SOCORRO LIRA (Brejo da Cruz/PB – 30 de janeiro de 1974)

            Criada em zona rural, ouvia cantoria de viola pelo rádio, a mãe Benedita com suas histórias, cantigas e aboio e participava de forrós. Ao frequentar a escola, Maria do Socorro Pereira se interessou pela leitura, principalmente por literatura de cordel, e sonhava em ser escritora. Por volta de 1988, partiu para a cidade, se envolveu em movimentos populares, tornando-se dirigente do grêmio estudantil do colégio. Sua diversão era a televisão, encantada com os programas musicais de domingo.

Tornou-se professora e consciente dos graves problemas sociais do povo brasileiro. Mais adiante, entrou na Universidade Estadual da Paraíba, em Campina Grande, formando-se no ano 2000 em Psicologia Social. Começou, então, a estudar violão no Departamento de Artes da UFPB. Nesse período, tomou contato com as cantadeiras, dançadeiras e tocadores de Caiana do Crioulos, em Alagoa Grande. Assinando como Socorro Lira (por causa do pai Zé Lira), em 2001 produziu seu primeiro disco Cantigas, um viajar carregado de realidade e poesia em suas composições, como na toada Cantata, no xote Lembranças, na cantiga Saga de Retirante, no épico baião Nas Estradas do Nordeste, onde dá seu recado final (... Dignidade é meu nome/ sobrenome é Nordestina/ sou parceira da verdade/ sou assim desde menina/ para mim, pra minha terra/ eu quero cumplicidade/ sou inimiga da guerra/ e amante da liberdade). Com o segundo CD Cantigas de Bem-Querer (Independente, 2003), Socorro Lira volta a destacar a beleza do sofrido e destemido sertanejo em pungentes e românticas canções, como a guarânia Arrebol, a valsa Cantar E Sorrir (letra de Rogaciano Leite), a toada Mestre Sabiá (... Se hoje já sei cantar/ do canto me fizeste herdeira/ saudades meu bom sabiá/ não chega a hora derradeira/ e eu vou te visitar/ à sombra da velha palmeira), o baião À Moda do Umbuzeiro, entre outras pérolas.

No ano seguinte, mudou-se para São Paulo, conhecendo o Instituto Memória Brasil (IMB), fundado a partir de acervo do jornalista e escritor paraibano Francisco de Assis Ângelo, um estudioso do folclore e da música popular. Em 2006, a cantora e compositora apresentou o significativo CD Intersecção (Independente), acompanhada dos músicos Antônio Vaz Lemes (piano), Cintia Zanco (violino), Adriano de Castro Meyer (viola), Ana Eliza Colomar (violoncelo e flauta), Jorge Ribbas (violão de seis e doze), Fernando Deghi (viola brasileira), Olívio Filho (sanfona), Cássia Maria (percussão), Valmir Rosa (rabeca), entre outros, em versátil repertório autoral, com destaque para a valsa Palavras, o fado Amália, o xote Entre Estrelas, o reisado Chegança, e outras. No ano seguinte, lançou As Liras Pedem Socorro, apoio do antigo IMES (Instituto Municipal de Ensino Superior) de São Caetano do Sul (SP), com novas e poéticas composições: a toada Das Coisas Que O Tempo Contou (... o que era paixão, hoje é poeira/ à beira da estrada do viver/ o que era um grande amor é fim de feira/ é resto a qualquer preço pra vender...), o xote Repare,a cantiga Rios Que Cortam Minh’Alma (... o campo que estava seco/ de verde se encobriu/ vestiu-se tão satisfeito/ com a chuva que caiu...),a canção Um Sentimento. Em 2009, o CD No Terreiro da Casa de Mãe Joana (Independente) Socorro Lira convida aos festejos populares do interior do país em canções próprias como Brincadeira de Roda, Mãe Preta, além do coco de roda Sereno de Amor (DP, cego Oliveira), o ijexá Sede de Amor (Carlos Olympio, Antônio Costa).

Um disco extraordinário celebrando o centenário do imortal conterrâneo Zé do Norte, foi lançado por Socorro Lira em 2010, com nova produção independente: Lua Bonita – Projeto Musical da Paraíba. Entre tantas preciosidades (arranjos e direção musical do baiano Júlio Caldas) cabe destacar: o coco Meu Pião, o xote Flor do Campo (participação de Elba Ramalho), a internacional cantiga de ninar Mulher Rendeira (tradicional recolhida por Zé do Norte), o coco Balança A Rede (Zé do Norte, Waldemar Gomes) presença de Sandra Belê, a canção-choro São Jorge E A Lua (participação de Zé Paulo Medeiros), a apaixonante toada Sodade Meu Bem Sodade (convidada Vanja Orico), o coco Sapato de Algodão, o carimbó Vai Ver Quem Chegou e o belíssimo xote Lua Bonita (Zé do Norte, Zé Martins) convidado Geraldo Azevedo. Merecidamente, com o disco Socorro Lira foi agraciada na 23ª Edição do Prêmio da Música Brasileira, como Melhor Cantora, na categoria regional. Ainda em 2010, foi publicado o importante livro disco Cores do Atlântico: cantigas de amigo galego-portuguesas ( selo Pai Música em parceria com a associação cultural galego-portuguesa Ponte...nas Ondas!), que divulga e recupera patrimônio imaterial de práticas comuns às regiões do norte de Portugal e da Galiza, na península ibérica, vindo desde a época medieval aos dias atuais. O texto da pesquisadora Ria Lamaire, da Universidade de Poitiers, na França, trata das mulheres compositoras, que entoavam seus cantos durante a longa e árdua jornada de trabalho, e analisa suas origens, estrutura e ritmo. Com trabalho primoroso e inovador de Socorro Lira, das cem antigas e belíssimas canções recolhidas de amor, desejos, saudades, sensuais e divertidas, foram selecionadas dezesseis atualizadas e musicadas dentro da matriz contemporânea brasileira, com incursões pelos ritmos galegos, portugueses e africanos. Com intérpretes brasileiros e de além-mar, cabe citar algumas, como: o batuque Vamos Irmã (participação de Eneida Marta, de Guiné Bissau), a valsa São Simão (Socorro Lira), a canção Digas Filha (duo com Cida Moreira), o samba Dance Filha (participação de Uxía, da Galiza), a ciranda Ondas do Mar de Vigo (acompanhada das Cirandeiras da Caiana dos Crioulos, da Paraíba), De Bom Parecer (participação de Leilía, da Galiza) e Levanta Amigo (com o português João Afonso).

Em 2012, o CD Singelo tratado sobre a delicadeza (Independente) tem o cantor João Pinheiro como convidado e temas românticos, apresentados na suavidade de belas canções, como Delicado, Frágil, Serenata, Modinha Para Uma Viola Sem Concerto, e muitas outras. No ano seguinte, o já citado IMB, com pesquisa de repertório e textos de Francisco de Assis Ângelo, lançou o excepcional álbum O Samba do Rei do Baião: Socorro Lira e Oswaldinho do Acordeom (Genesis Music), com músicas menos conhecidas de Luiz Gonzaga: Tudo É Baião (parceria com Zé Dantas), o maxixe Bamboleado (com Miguel Lima) participação vocal de Osvaldinho da Cuíca, o fado-baião Ai Ai Portugal (com Humberto Teixeira) presença da cantora portuguesa Susana Travassos, Aboio Apaixonado (Luiz Gonzaga), Dúvida (com Domingos Ramos) acompanhada do cantor Ventura Ramirez, Calango da Lacraia (com J. Portela) em duo com Papete. É para se ouvir e aplaudir sempre. Preocupada com os problemas ambientais que ameaçam o nosso planeta e, particularmente a Amazônia, editou, em 2014, Amazônia: Entre Águas e Desertos, nova obra prima, um hino de amor ao verde, rios, flora e fauna da região, registrado por sua voz encantadora, com arranjos e direção musical do maestro Jorge Ribbas: Deixa Viver (Socorro Lira) de versos pungentes: ...deixa eu viver em paz/ deixa se é capaz de entender/ não tem rio, não tem mais/ peixe pra comer..., entre outras pérolas, como Saga da Amazônia (Vital Farias), Receita Para Um Cafuné Segundo Nega Xixiquinha Riá Caxango (Socorro Lira, José Eduardo Agualusa), Uirapuru, Tamba-tajá (essas de Waldemar Henrique). Ainda nesse ano, concluiu seu projeto iniciado em 2011, quando visitou Moçambique, Gana e África do Sul (pessoas e paisagens parecidas com as do sertão brasileiro), ao produzir o EP Os Sertões do Mundo, com duas canções próprias e inéditas: Poema Didático (letra do moçambicano Mia Couto) e Fino Poema (participação de Dominguinhos na sanfona).Socorro Lira, cantora e compositora de voz afinada e suave, bom de ouvir, une técnica e coração em obras de pura poesia, de indescritível beleza, valoriza e resgata todo o encantamento do nosso folclore em suas músicas e danças tradicionais.

Sempre atenta, segura e motivada pelos anseios de uma vida mais justa (sobretudo nas regiões carentes e abandonadas), vai compartilhando sua arte pelo país, admirada internacionalmente, principalmente a partir do já comentado projeto Cores do Atlântico, quando comandou com muito charme e alegria o aplaudido show de lançamento na paradisíaca ilha de São Simão, na Galiza. Em apenas quinze anos de carreira artística, contada a partir do seu álbum de estreia, com dedicação e muito trabalho vai realizando seus sonhos de criança sensível e amadurecida precocemente. 


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