em Paris e países da América Latina.


Em 1948, o inglês Peter Goldmark lançou o LP (abreviatura de Long Play), discos de vinil, mais leves e resistentes, com reprodução de um número maior de músicas, além de melhor qualidade sonora. Os discos de vinil foram produzidos em diferentes formatos, sendo os principais aqueles tocados em 33 1/3 rotações por minuto, apresentado para o mercado internacional pela Columbia. Também foram fabricados, pela RCA Victor americana, discos tocados a 45 rotações por minuto, com sete polegadas de diâmetro, com capacidade de oito minutos por lado e de quatro faixas no total. No Brasil, o quarto país (precedido apenas pelos Estados Unidos, Inglaterra e França) a aderir ao novo sistema, o disco chegou em janeiro de 1951, quando o selo Capitol/Sinter lançou o LP 10′ Carnaval Em Long-Playing, com oito faixas, no qual nomes de projeção nacional como Geraldo Pereira, Heleninha Costa e Os Cariocas, entre outros, cantavam músicas para o carnaval daquele ano. A faixa número um, que iniciou a era do LP brasileiro, foi a Marcha do Neném, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, cantada por Oscarito e apresentada pelo genial ator, em 1950, na ótima comédia Aviso Aos Navegantes, de Watson Macedo. O segundo LP 10′ Parada de Sucessos, etiqueta Sinter, surgiu apenas um ano depois, também com oito faixas, com destaque para De Papo Pro Á (de Joubert de Carvalho), com José Menezes (instrumental), Baionando (Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga), com a pianista Carolina Cardoso de Menezes, Tim Tim Por Tim Tim (Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques), com Os Cariocas, e Pedro do Pedregulho (Geraldo Pereira), com o autor. Cabe ainda mencionar, em 1958, a produção do primeiro disco independente pelo compositor mineiro Pacífico Mascarenhas, um jovem de então 23 anos "antenado" com a bossa nova, que reuniu quatro músicos nativos, partiu para o Rio de Janeiro e gravou, às suas expensas, no estúdio da Companhia Brasileira de Discos o LP Um Passeio Musical, com Paulinho e seu conjunto, com ótimas músicas de sua autoria. Esse projeto pioneiro foi relançado pelo selo Discobertas, em 2011, que vem se destacando no mercado pela reedição de LPs, a maioria inédita em CD.

 FOTO 6: Arquivo do Autor

Capa original do histórico LP Um Passeio Musical, incluindo músicas românticas e melódicas dos bailes e horas dançantes de Belo Horizonte e adjacências, onde o cantor Gilberto Santana (no crédito Marcus Vinicius), acompanhado ao piano pelo Paulo Modesto, na bateria (Dario) e no baixo (Alvarenga), apresentam da obra do mestre Pacífico Mascarenhas, entre outras pérolas: Vieram Me Contar, Cansei de Esperar, o choro Turma da Savassi (parceria com José Guimarães e Luiz Mario Barros), e a instrumental Nada Me Importa (coautoria de Othon Russo).


Na década de 80, surgiu então o CD (Compact Disc) que, segundo alguns entendidos na matéria, não armazena toda a amplitude dos sons proporcionada pelo vinil. A propaganda do CD, com a eliminação do ruído, previa o fim inevitável do LP, de conservação e manuseio mais complicado. No entanto, até hoje se fabricam LPs e toca-discos.
Ao surgir em Nuremberg/Alemanha (meados de 1970) o primeiro processador capaz de comprimir áudio, após muitos estudos e pesquisas, chegou-se ao software MP3, patenteado em 1995, nos Estados Unidos. Em 1997, criou-se o pioneiro tocador de MP3, nos laboratórios da Avanced Media Products em Los Angeles, batizado como AMP, que proporcionou em seguida com outros desenvolvimentos tecnológicos, o acesso rápido e fácil no computador a milhares de músicas, em concorrência às gravadoras, e gerando novas discussões. Entre suas vantagens, menciona-se o tamanho de um arquivo musical compactado, reduzido à 10% do original, com perda imperceptível de qualidade. Polêmicas à parte, o atual mercado fonográfico nacional é constituído principalmente pela indústria do CD (em que pese a fácil acessibilidade da música, via Internet, de forma gratuita ou a preços módicos), esquece de uma incrível e importante discografia lançada em LP, que permanece fora do conhecimento do grande público. Baseado no trabalho realizado para o nosso livro apresenta-se, a seguir, uma relação expressiva de álbuns, para os quais se espera um pouco mais de atenção por parte dos que tratam da música popular brasileira, notadamente gravadoras e entidades pertinentes.

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