CARMÉLIA ALVES
(Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 1923 – Rio de Janeiro, 3 de novembro de 2012)

            Nascida em Bangu, zona oeste da cidade, filha de nordestinos, Carmélia Alves Curvello foi criada na localidade de Areal, em Petrópolis. Aos cinco anos de idade, gostava de ouvir o pai cantarolar e contar histórias do seu Ceará.

Em 1940, voltou para o Rio e começou a frequentar programas de calouros, quando imitava Carmen Miranda, seu ídolo. Ao fazer sucesso em programa de auditório do cantor Barbosa Júnior, na Rádio Nacional, foi por esse indicada para se apresentar no famoso Programa Casé, acompanhada do Regional da Carmen Miranda (que já estava nos Estados Unidos). Assim, se profissionalizou em definitivo, contratada pela Rádio Mayrink Veiga, onde permaneceu durante dois anos. Cantou como “crooner” (ao lado de Nelson Gonçalves, Ciro Monteiro, e outros) na boate do Copacabana Palace com orquestras lideradas por famosos maestros como Simon Boutman, Fon-Fon, além do Regional de Benedito Lacerda. Por essa época conheceu o paulista José Andrade Nascimento Ramos (intérprete de músicas americanas, conhecido como Jimmy Lester), com quem se casou. Através do amigo Benedito Lacerda, gravou em seu primeiro disco 78 rpm (selo RCA Victor, 1943) os sambas Deixei de Sofrer (Horondino Silva, Popeye do Pandeiro) e Quem Dorme No Ponto É Chofer (Assis Valente).

Durante a 2ª Guerra Mundial, preferiu excursionar com o marido pelo Brasil, durante quatro anos. Voltou ao mercado fonográfico (selo Continental, 1949), em duo com Ivon Curi, incluindo a toada Me Leva (Hervê Cordovil, Rochinha) e a rancheira Gauchita (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira), quando o mineiro Hervê, o pernambucano Gonzaga e o cearense Teixeira tornaram-se marco em sua esplendorosa carreira. E nos anos 50, além de atuar no elenco da Rádio Nacional, iniciou uma série de êxitos (78 rpm, Continental), como Adeus Adeus Morena (Hervê Cordovil, Manezinho Araújo), Esta Noite Serenou (Hervê Cordovil), Eu Sou O Baião (Humberto Teixeira), Coração Magoado (Roberto Martins), Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira), e outros.

Em 1954, surgiu o primeiro LP A Rainha do Baião (selo Cantagalo): Adeus Maria Fulô (Humberto Teixeira, Sivuca), Último Pau de Arara (Venâncio, Corumba, José Guimarães), Xaxado (Luiz Gonzaga, Hervê Cordovil), Qui Nem Jiló (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira). No ano seguinte, pelo selo Continental, o álbum Baião com Carmélia Alves, coletânea de sucessos em 78 rpm: Sabiá Lá Na Gaiola (Hervê Cordovil, Mário Vieira), Cabeça Inchada (Hervê Cordovil), Saia de Bico (Tradicional, adaptação João de Barro). No cinema, atuou em números musicais de diversos filmes: Tudo Azul (de Moacyr Fenelon, 1951), Agulha No Palheiro (Alex Viany, 1952), Carnaval Em Caxias (Paulo Vanderley, 1953), Está Com Tudo (Luiz de Barros, 1953), Carnaval Em Lá Maior (Adhemar Gonzaga, 1955), Trabalhou Bem, Genival (Luiz de Barros, 1955), A Pensão de Dona Estela (Alfredo Palácios e Ferenc Fekete, 1956). Nesse ano, lançou pelo selo Copacabana os LPs Carmélia Alves, com repertório dedicado apenas à dupla Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira: Paraíba, Asa Branca, Juazeiro, Assum Preto, e Hervê Cordovil Interpretado por Carmélia Alves, no qual apresenta peças menos conhecidas do maestro: Tem Pena de Mim, Pode Ficar (com Vicente Leporace), Chuva (com Armando Rosa), Não Tem Mais Fim (com o irmão René Cordovil). Ao gravar o notável álbum A Nossa Carmélia Alves (Polydor, 1959), mostrou toda sua versatilidades em clássicos populares como: Minha Casa (Joubert de Carvalho), Coração (Sinval Silva), Suas Mãos (Pernambuco, Antônio Maria), Cajueiro Doce (Manezinho Araújo, Antônio Maria), e outros. Como consagrada cantora, ainda nos anos 50, Carmélia Alves apresentou-se, sempre com grande repercussão, na Argentina, em inúmeros países europeus como Alemanha, Portugal e na antiga União Soviética.

Em 1964, acrescentou outra pérola em sua discografia Bossa Nova com Carmélia Alves (selo Mocambo): Quem Quiser Encontrar O Amor (Carlos Lyra, Geraldo Vandré), Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim, Newton Mendonça), Valsa de Uma Cidade (Ismael Netto, Antônio Maria), O Barquinho (Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli). Em 1969, pelo selo Chantecler foi editado o histórico LP Sambas Enredo das Escolas de Samba de São Paulo – Carmélia Alves & Geraldo Filme, no qual em intervenções solo, registrou: História da Casa Verde (Narciso Lobo, Geraldo Filme – ES Unidos do Peruche), Progresso Industrial (Doca – E Primeira de Santo Estevão), Pedreira Unida (Hervê Cordovil), Quatro Histórias de Amor (Xangô, Bob Júnior – ES Morro de Vila Maria).

Em 1974, foi lançado o álbum Ritmos do Brasil com Carmélia Alves (RGE), em movimentadas e envolventes faixas: Frevorosamente (Nelson Sampaio), Peguei Um Ita No Norte (Dorival Caymmi), Chora Viola (Venâncio, Corumba), Ao Som do Carimbó (Nelson Sampaio, Valéria Ramos). Gravado ao vivo no Teatro João Caetano, durante a série Seis e Meia, Luiz Gonzaga & Carmélia Alves (RCA, 1977), em show memorável, apresentam em duo: Reis do Baião (Luiz Gonzaga, Luiz Bandeira), Lorota Boa (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira), Forró de Mané Vito (Luiz Gonzaga, Zé Dantas). Na década de 90, integrando conjunto, ao lado de Ellen de Lima, Nora Ney, Rosita Gonzales, Violeta Cavalcanti, Zezé Gonzaga, gravou As Eternas Cantoras do Rádio (selo CID, 1991 e 1992), quando interpretou antigos sucessos e, em 1999 ao lado de Ademilde Fonseca, Ellen de Lima, Violeta Cavalcanti (Leblon Records), no qual apresentou Menino de Braçanã (Luiz Vieira, Arnaldo Passos), ao lado de Ney Matogrosso. Nesse mesmo ano, lançou Carmélia Alves Abraça Jackson do Pandeiro e Gordurinha (selo CPC-UMES), com destaque nas participações de Inezita Barroso em Baião (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira), Luiz Vieira em Forró Em Caruaru (Zé Dantas), Elymar Santos em Súplica Cearense (Gordurinha, Nelinho). Sua última atuação se deu acompanhadade Carminha Mascarenhas, Ellen de Lima, Violeta Cavalcanti em show Estão Voltando As Flores (de Ricardo Cravo Albin) gravado ao vivo no Teatro de Arena/Rio (selo Som Livre, 2002).

Desde 2010, a cantora morava no Retiro dos Artistas, aonde veio a falecer em decorrência de falência múltipla de órgãos. De voz peculiar, de estilo brejeiro, ritmo inconfundível, Carmélia Alves disseminou a cultura nordestina, cantou sambas, choros, marchas carnavalescas, boleros, samba-canção, sempre com muita competência, alegria e paixão.


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