DEA TRANCOSO (Almenara/MG, 27 de março de 1964)

            Nascida na região do Vale do Jequitinhonha, onde é marcante o contraste entre a pobreza e a riqueza de sua cultura popular, Alcidéia Margareth Rocha Trancoso, filha de pais seresteiros, cresceu com o rádio no ouvido, emocionada com as canções de Nelson Gonçalves, Clara Nunes, Inezita Barroso, Clementina de Jesus, além da dupla Cascatinha e Inhana. Começou sua carreira artística, ao participar do Festivale (Festa da Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha), registrados desde 1980, sempre em um município diferente.

Em 1989, foi vencedora com a canção Tuíra, índia guerreira (parceria com Si Amaral e Celi Márcio), no evento musical acontecido em Rubim. Em 2002, estreou no mercado fonográfico, com o admirável CD O Violeiro e A Cantora: Chico Lobo e Déa Trancoso, interpretando canções do famoso companheiro, além de clássicos como Moda de Pinga “Marvada Pinga” (Laureano), Viola Cantadeira (Marcelo Tupinambá), Estrada do Sertão (João Pernambuco, Hermínio Bello de Carvalho), Um Violeiro Toca (Almir Sater, Renato Teixeira). Depois de muitos anos de pesquisa, reunindo tradição e contemporaneidade, lançou seu primeiro e excepcional CD solo Déa Trancoso: Tum Tum Tum (produção independente – 2006, e em parceria com o selo Biscoito Fino – 2010), indicado ao Prêmio de Música Brasileira (2007) nas categorias de Disco Regional, Cantora Regional, Projeto Visual e Cantora Voto Popular. Poesia pura, em torno de ritmos e sons encantadores espalhados por diversas regiões do país, de domínio público adaptados pela cantora: Beija-Flor, Rainha, Benzim Veloso, Meus Amô, Canarim do Mato (adaptado por Wilson Dias), citando algumas faixas.

Em 2011, o CD Serendipity (selo Tum Tum Tum) apresentou Déa Trancoso com sua alma sertaneja, vibrante e serena, se descobrindo inspirada compositora e letrista: Oferenda (... eu molho a minha saia/ na espuma que clareia/ o tambor batuqueia/ o canto que incandeia), Gismontiana 2 (... você é a estrada, a trilha do caçador/ e eu te sigo calmamente aonde você for), Castiça (um dia vaguei vestida/ apenas de sol/ tempos de arrebol), Sansara (... e a vida grita socorro/ o sol não aguenta mais/ a terra já está no osso/ nem porto, nem cais). No ano seguinte, outro lançamento primoroso: Flor do Jequi: Déa Trancoso + Paulo Bellinati (selo Tum Tum Tum), acompanhada pelo violão e arranjos requintados do famoso parceiro, seu canto entoa na medida certa pelo sertão, cidades, vilas, estradas, pelas beiras de rio, montanhas, em qualquer lugar levando poesia, delicadeza, alegria e paixão. Vale ressaltar, entre outras, Contradanças (tradicionais, adaptação com Josino Medina), Flor do Jequi (coautoria de Sérgio Santos), Coco da Véia (tradicional, adaptação de Lira Marques), Mestra Diôla (Gonzaga Medeiros).

Cantora afinada, com técnica e paixão, de sensibilidade rara capaz de extrair toda a beleza escondida do sertão, resgatando a nossa cultura popular dos congados e folias, das rodas de samba e dos batuques, das rezas e procissões, Déa Trancoso vai formando a cada trabalho editado, uma discografia inigualável, de valores universais, divulgando seu canto em palcos do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Joinville, Florianópolis, Natal, São Luis, Belém, e estendendo suas apresentações por países como Espanha, Portugal, França, Itália, Inglaterra, Bélgica e Holanda, todos encantados com seu talento peculiar.


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