LUIZ EÇA (Rio de Janeiro, 3 de abril de 1936 – Rio de Janeiro, 24 de maio de 1992)

            Depois de ganhar, aos quatro anos de idade, um piano de brinquedo, Luiz Mainzi da Cunha começou a se interessar com seu toque, e já adolescente, passou a estudar técnicas de piano das escolas francesas e russas, com uma amiga de seus pais. Em 1954, apresentou-se ao lado do famoso violonista Aníbal Augusto Sardinha (Garoto) em um baile do Clube Monte Líbano, sendo convidado a participar de suas rodas de choro em um sítio em Areal (RJ), também frequentado por Radamés Gnattali e Chiquinho do Acordeom, entre outros.

No ano seguinte, começou a atuar nas noites da boate Plaza, em Copacabana, substituindo ao piano o compositor Johnny Alf (que se mudara para São Paulo), no trio complementado por Eduardo “Ed” Lincoln (baixo) e Paulo Ney (guitarra). Com esta formação gravou o primeiro LP Uma noite no Plaza (selo Rádio, 1955), com inclusão de sua composição Melancolia.Em seguida,ganhou uma bolsapara estudar em Viena, onde não se adaptou ao ambiente acadêmico do Conservatório, entretanto faz amizade e aprende muito com o pianista e compositor Friedrich Gulda, destaque local no meio clássico e do jazz.
Após voltar para o Brasil, participou dos históricos shows da emergente turma da Bossa Nova: no auditório do Grupo Universitário Hebraico, no Flamengo (1958), na Faculdade Nacional de Arquitetura: 1º Festival de Samba “Session” na praia Vermelha (1959), Escola Naval no centro do Rio de Janeiro (1959), com o flautista americano Herbie Mann na PUC/RJ (1959), na Faculdade de Arquitetura: A noite do sorriso e da flor (1960). Entre os participantes, despontavam os jovens Chico Feitosa, Sylvia Telles, Roberto Menescal, Nara Leão, Normando Santos, Carlos Lyra, os irmãos Castro Neves, Luiz Carlos Vinhas, Bebeto Castilho, Hélcio Milito, Tião Netto, Alaíde Costa, Dulce Nunes e muitos outros.
No ano seguinte, piano e trombone se encontram no requintado Luiz Eça & Astor: cada qual melhor! (selo Odeon) em irretocáveis faixas: como É Luxo Só (Ary Barroso, Luiz Peixoto), Moonglow (Will Hudson, Eddie de Lange, Irving Mills), Nova Ilusão (Luiz Bittencourt, José Menezes), Always (Irving Berlin). Com Bebeto Castilho (flauta, sax, baixo e vocal), Hélcio Milito (bateria), formou o Tamba Trio, pioneiro grupo de música instrumental vibrante e complexa, com fraseado jazzístico, e mistura do popular com o clássico. Depois da estreia oficial em 1962 na boate Bottle’s, localizada no cultuado Beco das Garrafas, foi lançado o histórico LP Tamba Trio (selo Philips), com desconcertantes leituras para Batida Diferente (Durval Ferreira, Maurício Einhorn), Influência do Jazz (Carlos Lyra), Minha Saudade (João Donato, João Gilberto), Ah! Se Eu Pudesse (Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli). Imperdível!
Ainda na década de 60, pela gravadora Philips foram editados, sempre com ótimo repertório: Avanço (1963), Mas Que Nada (Jorge Benjor), Samba da Minha Terra (Dorival Caymmi), Tristeza de Nós Dois (Durval Ferreira, Maurício Einhorn, Bebeto); Tempo (1964), Pregão (Sérgio Ricardo, Carlos Diegues), O Amor Em Paz (Tom Jobim, Vinicius de Moraes), Moto Contínuo (Radamés Gnattali); Tamba Trio (1966), com Rubem Ohana, substituindo Hélcio Milito na bateria: Quem Me Dera (Caetano Veloso), Procissão (Gilberto Gil), Tristeza (Haroldo Lobo, Niltinho); Tamba Trio (1968), Garota de Ipanema (Tom Jobim, Vinicius de Moraes), Berimbau (Baden Powell, Vinicius de Moraes), Desafinado (Tom Jobim, Newton Mendonça). Cabe ainda destacar a participação do Tamba Trio, em todas as faixas do LP A Música de Edu Lobo Por Edu Lobo (Elenco, 1967), um marco na carreira do compositor vencedor do I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, naquele ano, valorizado pelos arranjos de Luiz Eça para a campeã Arrastão (coautoria de Vinicius de Moraes),e demais composições.
Em 1972, foi gravado ao vivo no Museu de Arte Moderna (MAM/RJ), um show memorável de Luiz Eça ao piano acompanhado do saudoso saxofonista Victor Assis Brasil (morto em 1981). Em leituras instigantes e inusitadas apresentaram Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim, Vinicius de Moraes), The Man I Love (Gershwin), Maracangalha (Dorival Caymmi), Travessia (Milton Nascimento, Fernando Brant). O disco só foi lançado em 1993, após o falecimento de Luiz Eça (CD, selo Imagem). Ainda em 1972, com o Quinteto Villa-Lobos, foi editado o LP Vanguarda selo (Odeon), orquestrações e regência de Luiz Eça em belíssimas composições: Cais (Milton Nascimento, Ronaldo Bastos), Viola Enluarada (Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle), Rítmica I (autoral), e outras.
Em fase de muita criatividade, o Tamba Trio estreou na gravadora RCA Victor, com dois ousados álbuns, o retorno de Hélcio Milito e renovar de sonoridades e repertórios: Tamba (1974), Não Tem Perdão (Ivan Lins, Ronaldo Monteiro de Souza), Mestre Bimba (Bebeto, Eça, Milito), Pra Machucar Meu Coração (Ary Barroso); e Tamba Trio (1975), Três Horas da Manhã (Ivan Lins, Waldemar Correia), Visgo de Jaca (Rildo Hora, Sérgio Cabral), Beijo Partido (Toninho Horta). Um verdadeiro show de vanguarda, a serviço da qualidade da música popular brasileira.
Com o término do grupo, Luiz Eça passou a tocar no lendário Chiko’s Bar (do empresário espanhol Francisco Recarey), ponto de encontro de famosos ou anônimos notívagos com badalados shows intimistas, que deram origem ao álbum Uma Noite No Chiko’s Bar (Som Livre, 1984), no qual Luiz Eça interpreta ao piano, com João Alves (bateria) e Luiz Alves (baixo), Dolphin e Chiko’s Blues (ambas de sua autoria), além de acompanharem Nana Caymmi em Déjame Ir (Chico Novarro, Mike Ribas), Eu Sei Que Vou Te Amar (Tom Jobim, Vinicius de Moraes), Rua Deserta (Dorival Caymmi, Carlos Guinle). Nesse mesmo ano, lançou o LP Luis Eça (selo Carmo), totalmente autoral (Reflexus, Prelúdio...), com Robertinho Silva na bateria.
Em 1986, gravou com o cantor Pery Ribeiro o excelente LP Pra Tanto Viver (selo Continental), que reúne clássicos nacionais como Por Causa de Você (Tom Jobim, Dolores Duran), Curare (Bororó), além da faixa Pra Tanto Viver (Pery Ribeiro) com participações de Raphael Rabello (violão), Wilson das Neves (bateria), Zeca Assumpção (baixo), e outros. Pela Fundação Nestlé de Cultura, editado como brinde, Luiz Eça e o violinista Jerzy Milewski realizaram o LP Duas Suítes Instrumentais (Independente, 1988), autorias do pianista.
Seu último trabalho gravado em 1991, Luiz Eça Trio (lançado após seu falecimento, somente em 1995 pelo selo Velas) foi dedicado ao ótimo compositor mineiro Pacífico Mascarenhas, com belíssimas canções moldadas pelo seu envolvente piano, acompanhado por Luiz Alves (baixo) e Ricardo Costa (bateria). Cabe citar, entre outras, Quanto Tempo, Pode Ser, O Jogo, Minha Ex-Namorada. Em 2002, o selo Biscoito Fino e Fernanda Quinderé (atriz, diretora e autora teatral, escritora, amiga de infãncia, parceira e esposa de Luiz Eça) promoveram, com o expressivo título Luiz Eça: Reencontro, a justa e oportuna celebração da obra incomparável de um dos maiores pianistas brasileiros, de renome internacional, cuja genialidade extrapola qualquer conceito. É emocionante se ouvir as interpretações de músicos que conviveram com o seu talento e generosidade, como Gilson Peranzzetta (Melancolia, com Ronaldo Bôscoli), Wagner Tiso (Oferenda, com Lenita Eça), Ivan Lins, Leny Andrade e Delia Fischer (Três Minutos Para Um Aviso Importante, com Novelli), Nelson Ângelo (Reflexos), e Chico Adnet (Reencontro), essas em parceria com Fernanda Quinderé. Um reencontro de amor, admiração e respeito que se tornou eterno! Nova homenagem foi realizada em 2004, pelo maestro e compositor Michel Legrand ao piano (amigo e de profunda afinidade musical), em projeto assinado por Mário Adnet e participação de Fernanda Quinderé para o selo Biscoito Fino, presença de músicos convidados, para belíssimas faixas como Alegria de Viver (Luiz Eça) com Sérgio Barroso (contrabaixo), Kiko Freitas (bateria) e Mário Adnet (violão), Sempre Será (coautoria de Bebeto) com Jacques Morelenbau (cello) e Marcos Nimrichter (acordeom), além do tema inicial Febrônio, registro raro feito a quatro mãos, quando Eça e Legrand se apresentaram, em tempos idos, no hotel Maksoud Plaza/São Paulo. Uma obra prima digna da universalidade do imortal Luiz Eça.


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