ZECA BALEIRO (Arari/MA, 11 de abril de 1966)

            Com o nome mais popular (de santo padroeiro do seu estado natal), José Ribamar Coelho Santos aos oito anos de idade mudou-se com a família para São Luis, onde o pai abriu uma farmácia. Gostava de ouvir rádio, de ver a mãe cantar acompanhada ao violão pelo marido, além de apreciar emboladores, repentistas, gente de circo que atuavam nas ruas. Nesse ambiente, pensou em ser músico ao aprender violão, com 16 anos de idade. Nos anos 80, abandonou o curso de Agronomia, quando participava de shows coletivos, e ficou conhecido como Zeca Baleiro, devido à sua paixão por doces e balas, que o levou a abrir uma loja na cidade. Nessa época, fazia parte de um grupo de teatro, quando escreveu seu primeiro texto infantil Quem Tem Medo de Curupira, mais tarde lançado e recebendo o prêmio FEMSA/SP, do teatro infanto-juvenil.Em 1991, transferiu-se para São Paulo, atuando em bares da noite paulistana. Ao conhecer o paraibano Chico César, tornaram-se amigos, parceiros e fizeram juntos vários shows.

Em 1997, lançou seu primeiro CD solo Zeca Baleiro: por onde andará Stephen Fry (selo MZA Music), com mostras visíveis de seu enorme talento autoral e interpretativo em canções como: Bandeira, Salão de Beleza, Pedra de Responsa (com Chico César), Kid Vinil, conquistando o prêmio Sharp de melhor música (Bandeira) e disco, ambos na categoria pop-rock. Em 1999, surgiu um marco em sua carreira com o álbum Zeca Baleiro: Vô Imbolá (MZA Music), e foi logo dando recado, na faixa que dá nome ao disco: ...nem lobo bom e nem mau cordeiro/ mais metade que inteiro/ me chamei Zeca Baleiro/ pra melhor me apresentar..., e mais Semba, Bienal (participação de Zé Ramalho), Tem Que Acontecer (de Sérgio Sampaio), Disritmia (Martinho da Vila) e um sensacional dueto com Zeca Pagodinho em Samba do Approach. Imperdível! Com proposta mais intimista e sofisticada, Zeca lançou o CD Líricas (Universal Music, 2000), com destaque, entre outras, Quase Nada (parceria com Alice Ruiz), e Você Só Pensa Em Grana, Benguela, Blues do Elevador, estas apenas com sua assinatura.

Em 2002, novo êxito com o disco Pet Shop Mundo Cão (MZA Music), para se aplaudir: Minha Tribo Sou Eu (eu não sou cristão/ eu não sou ateu/ não sou japa, não sou chicano, não sou europeu/ eu não sou negão, eu não sou judeu/ não sou do samba, nem sou do rock/ minha tribo sou eu...), Telegrama (essas autorais), Fiz Esta Canção (com Mathilda Kóvak), Filho da Véia (Luiz Américo, Braguinha).No ano seguinte, inaugurou nova parceria com o CD Raimundo Fagner & Zeca Baleiro (selo Indie Records), entre suas participações cabe citar: Palavras e Silêncios (coautoria de Fausto Nilo), Hotel Á Beira-Mar (com Fagner), Daqui Pra Lá De Lá Pra Cá (com Fagner e Torquato Neto), Cantor de Bolero (com Fagner e Fausto Nilo). De volta ao repertório romântico, com talento e inspiração, Zeca Baleiro emplacou Baladas do Asfalto e Outros Blues (MZA Music, 2005), disco autoral: Balada do Asfalto, Alma Nova (esta com Fernando Abreu), Cigarro, O Silêncio (Essa noite não tem lua/ eu sei por que vi com meus olhos/ além dos luminosos que não brilham mais/ dorme às escuras a lua...).

Admirador da poetisa Hilda Hilst, musicou vários de seus poemas e utilizou apenas vozes femininas para interpretá-los, no álbum Ode descontínua e remota para flauta e oboé – de Ariana para Dionísio (Saravá Discos, 2005), com as canções numeradas em algarismos romanos de I a X, e participações de cantoras como Ângela Ro Ro, Maria Bethânia, Mônica Salmaso,Ná Ozzetti. Outro lançamento notável ocorreu com os CDs Zeca Baleiro: O Coração do Homem-Bomba, volume 1 e 2(MZA Music, 2008), no primeiro, irresistivelmente dançante, suas mensagens são carregadas de ironia e mordacidade: Você Não Liga Pra Mim (...você quer ser o meu mal/ mas sabe que podia ser meu bem), Vai de Madureira (...se falta molho rosé, no dendê vou me acabar/ se não tem moet chandon, cachaça vai apanhar...), Elas por Elas (...com Jurema eu morei em Ipanema/ com Estela eu só vivia na favela...) O segundo, ainda com mistura de ritmos, porém mais intimista, traz a canção Era (...Era dia de ação de graças/ na praça todo mudo riu/ não entendo bem que graça/ que acham num mundo que ruiu...), Pastiche (Tive uma oficina de desmanche/ no carnaval saio na tribo apache/ fiz uma ponta no filme “A Revanche”/ contracenei com a Irene Ravache...) e Como Diria Odair, homenagem ao seu ídolo Odair José(A felicidade é uma coisa tão difícil/ tão difícil de conseguir/ mas de vez em quando ela chega...).

No ano seguinte, gravou Zeca Baleiro ao vivo (selo MZA), com músicas extraídas dos discos já citados O Coração do Homem-Bomba. O multifacetado compositor apresentou, em 2010, o álbum Trilhas: música para cinema e dança (Saravá Discos), no qual inclui, entre outras: Carmo (da trilha sonora do filme homônimo do diretor espanhol Murilo Pasta), Xote do Edifício (para o espetáculo Geraldas e Avencas, apresentado pelo grupo de dança 1º Ato, de Belo Horizonte), a instrumental Baile dos Anões e o Samba do Balacobaco, esse na  voz de Zeca Baleiro(ambas para o espetáculo de dança, dirigido pelo cineasta Fernando Meirelles).Gravado ao vivo, no Teatro Fecap/SP, foi editado o CD Zeca Baleiro: Concerto (Saravá Discos, 2010), em repertório e interpretações admiráveis: Barco (Chico César), A Depender de Mim (autoral), Autonomia (Cartola), Tem Francesa No Morro (Assis Valente).

Em 2012, um título perfeito O Disco do Ano (selo Som Livre) para o brilho de pérolas como Calma Aí Coração (coautoria de Hyldon), Nada Além (com Roberto Frejat), Nu (Zeca Baleiro), Último Post (com a irmã Lúcia Santos) participação de Margareth Menezes, Ela Não Se Parece Com Ninguém (autoral). Ainda nesse ano, foi editado Zeca Baleiro: Lado Z, vol. 2 (MZA Music), ótima coletânea de apresentações do cantor em álbuns alheios. Vale a pena ouvir, entre outras: Homem Com H (Antônio Barros), Por Causa de Você (Tom Jobim, Dolores Duran), (Tom Zé) participação de Adriana Maciel, Choro do Fim do Mundo (coautoria de Flávio Henrique), Eu Também Quero Beijar (Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Fausto Nilo). Em 2014, o incansável Zeca Baleiro lançou seu primeiro álbum com temática infantil Zoró: Bichos Esquisitos, incluindo participações de amigos como Fernanda Abreu (Joaninha Dark, parceria de Tatá Fernandes), Tom Zé (Dona Libélula, parceria de Antonio Rezende), além de simpática bicharada enfocada em todas as 28 faixas, como Onça Pintada, Calango do Calango, sempre com sua assinatura. Também em 2014, gravou Calma aí, coração – ao vivo (selo Som Livre), inclui, basicamente, repetecos do seu repertório.

Em 2015, após dois anos de gravação, o premiado pernambucano e internacional percussionista Naná Vasconcelos (falecido recentemente), o contrabaixista e compositor paulista Paulo Lepetit unidos a Zeca Baleiro assinaram 13 composições inéditas para o irresistível CD Café No Bule (SESC/SP), um festival de sons e ritmos, para se deleitar: Batuque Na Panela, Xote do Tarzan. Em seguida, surgiu Chão de Giz: Zeca Baleiro Canta Zé Ramalho (Som Livre, 2015), gravado ao vivo no Teatro Castro Alves, em Salvador, rende uma justa homenagem ao compositor paraibano (de inúmeros sucessos), com releituras irretocáveis, acompanhado de sua nova banda Cavalos do Cão. No repertório selecionado, encontram-se: Beira Mar, Chão de Giz, Garoto de Aluguel, Admirável Gado Novo, Avôhai, e muito mais. Seu último trabalho, Zeca Baleiro: Era Domingo (Som Livre, 2016), com repertório totalmente inédito e autoral, em destaque: O Amor É Invenção (...você diz que o amor é invenção/ do cinema e da canção/ você diz que o amor/ foi feito para vender/ pacotes de emoção/ como se vende um cruzeiro à Cancun/ viagens que nos levam/ a lugar nenhum...), Ultimamente Nada (...toda treva para o diabo é luz/ eu não sou Jesus/ mas a minha cruz/ já sei carregar...).Uma carreira fulgurante credenciou Zeca Baleiro, aos 40 anos de idade, a uma posição destacada na nova geração da música popular brasileira, como um artista singular, de múltiplas atividades (cantor, compositor, escritor, produtor cultural), independente, lúcido e honesto em seus conceitos, não admitindo rótulos e clichês, mestre no tratamento de palavras, revolucionário em sua mistura de vários ritmos nas diversificadas tendências regionais, de uma forma bastante pessoal e criativa.


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