ANA CAROLINA
(Juiz de Fora (MG), 9 de setembro de 1974)

            Filha de Dona Aparecida, proprietária de salão de beleza na cidade, orfã de pai com dois meses, Ana Carolina de Souza cresceu ouvindo música no rádio e na vitrola, ao lado dos avós cantores anônimos. Aos 12 anos ganhou um violão, iniciando seu aprendizado autoditada, entusiasmada com a técnica do compositor mineiro João Bosco. Em consequência, passou a compor, influenciada por seu maior ídolo Chico Buarque. No início dos anos 90 começou a cantar (voz e violão) em bares e arredores da cidade, se projetando com sua simpatia e talento natural. Descoberta pela cantora e atriz Zezé Motta, fez seu primeiro show no ótimo Teatro Solar, no bairro de São Mateus. Chegou a cursar, parcialmente, a Faculdade de Letras da UFJF, desenvolvendo o gosto pela leitura e também pela pintura.

Após algumas apresentações em Belo Horizonte (quando recebeu no camarim o gaúcho Antônio Villeroy, com a letra de Garganta que se tornaria o primeiro êxito da dupla), Ana Carolina seguiu para o Rio de Janeiro, onde em 1998, cantou no antigo restaurante e casa de show Mistura Fina, da lagoa Rodrigo de Freitas. Na plateia, mereceu aplausos de Luciana de Moraes, que a recomendou à gravadora BMG, motivando a sua mudança para a cidade.

No ano seguinte, estreou no mercado fonográfico com o CD Ana Carolina (BMG, Ariola) sucesso imediato (indicado ao Grammy Latino de 2000, na categoria “Regional Brasileira para álbum pop contemporâneo”). Cabe citar a romântica Nada pra Mim (John Ulhoa): Eu não quero cantar/ Pra ninguém a canção/ Que eu fiz pra você/ Que eu guardei pra você/ Pra você não esquecer/ Que eu tenho um coração/ E é seu...; a contundente Garganta (Antônio Villeroy): Sei que não sou santa, vezes vou na cara dura/ Vezes ajo com candura pra te conquistar/ Mas não sou beata, me criei na rua/ E não mudo minha postura só pra te agradar, além de clássicos do repertório alheio Alguém me Disse (Evaldo Gouveia, Jair Amorim), Retrato em Branco e Preto (Chico Buarque, Tom Jobim), Beatriz (Chico Buarque, Edu Lobo). Em 2001, lançou o CD Ana Rita Joana Iracema e Carolina (BMG, Ariola), título em homenagem às várias mulheres das canções de Chico Buarque. Deve-se destacar, entre outras pérolas, a autoral “Implicante”: Hoje eu vou mudar o teu destino/ Te passar num pente fino/ Então desfaça sua trança/ Eu que sou tão inconstante/ E você tão permanente/ ... De que vale seu cabelo liso e as ideias enroladas/ Dentro da sua cabeça; de Herbert Vianna “Pra Terminar”: Pra te enganar escondo num sorriso a dor/ Que sinto ao te ver passar na rua com seu novo amor/ Se eu te encontrar não me pergunte como estou/ Não saberia te explicar pra mim ainda não terminou ... ; o bolero de Marino Pinto e Mário Rossi “Que Será?”: Que será?/ Da minha vida sem o teu amor/ Da minha boca sem os beijos teus/ Da minha alma sem o teu calor.
Em 2003, foi bastante elogiada com novo trabalho Ana Carolina: Estampado (BMG, Ariola), de 13 faixas autorais, vale a pena registrar “Elevador (livro de esquecimento)”: E subo bem alto pra gritar que é amor/ Eu vou de escada pra elevar a dor/ Então me lanço, me atiro em frente ao seu carro/ E ai você decide se é guerra ou perdão/ Se na vida eu apanho outras vezes eu bato/ Mas trago a minha blusa aberta e uma rosa em botão;  “Pra Rua me Levar” (com Antônio Villeroy): ... Outro tempo começou pra mim agora/ Vou deixar a rua me levar/ Ver a cidade se acender/ A lua vai banhar esse lugar/ E eu vou lembrar você; o desbocado “O Beat da Beata” (com Seu Jorge): Toda boate tem um fundo de verdade/ Quem não pode com a mandinga não me tira pra dançar/ Tem beata tem sapata, tem frei pegando gay/ Tem puta loirinha e tem mulata, paraíba, surdo e japonês/ Na boate, o bate estaca, preconceito não tem vez/ Vale tudo, é tudo certo, porque a razão é do freguês. A partir de um show montado despretensiosamente pela dupla Seu Jorge e Ana Carolina, para duas apresentações em 2005 no Tom Brasil, tradicional casa de espetáculos de São Paulo, devido à grande procura por ingressos, surgiu seu registro em CD e DVD Ana & Jorge ao vivo (Sony, BMG), transformando-se no maior fenômeno de vendas e de execuções no ano. Ana incluiu duas parcerias inéditas em “Brasil Corrupção (Unimultiplicidade)” (com Tom Zé): Neste país de mandachuvas/ Cheio de mãos e luvas/ Tem sempre alguém se dando bem/ De São Paulo a Belém/ Pego meu violão de guerra/ Pra responder essa sujeira/ E como começo de caminho/ Quero a uni multiplicidade/ Onde cada homem é sozinho/ A casa da humanidade e “Mais Que Isso” (com Chico César): Será que é tão difícil aceitar o amor como é/ E deixar que ele vá e nos leve/ Pra todo lugar/ Como aqui?/ Será melhor deixar essa nuvem passar/ E você vai saber de onde vim/ Aonde vou/ E que eu estou aqui?. Com Seu Jorge, se diverte com a gaiata“O Pequenez e o Pit Bull” (de Gabriel Moura/ Jovi Joviniano/ Aranha): Não adianta insistir/ Eu não vou pro boteco/ Hoje eu não teco, não fumo/ Não jogo sinuca/ Não pego no taco/ Tem muita gente maluca/ Me aporrinhando/ Enchendo o meu saco...

Em 2006, o álbum duplo Ana Carolina: dois quartos (Sony, BMG), com facetas distintas de sua obra: no primeiro incluiu canções voltadas para o pop, como “Tolerância”: Deixa eu te levar/ Não há razão e nem 
motivo/ Pra explicar/ Que eu te completo/ E que você vai me bastar/ Tô bem certo de que você vai gostar/ Você vai gostar
e “Ruas de Outono” Eu voltei por entre as flores da estrada/ Pra dizer que sem você não há mais nada/ Quero ter você bem mais que perto/ Com você eu sinto o céu aberto (ambas com Antônio Villeroy). No segundo, com intuito de vivenciar novos sons e ideias, introduziu: “Homens e Mulheres” (com sua assinatura) Eu gosto de homens e de mulheres/ E você o que prefere?/ E você o que prefere?/ Homens que dançam tango/ Mulheres que acordam cedo/ Homens que guardam as datas/ Mulheres que não sentem medo e “Eu não Paro” (coautoria Dudu Falcão, Lula Queiroga) Quando eu vou parar e olhar pra mim/ Ficar de fora/ E olhar por dentro/ Se eu não consigo/ Organizar minhas ideias/ Se eu não posso/ Se eu esqueço de mim? Em 2009, ao comemorar 10 anos de carreira, lançou o CD Ana Carolina: nove (Armazém, Sony Music), com 9 canções inéditas, arranjos eletrônicos ousados, algumas parcerias e participações internacionais: com Dudu Falcão “Dentro”: Escolhi/ O pior lugar pra me esconder/ Me tranquei por dentro de você/ E não sei mais sair...; a incisiva autoral “Era”: Hoje em dia não me importo com o que fiz no meu passado/ Quero amigos, sorte e muita gente boa do meu lado/ Quero amigos, sorte e muita gente boa do meu lado/ E não rebato se disserem por aí que eu tô errado/ Porque quem se debate está sozinho ou afogado/ Eu, que não fico no meio, não começo e nem acabo/ Eu sou filho do amor, não de Deus, nem do diabo... ; com a cantora italiana Chiara Civello “Traição”: Você surgiu/ O céu caiu/ Sem estrelas, sem Deus/ Seus olhos fecharam nos meus/ A traição nas batidas do meu coração? Me leva, me guia, assim como um rio/ Que segue seu destino sem mim (presença da cantora de jazz americana Esperanza Spalding). A festa foi concluída com o emocionante Multishow Registro N9ve + 1 (CD/DVD, Sony Music, BMG), incluindo duetos históricos com Maria Bethânia (Eu Não Sei Quase Nada do Mar, parceria Jorge Vercillo), Roberta Sá (Milhares de Samba), Luiz Melodia (Cabide), Antônio Villeroy (Heroína e Vilã, parceria A. Villeroy), e muito mais.
Em 2010, o projeto Ensaio de Cores – O Show foi apresentado ao púbico paulistanopor Ana Carolina, aliado a uma exposição de suas pinturas, com parte da renda revertida à Associação de Diabetes Juvenil, instituição social apoiada pela cantora. Em consequência, surgiu o álbum Ana Carolina: ensaio de cores ao vivo (Sony Music, 2011). Como originalidade, a banda do show é formada só por talentosas mulheres: Delia Fischer (piano), Gretel Paganini (violoncelo), Lan Lan (bateria e percussão). No inspirado repertório: As Telas e Elas, autoral(Quando eu a ví, ví muito mais/ Do que eu queria enxergar/ Que amor é esse que bateu em mim/ Na parede um quadro falso de Klimt...), O Violão, de Paulo César Pinheiro e Sueli Costa (E o artesão finalmente/ Nesta mulher de madeira/ Botou o seu coração/ E lhe apertou contra o peito/ E deu-lhe um nome bonito/ E assim nasceu o violão), Pra Tomar Três, com Edu Krieger (Saí pra tomar três e voltar às onze/ Acabei tomando onze e voltando às três/ Nunca fui boa em matemática/ Mas mando bem em português/ por isso afirmo tão enfática/ Quando eu disser que é onze/ Pode apostar que é três). A incansável artista não dá tréguas ao sucesso e lançou o genial CD # AC (Sony Music, 2013) indicado ao Grammy Latino de 2014, na categoria “Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro”. Fascinante, do princípio ao fim: “Pole Dance” (Pra distrair ela lê seu olhar de estilingue/ Acerta todo o cabaré, homem e mulher/ é muito mais do que bilíngue/ Faz com a língua o que quiser), “Resposta da Rita” (Não levei o seu sorriso/ Porque sempre tive o meu/ Se você não tem assunto/ A culpada não sou eu/ Nada te arranquei do peito/ Você não tem jeito, faz drama demais/ Seu retrato, seu trapo, seu prato/ Devolvo no ato, pra mim tanto faz/ Construí o meu botequim), ambas com Edu Krieger; “Bang Bang 2”, com R. Pitta (Essa noite eu quero dançar/ Essa noite eu vou derreter/ E quem sabe até encontrar/ Alguém melhor que você).  

No contexto internacional, Ana Carolina apresentou-se com êxito em palcos (onde se sente à vontade) da África (Angola, Moçambique), Europa (Espanha, França, Inglaterra, Itália, Portugal, Suíça), Estados Unidos (Boston, Houston, Los Angeles, Miami, Nova Iorque, Orlando, São Francisco).

Cantora, compositora, arranjadora, violonista, produtora musical, a multitalentosa Ana Carolina (sempre em constante atividade) vai, aos poucos, acrescentando em seu premiado currículo as artes da pintura e literatura. De personalidade forte e estilo singular, de grande extensão vocal (vai dos graves aos agudos), agrada a “gregos e troianos” e deixa a vida lhe levar.


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