JACKSON DO PANDEIRO
(Alagoa Grande/PB, 31 de agosto de 1919 – Brasília/DF, 10 de julho de 1982)

            Desde cedo, José Gomes Filho tocava zabumba e acompanhava a mãe Flora Mourão, respeitada cantora de coco, na região do Brejo da Paraíba. Com o falecimento do pai, mudou-se com a família para Campina Grande, aos 11 anos de idade, em penosa caminhada de quatro dias, indo trabalhar como ajudante de padeiro. Em 1939, ao se destacar como pandeirista em apresentações eventuais, deixou definitivamente o “calor das fornalhas” para entrar no conjunto do Cassino Eldorado, luxuoso cabaré da cidade, como Jack do Pandeiro, assim chamado por gostar de filmes de faroeste, estrelado pelo ator Jack Perry.

Desta vez de trem, em 1944, o irrequieto pandeirista desembarcou em João Pessoa, e após algumas dificuldades iniciais para se ambientar, foi convidado a integrar o “cast” da Rádio Tabajara, a mais importante orquestra do estado, onde também despontava o saxofonista Moacir Santos. Em 1947, o nome de José Jackson foi anunciado dentro da programação diária da rádio, como participante do Trio Tabajara, com a popularidade crescendo no manuseio do seu instrumento e de malabarismo peculiar. No ano seguinte, viajou para Recife, contratado pela recém-inaugurada Rádio Jornal do Recife. Rebatizado como Jackson do Pandeiro, passou a atuar também como cantor exclusivo de sambas.

A partir de 1953, gravou na cidade seus primeiros sucessos em 78 rpm (selo Copacabana). Ao ganhar os ouvintes cariocas com sua voz e ritmo contagiantes, após o carnaval de 54, Jackson embarcou, a bordo do navio Vera Cruz, para o Rio de Janeiro com Genival Macedo, representante da Copacabana no nordeste. Lá, se encontraria com a cantora e dançarina Almira Castilho, com quem formara uma nova dupla de grande sucesso em Recife. Entrevistado em sua chegada, sobre as primeiras impressões da cidade, não titubeou: Home, parece um tabuleiro de cuscuz... Com apresentações nos famosos programas César de Alencar e de Paulo Gracindo, Jackson e Almira conquistaram o Rio de Janeiro para sempre, onde permaneceram por três meses.

Em 1955, já instalados em definitivo, com moradia no bairro da Glória, foi editado o histórico LP 10ꞌ Jackson do Pandeiro (Copacabana), de registros iniciais em 78 rpm do rojão Forró Em Limoeiro e do coco Sebastiana (Rosil Cavalcanti), entre outros. No ano seguinte, gravou o divertido LP 10ꞌ Forró do Jackson (Copacabana), com foto pela primeira vez do casal Almira e Jackson, no qual incluiu o coco Falso Toureiro (José Gomes, Heleno Clemente) e o baião Rosa (Rui de Morais e Silva). Ainda nessa época, a TV Tupi inseria em sua programação O Forró do Jackson, com a dupla ainda participando de outros concorridos programas de auditório, além de idas para São Paulo, com apresentações na rádio e televisão Record. Também a TV Itacolomi e a Rádio Guarani, em Belo Horizonte, entraram no circuito, repetindo-se o grande impacto de suas performances. Apaixonado por futebol (torcedor do Flamengo e do Atlético mineiro), Jackson ainda teve a felicidade de comemorar a vitória brasileira na Copa de 58, em programa especial de Paulo Gracindo na Rádio Nacional, sua nova casa.Em 1959, foi lançado o álbum Jackson do Pandeiro (selo Columbia), destaque para composições autorais Vou Buscar Maria (com Severino Ramos), Cantiga do Sapo (com Buco do Pandeiro), além do megassucesso Chiclete Com Banana (Gordurinha, José Gomes).

Em 1960, outra coletânea da Copacabana apresentou o LP Jackson do Pandeiro: sua majestade, o rei do ritmo, título perfeito para interpretações e repertório de grandes sucessos: Forró Em Caruaru (Zé Dantas), Cabo Tenório (Rosil Cavalcanti), O Canto da Ema (Alventino Cavalcanti, Aires Viana, João do Vale), Falsa Patroa (Geraldo Jacques, Isaías de Freitas). Nesse mesmo ano, contratado pela Philips, gravou os álbuns: Jackson do Pandeiro: de Norte a Sul (1960), destaque de sua autoria Filomena e Fedegoso (com Elias Soares), O Trabalho Que Deu (com Rosil Cavalcanti) e Praia do Janga (Almira Castilho, Heleno Clemente); Ritmo, Melodia e a Personalidade de Jackson do Pandeiro (1961), sempre vibrante em suas performances: Deixa Eu Pra Ela (Venâncio, Corumba), Língua Ferina (Elias Soares, Oldemar Magalhães), Nem O Banco do Brasil (parceria com Maruim); Jackson do Pandeiro: Mais Ritmo (1961), em faixas descontraídas, assina: Vou Me Casar (com Rosil Cavalcanti), Caso de Polícia (com Osvaldo Oliveira) e do repertório alheio Urubu Molhado (Rosil Cavalcanti, Bezerra da Silva); A Alegria da Casa! Jackson do Pandeiro e Almira Castilho (1962), novos sucessos: Como Tem Zé Na Paraíba (Manezinho Araújo, Catulo de Paula), Maria do Angá (Antônio Barros, Aleixo Ourique), Viola Afinada (Venâncio, Corumba); É Batucada! Jackson do Pandeiro, Almira Castilho e o Ritmo Empolgante dos Reis da Batucada (1962), muito samba no pé para conferir: Saia Rôta (Riachão), Jacaré Bebeu (parceria com B. da Silva, A. de Jesus), O Morro Cai (Raimundo Evangelista, Antônio Barros); Caminho da Roça: Jackson do Pandeiro, Almira Castilho, Zé Calixto (1963), em tempos de festas: São João Na Roça, Acenderam A Fogueira, parcerias com Antônio Barros e Maruim, respectivamente; Forró de Zé Lagoa (1963): além da faixa (de Rosil Cavalcanti) que dá nome ao disco, merece citar: Seguro Morreu de Velho (Manezinho Araújo, Rubens Machado); Tem Jabaculê: Jackson do Pandeiro e Almira Castilho (1964), com destaques para: Quem Não Sabe Beber (Elino Julião, Severino Ramos), Babá de Babá (Almira Castilho, Waldemar Silva), Forró Em Casa Amarela (João Silva, Sebastião da Conceição); Coisas Nossas: Jackson & Almira (1965), ótimas parcerias com Bezerra da Silva (Preguiçoso), Jota Júnior e Álvaro Castilho (Sarrabulho), entre outras; E Vamos Nós! Jackson do Pandeiro e Almira Castilho (1965), garimpa-se pérolas: No Balanço do Balaio (Severino Ramos), Tililingo (Almira Castilho), O Bom Xaxador (Antônio Barros, Jackson do Pandeiro).

Em 1966, o LP Jackson do Pandeiro: o cabra da peste (selo Continental), também trouxe muito balanço e ritmo da esfuziante música nordestina em faixas, como: Capoeira Mata Um (Álvaro Castilho, De Castro), Forró Quentinho (Almira Castilho), Papai Vai de Trem (Ivo Martins, Jackson do Pandeiro). No ano seguinte, o LP Jackson do Pandeiro: a brasa do norte (selo Cantagalo) dá continuidade a novos sucessos e marca a dissolução da dupla com Almira Castilho: Vila Mariana (Severino Ramos, José Guimarães), De Araque Zé (Maruim), Babá de Cachorro (Antônio Barros, Jackson do Pandeiro). Novamente em selo Cantagalo (1968), outro ótimo lançamento com o LP Jackson do Pandeiro: é sucesso, vale ressaltar, entre outras: O Pai da Gabriela (Elino Julião, José Jesus), Esquindô Lelê (Jackson do Pandeiro, Luis Moreno), Liberdade Demais (Raimundo Olavo, Jackson do Pandeiro).

No início de 1968, sofreu trágico acidente, quando dirigia seu carro nas proximidades da Penha, perdendo o amigo Protássio Lacerda, seu vizinho em Olaria, onde agora morava com sua família e a nova companheira, a baiana Neuza Flores, ouvinte de rádio e sua admiradora. Em 1970, no álbum Aqui Tô Eu (selo Philips) regravou vários sucessos e apresentou inéditas Maria da Pá-virada (coautoria de Betinho), Tenha Dó de Mim (com Ivo Marins). Em seguida, pelo selo CBS ocorreram os LPs: O Dono do Forró (1971), entre as faixas: Cachimbo Chato (Zé Catraca), Aquele Pé de Pitomba (Barbosa da Silva); Sina de Cigarra (1972), bom de ouvir: Mania de Mangar (com José Batista), Catirina (Jararaca); Tem Mulher, Tô Lá (1973), dançante, sedutor e divertido: Xarope de Amendoim (Severino Ramos, Paulo Patrício), Tem Mulher Tô Lá (Zé Catraca, J. Luna). No ano seguinte, lançou Jackson do Pandeiro: Nossas Raízes (Alvorada/Chantecler), uma animada festa de ritmos: Forrobodó (Joca de Castro, Carim Mussi), O Samba E O Pandeiro (parceria com Ivo Marins), onde dá o seu recado (...Maria traz aí o meu pandeiro/ ele é o meu tesouro/ é com ele que eu faço um samba quente...). Em 1976, divide o disco Mutirão (Alvorada/Chantecler) com outros intérpretes e canta Dona Totonha (Tony Garça, Alventino Cavalcanti), Vamos Saculejar (Assunção Correia, José Batista).Novamente, pela etiqueta Alvorada/Chantecler gravou os LPs Um Nordestino Alegre (1977) e Alegria Minha Gente (1978). Nesse mesmo ano, com público recorde Jackson do Pandeiro e Alceu Valença apresentaram empolgante show no Teatro Pixinguinha/SP.

Em 1980, Jackson repetiu a dose, dessa vez dividindo o palco com as cantoras Anastácia e Cátia de França no Teatro Dulcina/RJ. Seu derradeiro disco Isso É Que É Forró (selo Polyfar/Philips, 1981), entre sambas e forrós, deixou o seu recado em Cabeça Feita, Competente Demais (coautorias de Sebastião Batista da Silva e Valdemar Lima, respectivamente), Tem Pouca Diferença (Durval Vieira), Mãe Solteira (Severino Ramos, Antônio Rodrigues).Com a saúde debilitada por dois enfartes recentes, Jackson se apresentou, em 3 de julho de 1982, como principal atração acompanhado do fiel conjunto Borborema (Severo – sanfona, Vicente – pandeiro, Passinho - violão e os irmãos Tinda – triângulo e Cícero – zabumba), em festa junina no luxuoso Setor de Mansões Park Way, em Brasília. Com animação do publico provocando um show de mais de uma hora, Jackson exausto pelo excesso cometido não conseguiu embarcar no avião do dia seguinte, entrando em coma e vindo a falecer dias depois na UTI do Hospital de Base da capital federal.

Com pouca instrução, Jackson do Pandeiro, foi um mestre da canção popular espontânea, autor de vasta obra incluindo cocos, rojões, sambas, frevos, xotes e baiões, excepcional ritmista com seus toques e malabarismos, de voz marcante, anasalada, suas apresentações eram divertidas, espirituosas, carregadas de improvisos, envolvendo o público com seu carisma, um verdadeiro “showman”.

Em 2004, o CD duplo Jackson do Pandeiro: 50 Anos de Ritmos (EMI Music), compilação abrangente e significativa da magistral obra do artista paraibano, apresenta entre outras já citadas: Disco Um: Boi Brabo (Rosil Cavalcanti), O Galo Já Cantou (Edgar Morais), Vou Gargalhar (Edgar Ferreira), Coco do Norte (Rosil Cavalcanti); Disco Dois: Velho Sapeca (Antonio Barros, J. Saccomani), Meu Patrão (José Gomes, Riachão), Quem Samba Fica (Jackson do Pandeiro, Edson Menezes, João Rosa), Cumpadre João (Rosil Cavalcanti, Jackson do Pandeiro). Em 2011, o selo Discobertas lançou o interessante CD Jackson do Pandeiro Ao Vivo, reunindo medley e outras gravações em fita cassete (1980) e O Assunto É Dinheiro (Altamiro Carilho, Iracy de Oliveira), Maria Gasolina (Cláudio Paraíba), de LPs promocionais. Em 2014, foi editado o CD Jackson do Pandeiro: Raridades (Discobertas), com destaque para as marchinhas Tá Como O Diabo Gosta (A. Garcia, Enock Figueiredo), A Negra Balançou (Otolindo Lopes, Adauto Michelles).


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