EDMUNDO SOUTO (Belém/Pará, 30 de março de 1942)

            Criado na rua Frutuoso Guimarães, no histórico bairro Campina, o garoto Edmundo Rosa Souto ao se transferir com os pais para o Rio de Janeiro, trouxe consigo a lembrança muito forte dos ensaios de samba, jamais esquecidos. Morando em Copacabana, aos doze anos de idade ganhou um violino, vindo a estudar no Liceu de Artes e Ofícios (ainda no Largo da Carioca), com aulas de desenho, música e violino. Ouvindo fascinado os discos de Johnny Alf e Dick Farney, começou a se conduzir para o caminho da bossa nova.

Já nos anos 60, foi aluno do violonista e compositor Oscar Castro Neves, e formou-se em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1968. Também apaixonado por cinema, em 1965 fez a trilha do filme curta-metragem Garoto de Calçada, de Carlos Frederico Rodrigues, prêmio especial do júri e melhor trilha sonora para o I Festival de Cinema Amador JB-Mesbla. Em seguida, compôs (com Danilo Caymmi) a trilha sonora, com arranjos de Ugo Marotta, para outro filme Manequim, do mesmo diretor.Sua primeira música gravada, Candomblé (parceria com Paulo Magoulas e Danilo Caymmi), bem ao estilo bossa nova, ocorreu em 1967 no álbum Mário Castro Neves & Samba S.A. (Selo RCA Victor).

No ano seguinte, a trinca Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós concorreu ao I Festival Universitário de Música Popular, em Porto Alegre, obtendo o 2º lugar com Canto Pra Dizer-te Adeus, defendida por Iracema Werneck, merecendo ainda gravações de Erika Norimar e Márcia. Em seguida, alcançaram grande êxito no III Festival Internacional da Canção Popular (TV Globo) com a romântica Andança, nas vozes de Beth Carvalho e os Golden Boys, classificada em 3º lugar, e que recebeu inúmeras gravações, como as de Elis Regina, Maria Bethânia,Emílio Santiago, Fafá de Belém, além das instrumentais de Luiz Eça (piano), Manoel da Conceição (violão), Walter Wanderley (órgão), e muitas mais. Em 1969, ganhou em parceria com Paulinho Tapajós, o IV Festival Internacional da Canção Popular (TV Globo) com a melodiosa Cantiga Para Luciana, interpretada pela Evinha, premiada como revelação feminina. Destaques para leituras instrumentais de Dom Salvador (piano), Lyrio Panicali (orquestra), Luperce Miranda (bandolim), e nas vozes de Carlos Galhardo, Pery Ribeiro, Cláudia Telles.

De 1970 a 1982, passou a trabalhar como arquiteto na Cia. de Saneamento Básico de São Paulo, sem contudo abdicar de suas atividades musicais. Em 1984, assinou o samba enredo Beth Carvalho: a enamorada do samba (coautoria de Iba Nunes, Luiz Carlos da Vila e Paulinho Tapajós) para a S.E.R.E.S. Unidos do Cabuçu que, ao desfilar na inauguração do Sambódromo, no grupo de acesso, classificou-se em 1º lugar. Com Paulinho Tapajós, seu parceiro mais constante, escreveu o livro Verde Que Te Quero Ver (editora Record, 1987), adaptado para musical infantil, levado em teatro e TV, com suas canções gravadas em LP (selo Warner, 1984), interpretadas por Jane Duboc, Lucinha Lins, Mú Carvalho, Beth Carvalho, e outros. Com tantos parceiros, cabe também citar: o poeta Paulo César Pinheiro, em pérolas do samba Pra Ninguém Chorar (1974), Cansaço (1975) e os sambistas Jorge Aragão (Mais Que Um Sorriso - 1985), Noca da Portela (Disfarce - 1982), todas interpretadas por Beth Carvalho, e Coração Azul e Branco (1998), na voz do parceiro. Mangueirense de coração, sempre desfilando pela “verde e rosa”, Edmundo Souto compôs o notável samba enredo Ao Chico Com Carinho (parceria com Moacyr Luz e Paulinho Tapajós), cantado magistralmente por Quinzinho e a presença de diversos Amigos da Mangueira, lançado no ano que a escola foi campeã, homenageando Chico Buarque (CD Paulinho Tapajós: reencontro – CID, 1998, no qual também assinou as parcerias na faixa título e em Joatinga).

Em projeto de decreto legislativo de 2001, lhe foi concedido o título de Cidadão Honorário da Cidade, pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Morador há muitos anos na avenida Epitácio Pessoa, margem ipanemense da Lagoa Rodrigo de Freitas, Edmundo escreveu a belíssima e apaixonante sinfonia Sacopenapã, um hino de amor à sua beleza que sempre lhe emociona e inspira. O nome da obra foi motivado pelo saudoso amigo Tom Jobim, outro ilustre e amante visceral da região, que lhe explicou o seu significado indígena caminhos dos socós, pássaros nativos que ainda, mesmo em pequena quantidade, sobrevivem à poluição local.

Em março de 2004, a obra foi apresentada pela primeira vez em espetáculo histórico realizado no Parque do Cantagalo na Lagoa, com participações da Orquestra Filarmônica do Rio de Janeiro, do Coral das Meninas Cantoras e do bandolinista Hamilton de Holanda. São dezessete canções autorais, com diversos parceiros e intérpretes, afinados com suas ideias para o tributo: Espelho do Rio (com Stil), Amanhecer (com Ronaldo Bastos) ambas na voz de Luanda Cozetti, Ser Carioca (Edmundo Souto) com Dudu Nobre, Feitio Coração (Edmundo Souto) com o Quarteto em Cy, A Lagoa E Você (Edmundo Souto) com o MPB-4, Garota da Lagoa (com João Pimentel) na voz de Emílio Santiago, Natureza Maior (coautorias de Bororó Felipe e Paulo César Pinheiro) com Zé Renato, Sacopenapã (com Eduardo Goldenberg) na voz de Beth Carvalho. No ano seguinte, foi publicado o livro Sacopenapã: Lagoa, espelho do Rio (Editora Timbre Comunicações), projeto coordenado por Nei Barbosa e Edmundo Souto, com textos de Carlos Heitor Cony, Cora Rónai, Ziraldo e outros. De importante valor histórico, verdadeira obra de arte, ilustrado por belíssimas fotos, além de valoroso CD, com as gravações do show, acima citado.

Sem esquecer as suas origens, em 2007, Edmundo assinou o samba enredo Belém dos Grandes Carnavais (coautoria do poeta João de Jesus Paes Loureiro), para o G.R.C.S. Acadêmicos de Samba da Pedreira. Com previsão de lançamento, ainda em 2016, o documentário Garota de Ipanema – O Bar, do diretor Carlo Mossy, homenagem ao famoso ponto de encontro de intelectuais e artistas dos anos 60/70, conta com sua participação ao interpretar a música Morena de Ipanema (coautoria de Paulo Sérgio Valle), ao lado deste e de Jards Macalé, além de dividir outro tema O Bar da Bossa, com o maestro Anselmo Mazzoni.

Como arquiteto e compositor, profissões que desenvolve com muita paixão, de olhar atento a tudo que o envolve no seu cotidiano, Edmundo Souto projeta e cria obras de expressiva sensibilidade, melodias nos mais variados ritmos, nome definitivo na cultura nacional.


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