ZÉLIA DUNCAN
(Niterói, 28 de outubro de 1964)

            Filha de funcionários públicos, Zélia Cristina Duncan Gonçalves Moreira, aos seis anos de idade mudou-se para Brasília. Na adolescência, estudou no Colégio Marista, onde jogava basquete. Aos 16 anos, se descobriu cantora, após vencer um concurso de música da Sala Furnate, incentivada pelo amigo Marcelo Saback (então estudante da Fundação Brasileira de Teatro/DF), cujo prêmio foi fazer um show com instrumentistas profissionais, durante quatro dias. Em seguida, passou a se apresentar em vários bares da cidade, e tornou-se conhecida como Zélia Cristina. Em 1982, aventurou-se pelo Rio de Janeiro, em bailes dos subúrbios, onde fazia backing (coros) para outros cantores, durante um ano. Ao retornar para Brasília, conseguiu trabalhar como funcionária pública, até que, aos 22 anos transferiu-se para o Tribunal Regional do Trabalho/RJ, indo morar com uma tia em Niterói.  Após se demitir, em 1987, participou do Projeto Pixinguinha, ao lado de Cida Moreira e Wagner Tiso, em exibições pelo Norte e Nordeste. Depois, começou a estudar teatro na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e, em 1989, montou (com a teatróloga Ticiana Studart) o arrojado e irreverente show Zélia Cristina no Caos levado na Casa de Cultura Laura Alvim e no Mistura Fina. Ao receber a visita de um representante do Estúdio Eldorado (SP), gravou o primeiro disco Zélia Cristina: Outra Luz (1990), no qual incluiu Super-Homem “A Canção” (Gilberto Gil), Segredo (Luiz Melodia), Pirataria (Rita Lee, Lee Marcucci) e a faixa título (coautoria de Christian Oyens). Apesar de não satisfeita pelo trabalho, foi agraciada com indicações de revelação e melhor cantora pop-rock, para o prêmio Sharp da Música Brasileira. Em outubro de 1991, recebeu convite de um casal de músicos (amigos de Brasília) para cantar no Hotel Meridien, na cidade de Abu Dhabi/Emirados Árabes. Atraída pelo inesperado chamado, aos poucos se sentiu envolvida pela música oriental e de artistas como a canadense Joni Mitchell, os músicos Ry Cooder, Peter Gabriel, entre outros. Com disponibilidade de tempo, sucederam uma série de composições (enviadas para o parceiro Christiaan Oyens). Após oito meses, de proveitosa experiência internacional (ao viajar ainda pela Tailândia e França), retornou ao Brasil, amadurecida e com muito talento para aflorar.

O inevitável sucesso finalmente surgiu com o CD Zélia Duncan (Warner Music, 1994), produzido por Guto Graça Mello, marcado pela poesia e sonoridade de “Catedral” (Tanika Tikaram, versão Christiaan Oyens e Zélia Duncan): O deserto que atravessei/ Ninguém me viu passar/ Estranha e só/ Nem pude ver que o céu é maior. Incluída na trilha sonora da novela A Próxima Vítima, de Silvio de Abreu(Rede Globo, 1995). Cabe ainda citar, também assinadas: “Sentidos” (Transfere pro meu corpo/ Seus sentidos/ Pra eu sentir/ A sua dor, os seus gemidos/ E entender porque/ Quero você); “Um Jeito Assim” (Por que você não volta/ Ou vai de volta de vez, hein?/ Não vê que eu preciso de alguém/ Ou ninguém?), parcerias com C. Oyens e Paulo André Tavares, respectivamente. O álbum seguinte Zélia Duncan: Intimidade (Warner Music, 1996), incluiu um repertório bastante expressivo: “Vou tirar você do meu dicionário” (Itamar Assumpção, Alice Ruiz), além de autorais como: “Primeiro Susto” (O primeiro impulso/ Primeiro susto/ Primeira luz nos olhos/ Primeiros olhos em mim.../ Aquela sede/ Por uma só gota/ No sertão da minha boca) com Lucina, “Assim que eu gosto” (Pode me largar/ Que eu tenho pressa/ Não me interessa/ Sua beca/ Ou seu perfume francês/ Meu corpo agora/ Só fala português/ E é assim que eu gosto) com C. Oyens. Premiada como melhor cantora pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), Zélia, em 1997, excursionou com o show Intimidade pelo Brasil, e se apresentou em Portugal, Espanha e Japão. No ano seguinte, gravou o CD Acesso (selo Warner Music), com onze faixas, das quais oito são creditadas ao parceiro mais constante Christiaan Oyens, também produtor do ótimo disco. A partir da faixa inicial Código de Acesso (Itamar Assumpção) participação especial do grupo Uakti, desfilam “Os Imorais” (Os imorais/ Falam de nós/ Do nosso gosto/ Nosso encontro/ Da nossa voz), “Toda Vez” (Meu coração/ Toda a vez que te vê/ Quer gritar, se arriscar/ Sair cantando/ Me delatando pra todo mundo), “Às Vezes Nunca” (Até que alguma canção/ Algum cheiro ou expressão/ Me faça te ver de novo/ Mas é rápido/ É quase pouco/ E nem dói nada/ Nossa paixão congelada), essas em parceria com o homenageado.

Em 2001, Zélia Duncan: Sortimento (Universal Music) marcou sua estreia em nova gravadora, em faixas nos mais variados gêneros e estilos: Por que que eu não pensei nisso antes? (Itamar Assumpção), Sortimento (Nando Reis), “Me Revelar” (Tudo aqui/ Quer me revelar/ Minha letra/ Minha roupa/ Meu paladar/ O que eu não digo/ O que eu afirmo/ Onde eu gosto de ficar/ Quando amanheço/ Quando me esqueço/ Quando morro de medo do mar...) com C. Oyens, Todos os Dias (John Ulhoa). O disco mereceu duas indicações ao Grammy Latino: álbum pop contemporâneo brasileiro e canção Alma (Pepeu Gomes, Arnaldo Antunes). Após inúmeras apresentações, iniciadas em maio e concluídas em junho, do ano seguinte, com shows em Lisboa e na cidade do Porto, surgiu seu primeiro registro ao vivo, o CD/DVD Zélia Duncan: Sortimento Vivo (Universal Music), com releitura de “Chicken de Frango” (Na rua não há ninguém/ Aqui a multidão anda sozinha/ A solidão também é minha/ A multidão também sou eu, o acréscimo da inédita “Gringo Guaraná”(A barriga tá vazia, mas a boca ri, todo dia/ Malabares na esquina, desequilíbrio é a sina/ Mas ele podia ser eu, eu podia ser você/ Você podia ser o outro/ Roleta russa de loucos, se escapamos foi sempre por pouco)ambas com Rodrigo Maranhão, além de Por Enquanto (Renato Russo). Um álbum antológico e inusitado, de título perfeito Zélia Duncan: Eu Me Transformo Em Outras (Universal, Duncan Discos, 2004), indiscutivelmente adicionou a cantora e compositora para a história da nossa música popular. Citando algumas pérolas: Nova Ilusão (Claudionor Cruz, Pedro Caetano), Nega Manhosa (Herivelto Martins), Janelas Abertas (Tom Jobim, Vinicius de Moraes), Doce de Coco (Jacob do Bandolim, H. B. de Carvalho), (Tom Zé, Elton Medeiros), Eu Não Sou Daqui (Wilson Batista, Ataulfo Alves), e Quem Canta Seus Males Espanta (Itamar Assumpção) que diz tudo: Entro em transe se canto, desgraça vira encanto/ Meu coração bate tanto, sinto tremores no corpo/ Direto e reto, suando, gemendo, resfolegando/ Eu me transformo em outras, determinados momentos. Simplesmente, genial!Em 2005, sempre criativa, lançou Zélia Duncan: Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band (selo Universal Music) incluindo novas parcerias, como: Carne e Osso (Moska), Braços Cruzados (Pedro Luis) - “Será que nenhum de vocês/ Sabe falar português?/ Então, em nome da nossa dor/ Eu exijo um tradutor/ Alguém de carne e osso/ Alguém em quem se possa confiar um pouco” -, Diz nos Meus Olhos “Inclemência” (Guerra Peixe), Quisera Eu (Lulu Santos) e fecha com chave de ouro, de Itamar Assumpção e Alice Ruiz, em Milágrimas. No ano seguinte, se apresentou no retorno do grupo “Os Mutantes” (dos irmãos Arnaldo e Sérgio Dias), em histórico show no importante Barbican Theater, em Londres, que se repetiu por sete cidades americanas, e em São Paulo (2007, no aniversário da cidade).Com a cantora e amiga Simone, o reencontro gravado em CD/DVD Amigo é Casa (Biscoito Fino, 2008), em duo festejam o acontecimento com muito charme e alegria, em repertório variado: Alguém Cantando (Caetano Veloso), Ralador (Roque Ferreira, Paulo César Pinheiro), Agito e Uso (Ângela Ro Ro), Tô Voltando (Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro). Incansável, voltou a brilhar com o surpreendente Zélia Duncan: pelo sabor do gesto (Universal Music, 2009), em expressivas faixas, encontram-se: “Tudo sobre Você” Queria descobrir/ Em 24hs tudo que você adora/ Tudo que te faz sorrir/ E num fim de semana/ Tudo que você mais ama/ E no prazo de um mês/ Tudo que você já fez/ É tanta coisa que eu não sei/ Não sei se eu saberia/ Chegar até o final do dia sem você, com John Ulhoa; “Se um dia me quiseres” (Se um dia me quiseres te darei/ O mapa dos pomares/ Veredas sertões e seus luares/ Suores do sol e o sal dos mares/ Arco-íris e ouro de avatares/ Rumores e rimas estelares/ E asas de lata pra voares) com Zeca Baleiro, além de adaptações para as músicas Boas Razões “De Bonnes Raisons” e Pelo Sabor do Gesto “As-Tu Dejá Aimé?” (de Alex Beaupain, para o aplaudido filme musical francês Chansons d’Amour, de Christophe Honoré - Cannes, 2007). Indicado ao Grammy Latino 2009, como Melhor Álbum de Música Popular Brasileira.

Em 2010, Zélia Duncan se apresentou no Festival Sawa Sawa (música, poesia e exposições visuais), realizadono Estádio Kasarani, em Nairobi/Kenya e em show especial de encerramento do Brazil Film Festival em Toronto/Canadá. Em agosto, foi agraciada como melhor cantora no XXI Prêmio da Música Brasileira, no Teatro Municipal/RJ. No ano seguinte, apresentou-se como atriz no espetáculo Totatiando, mistura de música e dramaturgia,inspirado na obra de Luiz Tatit. Incansável, a cantora aposta e acerta na genialidade do seu ídolo ao produzir o CD Zélia Duncan canta Itamar Assumpção (Warner Music, Duncan Discos, 2012), emoção pura desde a primeira faixa “Tua Boca” (A tua boca me dá água na boca/ Ai que vontade de grudar uma na outra/ E sugar bem devagar, gota por gota/ Beija-flor beijando a flor ou borboleta), em “Mal Menor” (Você vai notar olhando ao redor/ Que sou dos males o menor/ Pode até contar com o meu amor/ Naquilo que seja lá o que for), em “Tudo Esclarecido”, “Vê Se Me Esquece” (parcerias com Alice Ruiz), participações especiais de Martinho da Vila, Ney Matogrosso, e muito mais.Inteligente, criativo, simplesmente sensacional! A partir de 2015, passou a assinar coluna semanal no Caderno 2 do jornal O Globo, divulgando temas variados, com humor e cultura, e apontando todos os desacertos nacionais.Nesse mesmo ano, bastante empolgada com novo projeto, Zélia retornou ao Samba, com o disco Antes do Mundo Acabar (selo Biscoito Fino) e incrementa poesia em parcerias como “Dormiu, Mas Acordou” (Nosso amor foi sonhar noutro mundo/ Mas sabe o caminho de volta/ Retorna, te chama e já quer brilhar), com Arlindo Cruz; “No meu País” (No meu país um dia desses tem que chover/ Chuva de paz e amor, um dia eu vou ver/ O meu país tá precisando se resolver/ Se vai olhar pro futuro ou envelhecer), e “Pra quem sabe Amar” (Partiu nosso amor, nossa estrada/ O samba inventou nossas asas/ Liberdade pra sonhar/ Todo dia mais um passo, mesmo devagar/ Fica sempre algum perfume/ Pra quem sabe amar), participações dos parceiros Xande de Pilares e Ana Costa, respectivamente; além de escolher, entre outras, “Em cada canto uma esperança” (Eu me amarro no meu samba/ E meu sentimento se agita/ É a forma mais bonita/ De empurrar os meus dias/ O meu samba principia/ Quando amo de verdade/ E se vai sem fantasia/ Na mais pura liberdade), de Délcio Carvalho e Yvone Lara). Na “cozinha”, uma seleção de craques: Luis Barcelos (bandolim), Marco Pereira (violão), Thiago da Serrinha (percussão). Só podia “dar Samba” e, em consequência, no 27º Prêmio da Música Brasileira venceu nas categorias de Melhor Canção Antes do Mundo Acabar (Zeca Baleiro, Zélia Duncan), Melhor Álbum de Samba (produtora Bia Paes Leme) e Cantora (Zélia Duncan). Em 2017, mais uma vez, o talento sempre renovado da artista nos presenteia com o CD Invento +: Zélia Duncan e Jacques Morelenbaum interpretam Milton Nascimento (Selo Biscoito Fino), entre outras magistrais canções, todas valorizadas com o violoncelo e arranjos do maestro Morelembaum, cabem registrar: Encontros e Despedidas, Travessia (essas em parcerias com Fernando Brant), Volver a los 17 (Violeta Parra), Cais (coautoria de Ronaldo Bastos). Em 2018, Zélia retornou aos palcos (Teatro Fashion Mall/RJ), como atriz, na contundente comédia Mordidas,do dramaturgo argentino Gozalo Demaria (versão de Miguel Falabella e direção de Victor Garcia Peralta). Em cena, com Ana Beatriz Nogueira, Luciana Braga e Regina Braga, uma crítica à sociedade atual e suas contradições. 

Zélia Duncan, sinônimo de contemporaneidade na música brasileira, talento multifacetado de inúmeros prêmios, voz de timbre marcante, inspirada compositora de gêneros e estilos ecléticos, sempre procurando, sempre arriscando, denota segurança em sua arte, e diz: "Quando erro, caio com a cara no chão porque jurava que era um grande acerto".


© Copyright 2008 - Pelo Telefone: Uma viagem através da música popular brasileira.

Desenvolvimento e Design: Marcio Cunha