TIM MAIA (Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1942 – Niterói, 15 de março de 1998)

            Nascido e criado na Tijuca, onde os pais mantinham uma pensão, filho caçula de onze irmãos, Sebastião Rodrigues Maia gostava de ouvir no rádio os sambas de Ângela Maria, Cauby Peixoto, baiões de Carmélia Alves, boleros de Anísio Silva e do Trio Los Panchos, que cantarolava enquanto entregava as marmitas preparadas pelo Seu Altivo. Aos 14 anos, com seu primeiro grupo musical, Os Tijucanos da Tijuca,bancado pelos padres da igreja de São Sebastião dos Capuchinhos, passou a animar as quermesses e domingueiras no salão paroquial, de pouca duração. Depois de ganhar um violão do pai, aprendeu rápido a tocá-lo, desenvolveu uma batida suingada de rock, imitando o canto de Little Richard e Elvis Presley, as novidades do momento.

Assim, em 1957, formou o conjunto Os Sputnicks, e incluiu um garoto do subúrbio de Lins de Vasconcelos, chamado Roberto Carlos. Apresentaram-se no Clube do Rock, produzido por Carlos Imperial para a TV Tupi, quando cantaram Little Darling, gravação original do quarteto canadense The Diamonds. Por desentendimento entre as duas “estrelas” (Tião e Roberto), o grupo teve breve carreira. Com o falecimento do pai, em 1959, acompanhado de um grupo de sacerdotes em viagem promovida pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, sem falar uma palavra de inglês, embarcou para Nova York com parcos dólares no bolso, carta de apresentação a uma amiga da família, e o sonho de trabalhar na televisão. Experiência tumultuada, que lhe rendeu por algum tempo a amizade, moradia e uma guitarra do generoso casal O’Meara em Tarrytown (40 km de Manhattan), curso de americanização na Sleepy Hollow High School, conhecer Greenwich Village e o Harlem, os shows do Apollo Theater, empregos modestos que mantinham sua sobrevivência, a formação de um conjunto vocal The Ideals (com apresentações em bares e festas), viagem ao lado de três amigos em carro roubado por vários estados, algumas prisões, e finalmente sendo deportado em 1964.

Em 1966, partiu para São Paulo com intenção de se reaproximar de Roberto e Erasmo Carlos, que faziam sucesso com o programa da Jovem Guarda, no Teatro Record. Frustrado em sua tentativa, conseguiu se lançar no programa Quadrado e Redondo da TV Bandeirantes, acompanhado dos jovens Os Mutantes e na boate Molambo, do cantor de boleros Roberto Luna, onde interpretava baladas de Ray Charles. Por fim, foi convidado a cantar em 1968 na Jovem Guarda, recebendo poucas palmas de uma plateia acostumada a outro tipo de música. De Erasmo Carlos, o amigo da infância tijucana, conseguiu que sua canção Não Quero Nem Saber (já assinando Tim Maia) fosse gravada no álbum Erasmo Carlos (RGE, 1968), fazendo backing vocal em todas as faixas. No ano seguinte, Roberto Carlos gravou, em selo CBS, o primeiro sucesso de Tim Maia, Não Vou Ficar.

Em 1970, o cantor e compositor deu início a brilhante carreira artística com o LP Tim Maia (selo Polydor), no qual incluiu o xaxado Coroné Antônio Bento (Luiz Wanderley, João do Vale) em ritmo de soul music, o épico Padre Cícero (Tim Maia, Cassiano) de repercussão na novela Irmãos Coragem (de Janete Clair para a Rede Globo), e as românticas Primavera (Cassiano, Silvio Rochael), Azul da Cor Do Mar (Tim Maia). No ano seguinte, novo êxito com o álbum Tim Maia (selo Polydor), quando apresentou o megassucesso Não Quero Dinheiro “Só Quero Amar” (Tim Maia) na base do samba-soul, Você (Tim Maia), o clássico da bossa nova Preciso Aprender A Ser Só (Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle), e a bela canção É Por Você Que Eu Vivo (coautoria de Rosa Maria). Após uma viagem de turismo a Londres e depois a Nova York, em 1972, lançou seu 3º álbum Tim Maia (selo Polydor), com destaque para These Are The Songs (Tim Maia) regravação de dueto com Elis Regina, e a bela balada O Que Me Importa (Cury).

Em 1973, gravou Tim Maia (Polydor), com o ótimo samba-soul Réu Confesso, Over Again (ambas autorais), Gostava Tanto de Você (Edinho Trindade)outro hit emplacado, e a romântica Preciso Ser Amado (Tim Maia), acompanhando-se ao violão. No ano seguinte, levado pelo compositor Tibério Gaspar, seguiu para Belfort Roxo, dirigindo-se a uma velha e modesta casa conhecida como santuário do Universo Em Desencanto, ministrado por um mulatão forte nos seus 70 anos, Manoel Jacintho, babalorixá de candomblé e autor do livro Racional Superior. Impressionado com tudo que viu, ouviu e leu, Tim Maia sentiu a perspectiva de novos caminhos de paz e sucesso para a sua vida. Assim, para divulgar os ensinamentos colhidos, lançou pelo selo Seroma Discos (Sebastião Rodrigues Maia), os LPs Tim Maia Racional. Vol. 1 e 2 (1975/76) onde dava seu recado em reggae-soul: “Uh uh uh que beleza/ que beleza é sentir a natureza/ ter certeza pra onde vai e de onde vem/ que beleza é vir da pureza/ e sem medo distinguir o mal e o bem...” (Imunização Racional “Que Beleza”), “Viva a Cultura Racional/ linda cultura transcendental/ não é história, não é doutrina/ não é ciência, seita ou religião/ é coisa limpa, é coisa pura/ para o caminho da eterna salvação...” (Quer Queira Quer Não Queira, parceria com Fábio). Mergulhado de corpo e alma nessa nova doutrina, viu aos poucos que sua trajetória artística só piorava, desencantando-se definitivamente com o seu ex-guru, e não permitiu que os dois discos produzidos voltassem a circular (relançados apenas em 2006/2011). Ainda em 1976, foi editado o álbum Tim Maia (Polydor), em destaque a balada romântica É Preciso Amar (autoral) e The Dance Is Over (parceria com Hyldon, Reginaldo). Em 1977, voltou a gravar Tim Maia (selo Som Livre), e assinou parcerias com Paulo Ricardo (Sem Você), Carlos Simões (Não Esquente A Cabeça), além da dançante “Venha Dormir Em Casa”. Em tempos de discotecas, nada mais apropriado do que o lançamento do álbum Tim Maia Disco Club (Warner, 1978), com uma verdadeira seleção de músicos como Paulo Braga (bateria), Jamil Joanes (baixo), Lincoln Olivetti (órgão), Edmundo Maciel (trombone), para as envolventes Acenda O Farol, Sossego, All I Want, Se Me Lembro Faz Doer, todas autorais.Também em 1978, editou Tim Maia (Seroma), totalmente cantado em inglês: To Fall In Love e Only A Dream (Tim Maia), entre outras.No ano seguinte, gravou Reencontro (EMI-Odeon), destaque para canções românticas Pra Você Voltar (Tim Maia), Vou Correndo Te Buscar (Renato Piau, Arnaud Rodrigues).

Na década de 80, Tim Maia continuou como um dos cantores mais populares brasileiros, com gravações sempre de ótimo repertório: Tim Maia (Polydor, 1980), vale citar: Não Vá (parceria com Robson Jorge, Lincoln Olivetti), Não Fique Triste (Cassiano); Nuvens (Seroma, 1982), interpreta o samba Outra Mulher (Tim Maia), o clássico Na Rua Na Chuva Na Varanda (Hyldon); O Descobridor dos Sete Mares (Araponga, Lança, Polygram, 1983), inclui a alegre e envolvente canção título (de Michel e Nilson Mendonça), a romântica balada Me Dê Motivos (Michael Sullivan, Paulo Massadas); Sufocante (Araponga, Lança, Polygram, 1984), em destaque: Bons Momentos (Marcos Cardoso, Michel), Sufocante (William Félix, Carlos Dafé); Tim Maia (RCA Victor, 1985), bom de ouvir: Pede A Ela (Ed Wilson, Carlos Colla), Uma Estrela A Mais (Fernando Gama, Ronaldo Bastos); Tim Maia (Continental, 1986), mais um “hit” Pudera (Marquinhos, Michel) e ótima regravação para Do Leme Ao Pontal, de sua autoria; Somos América (Continental, 1987), para aplaudir: Amigo Verdadeiro (Antônio Marcos, Lincoln Olivetti), Somos América (Tim Maia), Sem Volta (Rique Pantoja, Sérgio Natureza); Carinhos (BMG, Ariola, 1988), sucessos românticos em: Carinhos (Prêntice, Gabriel O’Meara), Paixão Antiga (Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle), e a marcha-rancho com pitadas de funk Cabeça Feita (Willie, Dom Mita).

Em 1990, iniciou nova fase em sua carreira, com o álbum Tim Maia Interpreta Clássicos da Bossa Nova (Vitória Régia Discos), produzido por Almir Chediak (que lhe ensinou bastante de harmonia e acordes), leituras antológicas, sofisticadas e suavidade para a voz poderosa do cantor: Eu E A Brisa (Johnny Alf), Minha Namorada (Carlos Lyra, Vinicius de Moraes), Samba da Pergunta (Pingarilho, Marcos Vasconcellos), Meditação (Tom Jobim, Newton Mendonça), entre outras. Em 1992, com direção artística do seu biógrafo, jornalista e compositor Nelson Motta, lançou Tim Maia Ao Vivo (selo Warner), a partir do registro revisto de show realizado no Olympia/SP, com sua banda incluindo Jorjão, Moyses e Michel (teclados), Piau (guitarra), Silvério (trompete), Paulo Braga (bateria), entre outros, e seus hits Vale Tudo (Tim Maia), Telefone (Nelson Kaê, Beto Correia), A Rã (João Donato, Caetano Veloso), Um Dia de Domingo (Michael Sullivan, Paulo Massadas). Pelo selo Vitória Régia (em 1994), Tim apresentou com músicas inéditas o CD Voltou Clarear, e incluiu clássicos da bossa nova O Barquinho (Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli), Corcovado (Tom Jobim), Fim de Noite (Chico Feitosa, Ronaldo Bôscoli), além da faixa título, coautoria de Cláudio Mazza e João Batista. Com a saúde debilitada apresentou ainda pela sua gravadora Vitória Régia (em 1997), entre seus últimos trabalhos: Amigos do Rei: Tim Maia e Os Cariocas,quando tornou realidade o sonho de garoto, de um conjunto vocal como aquele do Severino Filho, maestro líder do grupo e amigo do seu pai. Entre as faixas: Ela É Carioca (Tom Jobim, Vinicius de Moraes), Telefone (Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli), Não Quero Dinheiro “Só Quero Amar”(Tim Maia), Amigo do Rei (Lenine, Braúlio Tavares); What A Wonderful World, lembranças de canções americanas dos anos 50 e 60, quando voltara deportado para o Brasil, interpretou a faixa que dá nome ao disco (George David Weiss, Bob Thiele), Save The Last Dance For Me (Dris Ters), On Broadway (B. Menn, C. Well, J. Leciber, M. Stoler), When We Get Married (Don Hogan); Pro Meu Grande Amor, entre clássicos da musica nacional: Nanã (Moacir Santos, Mátios Telles), Oceano (Djavan), Rapaz de Bem (Johnny Alf), Olê Olá (Chico Buarque); Só Você: pra ouvir e cantar, autorais e do repertório alheio Vixe (Tim Maia), Só Danço Samba (Tom Jobim, Vinicius de Moraes), Vivo Sonhando (Tim Maia).

No dia 8 de março de 1998, se apresentou no Teatro Municipal de Niterói, para um espetáculo a ser gravado ao vivo pelo canal Multishow. Com a sala lotada, entrou em cena tentando cantar inutilmente, sendo conduzido por uma ambulância do Corpo de Bombeiros para o Hospital Antônio Pedro, em estado gravíssimo, vindo a falecer uma semana depois. Em 2014, foi lançado o contundente filme Tim Maia, dirigido por Mauro Lima, baseado no livro Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia, do já citado Nelson Motta.

O carismático Tim Maia, cantor de voz potente e exuberante, compositor criativo, em que pese suas estripulias mirabolantes, polêmico sem censura, transgressor, de humor irresistível, conquistou o Brasil inteiro, fazendo o povo dançar e cantar, em diversos estilos, entre o soul, o funk e a bossa nova, sambas, baiões, xotes, baladas românticas e standards norte-americanos, merecendo inúmeras premiações ao longo de sua efervescente carreira.


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