INEZITA BARROSO (São Paulo, 4 de março de 1925 – São Paulo, 8 de março de 2015)

            Filha de família tradicional paulistana, criada no bairro da Barra Funda, Ignez Magdalena Aranha de Lima cresceu entre a cidade e a fazenda cafeeira dos pais, no interior. Encantada com a viola caipira, as folias de Reis e do Divino, as danças catira e cateretê, as músicas de São João, começou a cantar e estudar violão aos sete anos de idade. Na adolescência, realizou recitais e shows, apesar da oposição do pai vendo os estudos serem prejudicados. Só conseguiu sua liberdade, quando se casou com um cearense, o que lhe proporcionou uma viagem pelo Nordeste para recolher material folclórico e iniciar carreira artística com o nome de Inezita Barroso.

Em 1951, gravou o primeiro 78 rpm (selo Sinter) com a macumba Funeral de Um Rei Nagô (Heckel Tavares, Murilo Araújo) e a canção amazônica Curupira (Waldemar Henrique). Em 1953, aconteceu o sucesso inicial em dose dupla: Moda de Pinga (Laureano) e o samba Ronda (Paulo Vanzolini), pelo selo RCA Victor. No ano seguinte, Inezita Barroso estreou no cinema com o papel principal, ao lado de Colé Santana e Adoniran Barbosa, no filme Mulher de Verdade, último trabalho do mestre Alberto Cavalcanti, tendo conquistado os prêmios Saci e Governador do Estado de São Paulo,de melhor atriz. Cabe também citar, atuando apenas como cantora o filme Carnaval Em Lá Maior (de Adhemar Gonzaga, 1955), com artistas exclusivos da Rádio e TV Record.

Ainda na década de 50, foram lançados os primeiros LPs em 10’ (selo Copacabana), com repertório exemplar: Inezita Barroso (1955) acompanhada da Orquestra de Hervê Cordovil: Prece a São Benedito (Hervê Cordovil), Banzo (Heckel Tavares, Murilo Araújo), Maria Júlia (tradicional, recolhida pela cantora); Danças Gaúchas (1955), músicas recolhidas do folclore coreográfico do Rio Grande do Sul: Pézinho, Balaio (tradicionais, adaptadas por Barbosa Lessa e Paixão Côrtes), Rancheira de Cadeirinha (Barbosa Lessa); Lá Vem o Brasil (1956), redescobrindo o país através de suas cantigas: Rede de Sinhá (Leyde Olivé), Galope À Beira Mar (Luiz Vieira); Coisas do Meu Brasil (RCA Victor, 1956), em destaque: Estatutos de Gafieira (Billy Blanco), Fazenda do Ingá (Zé do Norte).

A partir de 1958, de volta à Copacabana, apresentou novos álbuns: Vamos Falar Do Brasil,com arranjos do maestro Hervê Cordovil e as pérolas: Peixe Vivo (Tradicional), Zabumba de Nego (Hervê Cordovil), Lampião de Gás (Zica Bérgami), Festa do Congado (Juraci Silveira); Inezita Apresenta (1958), no qual reúne ótimas compositoras: Edvina de Andrade(Cateretê), Babi de Oliveira (Seresta da Saudade)Juraci Silveira(Adeus Minas Gerais), Leyde Olivé(Recado); Canto da Saudade (1959), irretocável do início ao fim: Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso), Luar do Sertão (João Pernambuco, Catulo da Paixão Cearense), Maringá (Joubert de Carvalho), Sussuarana (Heckel Tavares, Luiz Peixoto); Inezita, sua viola e seu violão (1960), outro excepcional lançamento: A Troco de Quê (Luiz Vieira), Moda da Mula Preta (Raul Torres), A Voz do Violão (Francisco Alves, Horácio Campos), Moda da Onça (Tradicional, recolhida pela cantora); Inezita Barroso (1961), inclui as pérolas: Tamba-Tajá (Waldemar Henrique), Casa de Caboclo (Heckel Tavares, Luiz Peixoto), Viola Quebrada (Mário de Andrade, Ary Kerner); Clássicos da Música Caipira (1962), no repertório encontram-se: Chico Mineiro (Tonico, Francisco Ribeiro), Do Lado Que O Vento Vai (Raul Torres), Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira); Recital (1962), para se deleitar: Uirapuru, Boi Bumbá (essas de Waldemar Henrique), Prenda Minha (Tradicional gaúcha); A Moça e A Banda (1963), com a Banda da Força Pública do Estado de São Paulo: Cisne Branco (Antônio Manoel do Espírito Santo, Benedito Xavier de Macedo), Hino À Bandeira (Francisco Braga, Olavo Bilac); Vamos Falar de Brasil Novamente (1966), com arranjos de Guerra Peixe: Cais do Porto (Capiba), Piaba (Tradicional, adaptação de Inezita Barroso); Recital nº 2 (1969), em destaque: Morena Morena (Francisco Mignone), Falua (João de Barro, Alberto Ribeiro); Modinhas (1970), entre pérolas garimpa-se: Modinha (Villa-Lobos, Manoel Bandeira), Coração Perdido (Mário de Andrade); Clássicos da Música Caipira nº 2 (1972), vale citar: Saudades de Matão (Jorge Galati, Raul Torres), O Menino da Porteira (Teddy Vieira, Luisinho); Modas e Canções (1975), é sempre bom ouvir: Fiz A Cama Na Varanda (Dilú Mello), Meu Limão Meu Limoeiro (Tradicional, adaptação de José Carlos Burle); Inezita Em Todos Os Cantos (1975), inclui das músicas tradicionais mineiras É A Ti Flor do Céu, Amo-te Muito (recolhidas em Diamantina e Ouro Preto); Joia da Música Sertaneja (1978), o título diz tudo: Canoeiro (Zé Carreiro), Perto do Coração (Raul Torres, João Pacífico); Inezita Barroso & Evandro e seu Regional (1979), um show histórico: João Valentão (Dorival Caymmi), Chão de Estrelas (Silvio Caldas, Orestes Barbosa); Joia da Música Sertaneja, vol. 2 (1980), vale conferir: Ciriema (Mário Zan, Nhô Pai), Jorginho do Sertão (Cornélio Pires), e outras.

A partir desse ano, passou a participar semanalmente pela TV Cultura/SP do programa Viola Minha Viola, ao lado de Moraes Sarmento, e a partir de meados de 1990, apenas pela cantora. De repercussão nacional, resgatou a música caipira (notadamente o uso da viola), e recebeu intérpretes, duplas sertanejas tradicionais em auditório sempre repleto. Em 1985, novo êxito ocorreu com o álbum Inezita Barroso, A Incomparável (selo Lider), clássicos do cancioneiro nacional como: Vida Marvada (Almirante, José Lúcio de Azevedo), Chuá Chuá (Pedro de Sá Pereira, Ari Pavão), Ontem Ao Luar (Pedro de Alcântara, Catulo da Paixão Cearense). Com o mestre violeiro mineiro Roberto Corrêa (radicado em Brasília), gravou dois exemplares CDs (selo RGE): Voz e Viola (1996), no repertório: Felicidade (Lupicínio Rodrigues), Romaria (Renato Teixeira) e Caipira de Fato (1997), entre as faixas: Benzim (Tradicional), De Papo Pro Á (Joubert de Carvalho, Olegário Mariano). Em 1999, a incansável cantora apresentou o CD Sou Mais Brasil (selo CPC-UMES), um desfilar de admiráveis canções: Viola Enluarada (Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle), A Saudade Mata A Gente (João de Barro, Antônio Almeida), Cuitelinho (folclórico recolhido por Paulo Vanzolini) participação de Théo de Barros, Ave Maria (Erothides de Campos). No ano seguinte, a InterCD gravou ao vivo, no bar Supremo Musical, o álbum Perfil de São Paulo: Inezita Barroso e Isaias e seus Chorões, em bela homenagem ao estado paulista, acompanhados de excelente grupo de instrumentistas, quando interpreta: Bonde Camarão (Cornélio Pires), Na Serra da Mantiqueira (Ary Kerner), Perfil de São Paulo (Francisco de Assis Bezerra de Menezes).

Em 2003, foi lançado o CD Inezita Barroso: hoje lembrando (selo Trama), com arranjos e o violão de Théo de Barros, além de canções inéditas de Paulo Vanzolini: Bem Iguais e Recompensa. Sua despedida musical Sonho de Caboclo (Independente, 2009), traz a marca da saudade: Flor do Cafezal (Luiz Carlos Paraná), Rio de Lágrimas (Tião Carreiro, Piraci, Lourival dos Santos), Sonho de Caboclo (Adauto Santos), citando apenas algumas do seu belo repertório. Em 2014 tornou-se imortal sendo eleita para a Academia Paulista de Letras, pelo seu importante e meritório trabalho de pesquisa do folclore nacional. Uma grande cantora, ousada para o seu tempo, de voz forte, técnica perfeita, que deu ao brasileiro o conceito de bom gosto para a música caipira.


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