OSMAR MILITO (São Paulo, 27 de maio de 1941)

            Influenciado pelo irmão oito anos mais velho Hélcio Milito, ao vê-lo tocar bateria em casa, o garoto Osmar Amilcar Milito rapidamente se viu envolvido pela música instrumental e, particularmente com o jazz. Ainda adolescente, iniciou seus estudos de piano com o professor Armando Moura Lacerda do Conservatório Estadual de Música de São Paulo. Mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou piano e teoria musical com a professora e concertista Wilma Graça.
Em 1964, iniciou sua carreira profissional no badalado Beco das Garrafas (onde se tocava muito jazz e bossa nova), acompanhando ao piano cantoras como Sylvinha Telles, Leny Andrade e Flora Purim. Em 1967, inaugurou o Canecão, concebido originalmente como uma grande cervejaria.

Logo em seguida, partiu para o México, em temporadas com Octávio Bailly Jr (contrabaixo), Ronnie Mesquita (bateria) e a cantora Leny Andrade, por importantes casas noturnas. No ano seguinte, passou a participar do grupo que abria, nos Estados Unidos, os shows de Sérgio Mendes, em grandes apresentações por quase todo o país. Com os cantores Pery Ribeiro, Gracinha Leporace, o pianista Manfredo Fest além dos músicos já citados, Bailly e Mesquita, gravaram os antológicos LPs Bossa Rio (Polydor, 1969), em destaque: Por Causa de Você Menina (Jorge Benjor), The Gentle Rain (Luiz Bonfá, Matt Dubey) e Alegria! Bossa Rio (Blue Thumb Records, 1970), vale citar: Mustang Cor de Sangue (Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle, versão Norman Gimbel), Eleanor Rigby (John Lennon, Paul McCartney).

De volta ao Brasil, no início dos anos 70, inaugurou importantes casas noturnas como a fervilhante Number One (Ipanema), acompanhado do Quarteto Forma e Márcio Montarroyos (trompete), e por onde passaram Djavan, Maria Alcina, Novos Baianos, entre “canjas” memoráveis de Astor Piazzolla, Ella Fitzgerald, Jacques Klein, Nancy Wilson, Sarah Vaughan, Sérgio Mendes, citando apenas alguns. No ano de 1971, já consagrado na efervescente música instrumental gravou o emblemático Osmar Milito: e deixa o relógio andar! (selo Som Livre), com a participação vocal do já citado Quarteto Forma, Pascoal Meirelles (bateria), Sebastião Barros (baixo) complementando seu trio, além de Altamiro Carrilho (flauta), Marcos Valle (piano), entre outras presenças. Citando apenas algumas pérolas: Garra (Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle), Chovendo Na Roseira (Tom Jobim), What Are You Doing The Rest of Your Life (Michel Legrand, Alan Bergman, Marilyn Bergman), João Belo (autoral). O disco foi lançado simultaneamente no Japão e Europa.

Com repertório irretocável, Osmar Milito voltou ao mercado fonográfico com Nem Paletó, Nem Gravata (Continental, 1973), incluindo vocal do Quarteto Number One, em faixas como: Mais Cedo Ou Mais Tarde (coautoria de Lilian Knapp), Nem Paletó Nem Gravata (Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle), Tem Dendê (Reginaldo Bessa, Nei Lopes), Chiclete Com Banana (Gordurinha, Almira Castilho), e muito mais. No ano seguinte, também pela gravadora Continental, o CD Osmar Milito: Viagem, em criativos arranjos que transmitem a beleza melódica de Mulher Rendeira (Zé do Norte), Sangue Latino (João Ricardo, Paulinho Mendonça), Que Maravilha (Jorge Benjor, Toquinho), Planalto Geral (autoral), Eu Bebo Sim (Luiz Antonio, João do Violão), em profusão de sons e ritmos dos craques Chico Batera, Luiz Cláudio (violão e guitarra), Luizão (baixo), entre outros. Nesse mesmo ano, o pianista que também atuou, sempre com êxito, em trilhas sonoras para novelas de TV, teve editado pela Som Livre o LP Na Trilha de Osmar Milito: temas de sucesso em novelas, nos quais comanda as interpretações dos seus grupos em: Gameleira “As Moças” (de Antônio Carlos e Jocafi) com o Trama, Mandato (coautoria de Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle), O Bofe (de Erasmo Carlos, Roberto Carlos) essas com o Quarteto Forma, Vou Disparar (de César Costa Filho, Walter Queiroz) com o Quarteto Number One.

Para o cinema, com o seu conjunto interpretou as canções (de Marcos e Paulo Sérgio Valle) no 2º episódio da comédia Lua de Mel & Amendoim (de Pedro Carlos Roval, 1971) e, em 1973, assinou a trilha sonora para o filme Divórcio À Brasileira e no 1º episodio de Como Era Boa A Nossa Empregada (ambos de Ismar Porto). Já em 1978, Osmar Milito celebrou alguns dos compositores mais constantes em seu repertório com o sofisticado LP Ligia (selo Continental), interpretando O Que Será “À Flor da Pele” (Chico Buarque), Jodel (João Donato, Patrícia Del Sasser), Andorinha e evidentemente a faixa que dá nome ao disco, essas de Tom Jobim. Entre os músicos, encontram-se: Sérgio Barroso (baixo), Nelson Serra (bateria), Lincoln Olivetti (oberheimer), Maurício Einhorn (harmônica).

O talento de Milito também chegou ao teatro quando, em 1983, estreou no João Caetano/RJ, com grande sucesso, o musical Evita (direção de Maurício Sherman), tendo atuado como pianista e auxiliando nas intervenções vocais dos atores Carlos Augusto Strazzer (Che Guevara), Mauro Mendonça (Perón) e da cantora Cláudia (Eva Perón), em seu maior sucesso de público e de crítica. Nesta época, acompanhou com seu trio, o renomado cantor de jazz Mark Murphy (falecido em 2015) com apresentações no Rio e em São Paulo.

A partir de 1986 até 1995, passou a se apresentar no seletivo Country Club em Ipanema. Ainda nos anos 90, atuou até seu fechamento em 2016, inicialmente, ao lado do baterista José Boto (atualmente residindo em Paris) e do baixista Sérgio Barroso, e a partir de 2000 com Rafael Barata (bateria) e Augusto Matoso (baixo) no lendário Mistura Fina da Lagoa (antigo Mistura Up de Ipanema), onde se apresentaram notáveis do jazz, como Stanley Jordan e Michel Legrand.
Em 2003, gravando ao vivo em casa de amigos, com participações dos já citados Pascoal Meirelles e Augusto Matoso, originou o CD Sonho de Lugar (Independente), com registros de Carinhoso (Pixinguinha, João de Barro), Sem Você (Tom Jobim, Vinicius de Moraes), Oferenda (Luiz Eça, Lenita Eça), Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá, Antônio Maria), Sonho de Lugar (Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle). No ano seguinte, em nova produção independente, Osmar Milito lançou o CD Aos Amigos Tudo (capa do cartunista Chico Caruso), singela e especial homenagem para pessoas importantes no seu caminhar musical, ao longo de 40 anos. Acompanhado de Augusto Matoso (baixo) e Rafael Barata (bateria), totalmente autoral, vale destacar, entre outras: Gafieira Esperta, Eloisa, Boni Na 17 Mile Drive, Forró Brabo, Muito Querer.
Em 2009, o CD Osmar Milito Trio: Samba Jazz, repetiu a dose da formação anterior, interpretando 24 músicas do bossanovista mineiro Pacífico Mascarenhas (produtor do álbum), entre as pérolas: Começou de Brincadeira, For Emily, Belo Horizonte Que Eu Gosto. Seu mais recente trabalho Unexpected: Indiana Nomma + Osmar Milito (selo Fina Flor, 2015), de repertório requintado, acompanhando (além dos arranjos) a ótima cantora entre standards do jazz, como Caravan (Duke Ellington, Irving Mills, Juan Tizol), You’ve Changed (Carl Fischer, Bill Carey), e clássicos nacionais Insensatez (Tom Jobim, Vinicius de Moraes), Sabiá (Tom Jobim, Chico Buarque), além da instrumental Hélcio “Don Pascoale” Milito, dedicada ao querido irmão, falecido em 2014. O disco ainda apresenta os convidados especiais Alex Rocha, Augusto Matoso, Sérgio Barroso (baixos) e Rafael Barata (bateria).

Osmar Milito, um dos mais importantes nomes da música instrumental brasileira, respeitado e admirado internacionalmente, inspirado compositor, de notáveis arranjos ligando o jazz ao samba e outros ritmos nacionais, de técnica perfeita, continua em plena atividade, atuando incansável em apresentações constantes no agradável Grand Prix Piano Bar do Hotel Novo Mundo (Flamengo), acompanhado dos amigos de tantas jornadas Sérgio Barroso e Pascoal Meirelles, com vocais de Leila Maria e Indiana Nomma, além do piano-bar Tom do Leblon, (onde funcionou o lendário Antonio’s) recebendo artistas da bossa nova e do jazz, como Patricia Alvi, Marcos Valle, Thais Motta, entre outros.


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