HAMILTON DE HOLANDA
(Rio de Janeiro, 30 de março de 1976)

            Carioca, nascido no bairro de São Cristóvão, Hamilton de Holanda Vasconcelos Neto foi criado em Brasília com a transferência do pai pernambucano José Américo, oficial da Marinha e músico admirador das big bands americanas, de choro e bossa nova. No Natal de 1981, ganhou do avô materno (de quem recebeu seu nome) um bandolim, tendo o pai como primeiro professor. Ao perceber talento nos filhos, logo depois, Hamilton e o irmão mais velho Fernando César foram colocados na exemplar Escola de Música de Brasilia (EMB). A infância e juventude foram marcadas por vivencias importantes e contatos com craques da música instrumental, quando na cidade aconteceram: apresentação do conjunto Choro Livre e regional Altamiro Carrilho na Sala Funarte (1983); espetáculo Jacob, bandolim de ouro, dirigido pelo compositor Klécius Caldas, com o Conjunto Época de Ouro e o acordeonista Orlando Silveira, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional (1984). Nesta época, surgiu o “Dois de Ouro”, formado pela dupla de garotos prodígios tocando chorinho, que se tornou um grupo complementado pelo pai e seu amigo Pernambuco do Pandeiro. Aos 17 anos, passou a estudar Ciências Contábeis, felizmente preterida pela música, tempos depois. Em 1995, participou do “II Festival de Coro do Estado do Rio de Janeiro” e ganhou a 2ª colocação com a peça Destroçando a Macaxeira, além do prêmio de “Melhor Intérprete do Festival”. No ano seguinte, iniciou seus estudos na Universidade de Brasília (UnB), onde obteve o “Bacharelado em Composição”, e fascinado pelos mestres Bach, Debussy, Villa-Lobos.

Em 1997, Hamilton de Holanda (bandolim) e Fernando César (violão 7 cordas) lançaram no Teatro dos Bancários (com recorde de público) o CD de estreia do  conjunto Dois de Ouro (produção independente), complementado pelos talentosos José Américo (violão), Chico Assis (cavaquinho), e Beto (pandeiro). No repertório: a autoral Conversa de Bandolim, Caminhando (Nelson Cavaquinho, Nourival Bahia), Apanhei-te Cavaquinho (Ernesto Nazareth), entre outras. No ano seguinte, a dupla gravou o CD Dois de Ouros: a nova cara do velho choro (selo Laser Records), acrescentada pelos músicos André Vasconcellos (baixo elétrico e contrabaixo), Leander Motta (bateria e percussão), entre outros. Destaque para as faixas: Fantasia Sobre Temas de Pixinguinha (autoral), Sampa (Caetano Veloso), Noites Cariocas (Jacob do Bandolim), Tico-Tico no Fubá (Waldir Azevedo). O terceiro Dois de Ouro – Hamilton de Holanda e Fernando César (Pau Brasil, 2000), dá ênfase ao compositor em Baião Brasil, Rumo à Felicidade, O Hermeto tá brincando!, e muito mais. Ainda nesse ano, surgiu um duo perfeito com o Marco Pereira: CD Luz das Cordas - Kuarup (ver em Um Cantinho pro Violão).

Em 2001, criou o “Brasilia Brasil Trio” editado em CD Abre Alas (etiqueta Caravelas) formado com os talentosos Daniel Santiago (violão) e Rogério Caetano (7 Cordas), cita-se as parcerias com Zélia Duncan (Valsa em Si), com Daniel Santiago (Cirandeiro). Em seguida, ganhou bolsa de estudo na França, pelo Prêmio Icatu-Hartford de Artes, como melhor instrumentista brasileiro. Foi nessa época, que sentiu a falta de parceiros na execução das músicas, e pensou em um bandolim com dez cordas, que lhe propiciasse mais acordes e som mais grave. Estava criado o novo instrumento, bastante utilizado, posteriormente, em suas apresentações solo. Em 2002, ao homenagear alguns dos compositores prediletos, promoveu o seu Bandolim 10 Cordas com o histórico álbum Hamilton de Holanda (selo Velas). Entre os registros: Baião Malandro (Egberto Gismonti), Samba do Grande Amor (Chico Buarque), Menino Hermeto (autoral), Santa Morena (Jacob do Bandolim). No ano seguinte, após a temporada francesa, fixou-se com a família no Rio de Janeiro. Em 2004, gravou o CD Música das Nuvens e do Chão (Velas), com opções para o repertório alheio, acompanhado de outros instrumentistas como Daniel Santiago (violão) e Márcio Bahia (bateria), em destaque Ponteio (Edu Lobo, Capinan), Samba Novo (Baden Powell), Céu de Brasilia (Toninho Horta, Fernando Brant), a faixa título (Hermeto Pascoal) participação especial do gaitista Gabriel Grossi. No ano seguinte, lançou o emblemático Hamilton de Holanda, ao vivo no Rio: 01 byte, 10 cordas (Biscoito Fino, H Records – que resultou no selo Brasilianos). Entre as faixas: Ainda me Recordo (Pixinguinha, Benedito Lacerda), Disparada (Theo de Barros, Geraldo Vandré), 1byte 10 cordas e Pedra Sabão (ambas de sua autoria). Em 2006, outro sucesso com o CD Brasilianos – Hamilton de Holanda Quinteto, indicado ao Grammy Latino 2007, como Melhor Disco Instrumental: Trenzinho do Caipira (Villa-Lobos), Procissão (Gilberto Gil) e as autorais Brasilianos e Dor Menor, para conferir. Com prestigio internacional, divulgou em produção italiana, o novo trabalho Samba do Avião (Kind of Blue Records), participação especial do acordeonista francês Richard Galliano e gravou em Nova York, o álbum New Words “Novas Palavras” (Adventure Music), em duo com o bandolinista Mike Marshall, ambos em 2006. No ano seguinte, o álbum Brasilianos 2 – Hamilton de Holanda Quinteto (2007) repetiu a dose anterior e foi indicado ao Grammy 2008,como “Melhor Álbum de Jazz Latino”. Em seguida, o peculiar disco Íntimo (Deckdisc, 2007), satisfez o desejo de uma produção espontânea, surgida ao acaso, gravado em quartos de hotéis ou em casa, com repertório tocado de forma simples, incluindo Tom Jobim (Luiza e Passarim), Cartola (As Rosas não Falam), Dorival Caymmi (O Bem do Mar). Ainda em 2007, o importante registro de Contínua Amizade: Hamilton de Holanda e André Mehmari (selo Deckdisc), dois dos maiores músicos da atualidade (bandolim e piano), unidos em momentos de profunda inspiração, aplausos para Choro da Contínua Amizade (André Mehmari), Di Menor (Guinga, Celso Viáfora), Enchendo o Latão (Hamilton de Holanda), Cinema Paradiso (Ennio Morricone). Em contexto nacional, o encontro inédito para Hamilton de Holanda & Joel Nascimento: de bandolim a bandolim (Brasilianos, 2008), belo repertório escolhido por gerações distintas e afins: Gotas de Ouro (Ernesto Nazareth), Os Cinco Companheiros (Pixinguinha), Por Una Cabeza (Carlos Gardel, Alfredo Le Pera), Concerto para Dois Bandolins em GII Movimento (A. Vivaldi). Neste mesmo ano, gravou o CD Luz da Aurora (selo Alvorada) com Yamandú Costa, já comentado em Um Cantinho pro Violão. Convidado pelo competente grupo venezuelano Gurrufío (nas comemorações de 25 anos de carreira), foi produzido o contagiante CD Gurrufío: sessões com Hamilton de Holanda (HTPG, Brasilianos, 2009) gravado em Caracas, originalmistura de sonoridades e linguagens instrumentais: El Saltarín (Luis Laguna), Pajarillo (Folclore), Desvairada (Garoto), El Vuelo del Diablo (Variações sobre  O Voo da Mosca, de Jacob do Bandolim e El Diablo Suelto, de Heraclio Fernández).   

Em 2010, gravou Hamilton de Holanda: ao vivo na Europa - bandolim solo (selo Brasilianos) vale mencionar: 7 Anéis (Egberto Gismonti), Canto de Ossanha (Baden Powell, Vinicius de Moraes), e as belíssimas Esperança e Etienne, por ele assinadas. Nas comemorações dos 50 anos de Brasília, compôs (com Daniel Santiago) a Sinfonia Monumental, em 4 movimentos, acompanhado daOrquestra Brasilianos (regência de Gil Jardim), editada em CD/ Livro (Selo Brasilianos, 2010).  No ano seguinte, sempre inovador, produziu o valoroso Gismonti Pascoal: A Música de Egberto e Hermeto (Brasilianos), novamente com André Mehmari (piano), tributo aos dois cultuados compositores Egberto Gismonti(Palhaço e Loro) e Hermeto Pascoal (Intocável e Santo Antônio) e promoveu o disco Brasilianos 3: Hamilton de Holanda Quinteto, indicado ao Grammy Latino para Melhor Álbum Instrumental e de Engenharia de Som, com vocal de Milton Nascimento em Guerra e Paz I (autoral). Em 2013, três importantes CDs estiveram na agenda de realizações de Hamilton de Holanda: Mundo de Pixinguinha (Rob Digital) o encontro fantástico entre o choro e o jazz, em viagem por países identificados com o grande mestre: o acordeom do francês Richard Galliano (Agradecendo e Ingênuo),o pianista português Mário Laginha (Rosa), a flauta e o sax dos brasileiros Odette Ernest Dias e Carlos Malta (Carinhoso), o americano Wynton Marsalis e seu trompete (Um a Zero). Vencedor de melhor solista e álbum no Prêmio da Música Brasileira; O Que Será (ECM) gravado ao vivo em festival de jazz na Antuérpia/ Bélgica), em duo com o italiano Stefano Bollani (piano): Guarda Che Luna (Bruno Pallesi, Gualtiero Malgoni), Oblivión (Astor Piazzolla); Trio (Brasilianos) novo conjunto, com o já citado André Vasconcellos (baixo acústico) e Thiago da Serrinha (percussão), simplesmente brilhante, do início ao fim: Sinhá (João Bosco, Chico Buarque), Capricho de Espanha e de Santa Cecília (autorais), Aboio (com Yamandú Costa). Indicado ao 15º Grammy Latino, para Melhor Disco Instrumental. No ano seguinte, o incansável bandolinista lançou dois projetos (selo Brasilianos): Caprichos, álbum duplo representativo do seu lado compositor: do Retirante e da Lua (solos), de Choro (com Rafael dos Anjos ao violão) e de Donga (com o contrabaixista Guto Wirtti e Thiago da Serrinha), nominado ao Grammy Latino, como Melhor Disco Instrumental; Pelo Brasil, peças autorais e inéditas, como um recital de solos em torno de expressivos ritmos nacionais: Carimbobó (carimbó e bumba meu boi), Chama Lá (chamamé), É Pra Já (choro-canção), O Jumento e a Capivara (baião e moda de viola), Sambaíba (samba), vencedor como Solista do “Prêmio da Música Brasileira”. Também esteve presente no disco Bossa Negra (Universal Music), ao lado de Diogo Nogueira, premiado no Grammy Latino - Categoria Regional Brasileira, como melhor “Álbum de Samba” e “Canção”, do título, parceria com Diogo Nogueira e Marcos Portinari (já comentado em Samba que te quero Samba). No ano seguinte, o CD Hamilton de Holanda e o Baile do Almeidinha (Brasilianos, 2015) veio para curtir e dançar: Chorinho em Cochabamba (Edu Neves, Rogério Caetano), À Moda Antiga (Guto Wirtti), Xote do Almeidinha – com Marcelo Caldi (acordeom) e Frevo Carioca (ambas autorais), mais um desfile de craques instrumentistas. Indicado ao Grammy Latino de “Melhor álbum de engenharia de gravação”.Em 2016, o CD Hamilton de Holanda: Samba de Chico (Biscoito Fino, Brasilianos), vencedor do Grammy Latino como “Melhor Álbum Instrumental” e indicado para “Melhor Álbum de Engenharia de Gravação”, transmite a grandiosidade contida na obra do homenageado, com várias participações exclusivas Chico Buarque (A Volta do Malandro), a cantora catalão Silvia Perez Cruz (O Meu Amor), Stefano Bollani (Piano na Mangueira, parceria de Tom Jobim), além da faixa autoral Samba de Chico, acompanhada pelos habituais Thiago da Serrinha e Guto Wirtti. Com sugestivo nome Alegria: Hamilton de Holanda e Orquestra do Estado de Mato Grosso (Brasilianos, 2016), uma ode às crianças de ontem e de sempre, em singular repertório: A Pantera Cor de Rosa (Henri Mancini) e a genial Suíte da Infância (Hamilton de Holanda), sob a batuta de Leandro de Carvalho e arranjos de Vittor Santos.Também Milton Nascimento foi distinguido com o CD/DVD Hamilton de Holanda Quinteto: Casa de Bituca (Biscoito Fino, Brasilianos, 2017), suas músicas ricas em harmonia (essas com Fernando Brant) Ponta de Areia, Canção da América, Travessia (participação de Alcione), mais a comovente Mar de Indiferença (Hamilton de Holanda, Marcos Portinari) na voz do primeiro e que retrata o drama de refugiados pelo mundo, transmitem toda a beleza e esperança, que se pode esperar através dos caminhos da canção. Indicado na 18ª Edição do Grammy Latino para “Produtor do Ano” (Holanda, Portinari e Daniel Santiago).

Exímio bandolinista (de técnica revolucionária), inspirado e criativo compositor, dos mais admirados no Exterior (com extenso e eclético repertório), percebe-se em Hamilton de Holanda a genialidade, magia, a entrega total, como um devoto de sua obra irresistível, que une tradição e modernidade, com perfeito domínio da linguagem musical, baseada no choro, samba e jazz, entre outros gêneros. Em 2017, entrevistado pela jornalista Roseann Kennedy na TV Brasil, mandou, efusivamente, seu recado: “Pra mim a música é praticamente uma religião. É como eu me comunico com as pessoas, é como eu agradeço, como eu faço as minhas orações. A música é trabalho, a música é educação. E eu tento viver isso na plenitude”.


© Copyright 2008 - Pelo Telefone: Uma viagem através da música popular brasileira.

Desenvolvimento e Design: Marcio Cunha