BLECAUTE
(Espírito Santo do Pinhal/SP, 19 de novembro de 1919 – Rio de Janeiro, 9 de fevereiro de 1983)

            Filho de antigos escravos, aos seis anos de idade (órfão de pai e mãe), Otávio Henrique de Oliveira seguiu com os irmãos mais velhos para a capital paulista, onde foi engraxate, vendedor de jornais, aprendiz de mecânico, tendo estudado até o 4º ano primário. Gostava de samba e cantarolava seus prediletos como Gosto Que Me Enrosco (Sinhô), Arrasta A Sandália (Osvaldo Vasques, Aurélio Gomes).

Depois de se apresentar em vários programas de calouros, ao atuar como profissional, foi batizado pelo locutor Capitão Furtado na Rádio Difusora com o nome artístico Black-Out (alusão aos apagões da época) que, aportuguesado, lhe trouxe popularidade e prestígio. No início dos anos 40, transferiu-se para o Rio de Janeiro, e passou a fazer shows pelos subúrbios, parques de diversões e no badalado circo Pavilhão Dudu, na Praça da Bandeira. Começou a gravar, em 1944, através do Braguinha (João de Barro), que era diretor artístico da Continental, com os sambas Minha Teresa (Raul Marques, Roberto Roberti, Mário Rodrigues) e Eu Agora Sou Casado (Alcebíades Nogueira, Cristóvão de Alencar). Em 1947, Blecaute foi contratado pela Rádio Nacional, quando viveu a sua fase áurea, e onde permaneceu até 1973. Antes de ser lançado (tardiamente) seu primeiro LP, registrou expressivos sambas e marchas em 78 rpm (selo Continental), como: Carioca Bonita (parceria com Zé Maria), Chegou A Bonitona (Geraldo Pereira, José Batista), em 1948. No ano seguinte: Que Samba Bom (Geraldo Pereira, Arnaldo Passos), Pedreiro Waldemar (Wilson Batista, Roberto Martins), Moreninha Moreninha (Pedro Caetano, Antônio Almeida). Em 1950: Rei Zulu (Pedro Caetano, Antônio Almeida), General da Banda (Sátiro de Melo, Tancredo Silva, José Alcides), Joãozinho Boa Pinta (Haroldo Barbosa, Geraldo Jacques). Ainda na década de 50, cabe destacar os extraordinários sucessos carnavalescos alcançados com a dupla Armando Cavalcanti, Klécius Caldas: Papai Adão (1951), Maria Candelária (1952), Dona Cegonha (1953), Piada de Salão (1954), Maria Escandalosa (1955), e outros. Em 1956, a gravadora Copacabana, lançou o LP Black-Out, coletânea em vários ritmos: o xótis Agarradinho (parceria com Vicente Amar), a toada Vou-me Embora Sá Dona (autoral), o samba-maxixe Linguagem do Povo (Edgar Nunes, Zeca do Pandeiro), o samba Use A Cabeça (Nelson Cavaquinho, Ermínio do Vale).

Finalmente, em 1959, o selo Odeon editou o seu tão ansiado e histórico LP solo É Pra Todo Mundo Cantar, cuja capa o apresenta vestido de farda como regente das tradicionais bandinhas do interior. Ao obedecer seu chamado, o povo aplaudiu pot-pourris, cuidadosamente escolhidos, além do desfile de outras pérolas, como: A Jardineira (Benedito Lacerda, Humberto Porto), É Com Esse Que Eu Vou (Pedro Caetano), Saca-Rolha (Zé e Zilda, Waldir Machado), Chiquita Bacana (João de Barro, Alberto Ribeiro), Alá-Lá-Ô (Haroldo Lobo, Nássara). No ano seguinte, outro notável lançamento: Blecaute: Na Boca do Povo (selo Polydor), repetição da fórmula anterior e novo repertório com interpretações sempre ao gosto dos foliões, apresentou: Lata d’Água (Luiz Antônio, Jota Júnior), Rosa Maria (Aníbal Silva, Eden Silva), Eu Brinco (Pedro Caetano, Claudionor Cruz), Que Rei Sou Eu? (Herivelto Martins, Waldemar Ressurreição), Pirata da Perna de Pau (João de Barro), Cidade Maravilhosa (André Filho).

Em 1961, ainda pelo selo Polydor, gravou Don Octavio Henrique de Los Boleros, fruto de viagem ao México, surpreendeu com sua voz aveludada e dicção perfeita, ao cantar clássicos latinos: Amor (Gabriel Ruiz, Ricardo Lopez), Hipócrita (Carlos Crespo), Luna Lunera (Tony Fergo), Um Poquito de Tu Amor (Julio Gutiérrez), Maria Bonita (Agustin Lara). Nesse mesmo ano participou como ator do filme Quero Morrer No Carnaval, rodado no Rio de Janeiro e na Cidade do México, dirigido por Fernando Cortez.

Em 1968, a escritora Eneida de Moraes (profunda conhecedora das festas momescas) promoveu no Teatro Casa Grande, no Leblon, o memorável espetáculo Carnavália, estrelado por Blecaute ao lado de Marlene e Nuno Roland, perpetuado em dois volumes editados pelo Museu da Imagem e do Som/RJ: Carnavália: Eneida Conta a História do Carnaval, mostrados em blocos temáticos, que sintetizam musicalmente nossa maior festa popular. No cinema, também atuou no clássico musical Carnaval Atlântida (de José Carlos Burle, 1952), onde exibiu a já citada marcha Dona Cegonha (Armando Cavalcanti, Klécius Caldas) ao lado da atriz e dançarina Maria Antonieta Pons. Campeoníssimo de tantos carnavais, intérprete afinado e de repertório versátil, sempre elegante, de muitos sorrisos, transmitiu charme e simpatia, não lhe foi dado o devido valor.

Ao falecer, o compositor e escritor Hermínio Bello de Carvalho, definiu a importância de Blecaute, com a seguinte frase: Ele era o Garrincha do samba. Uma pessoa alegre, que distribuía alegria aos outros e se esqueceu de guardar um pouco para si.  


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