ANTÔNIO ADOLFO (Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1947)

            Criado no bairro de Santa Teresa, reduto tradicional de artistas, depois de começar a tocar violino, aos 7 anos de idade, Antônio Adolfo Maurity Sabóia, já adolescente, fez curso de piano de ouvido (que lhe despertou o gosto por esse instrumento), e passou a estudar clássicos com um músico, colega de sua mãe violinista na orquestra do Teatro Municipal do Rio. Nos anos 60, enturmado no ambiente bossanovista do histórico Beco das Garrafas, após formar o Trio 3-D, com Nelson Serra (bateria) e o argentino Catcho Pomar (baixo e vocal), gravaram em 1964 o histórico álbum Tema 3-D (selo RCA Victor), atuando ao piano e como arranjador, além de estrear como compositor na faixa que dá nome ao disco. Esse ainda contou com a participação especial do baterista Dom Um Romão em clássicos como Consolação (Baden Powell, Vinicius de Moraes) e A Morte de Um Deus de Sal (Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli).

Foto: Renato Favilla

Com o êxito alcançado, ao balanço renovado do samba com pitadas de jazz, Antônio Adolfo lançou ainda mais dois álbuns com o grupo, sofrendo alterações a cada edição, mas com repertório e atuações notáveis de jovens talentosos: O Trio 3-D Convida (RCA Victor, 1965), com participações especiais de Raul de Barros (trombone), Paulo Moura (sax alto), entre outros, e Conjunto 3D: Muito Na Onda (Copacabana, 1967), incluindo Beth Carvalho, Eduardo Conde (vocais) e Hélio Delmiro (guitarra), além da presença dos ritmistas Rubens Bassini e Jorginho Arena.
Foi nessa época, que conheceu o seu futuro parceiro mais constante Tibério Gaspar (falecido recentemente), e logo emplacaram um contundente sucesso com a vibrante Sá Marina, interpretada por Wilson Simonal em seu LP Alegria, Alegria Vol. 2 (Odeon, 1968). No ano seguinte, a dupla classificou-se em 2º lugar no IV Festival Internacional da Canção Popular da TV Globo, com a música Juliana,defendida pelo grupo A Brazuca, com as cantoras Bimba e Julie e outros músicos, acompanhando seu piano elétrico, uma raridade na época. Ainda nesse ano, lançou o LP Antônio Adolfo & A Brazuca (selo Odeon), no repertório, evidentemente Juliana e novas assinaturas com Tibério Gaspar, como Teletema, de grande repercussão na trilha sonora da novela Véu de Noiva, de Janete Clair (Rede Globo, 1969).
Adolfo e Tibério voltaram a brilhar, em 1970, no V Festival Internacional da Canção Popular da TV Globo, ao revelar o cantor Toni Tornado que, em grande performance carregada de improvisos e danças inusitadas (acompanhado do Trio Ternura, e de Antonio Adolfo ao piano), ganhou a plateia e o júri com a música BR-3, uma valsa que se transformava em estonteante soul music. Após lançar mais dois álbuns Antônio Adolfo & A Brazuca (Odeon, 1971), e Antônio Adolfo (Philips, 1972), no qual canta várias novas composições autorais, o compositor sentiu a necessidade de aprofundar seus conhecimentos musicais, viajando para os Estados Unidos. Anteriormente, estagiara com Nadia Boulanger, professora e compositora francesa de música erudita, além de aulas com o maestro Guerra-Peixe. Com David Baker, renomado compositor e intérprete, autor de vários livros de jazz, fez um curso na Indiana University of Music.
De volta ao Brasil, em 1977, Antônio Adolfo partiu para produção independente de seus discos (com músicas mais elaboradas), criou o selo Artezanal, com lançamento histórico do LP Feito Em Casa, incluindo pérolas por ele assinadas como: Dia de Paz, Variações, Aonde Você Vai? (voz do autor), As Luzes Estão Brilhando, com participação de músicos notáveis, citando-se Danilo Caymmi e Franklin (flauta), Jamil Joanes e Luizão Maia (baixo), Marcio Montarroyos (trompete), e muito mais. No ano seguinte apresentou-se no Projeto Pixinguinha, ao lado de Carmélia Alves e Oswaldinho do Acordeom.
Sequencialmente, repete a dose do selo Artezanal, produzindo sempre com a maestria de seu piano e de inspiradas composições: Encontro Musical (1978) participações de Erasmo Carlos (voz) e Rildo Hora (gaita) em Leve Como O Vento, de Joyce Moreno (voz) em Cançoneta; Viralata (1979) um festival de ritmos em peças como Cascavel, Paraíba do Sul, Brincadeira Em Mi Bemol, Nordeste. Ainda em 1979, retornou ao Projeto Pixinguinha, desta vez acompanhado do cantor baiano Walter Queiroz e Danilo Caymmi.
Ainda pelo selo Artezanal, editou os LPs Continuidade (1980), com presenças dos cantores Emílio Santiago (A Cada Dia Que Passa), Silvio César (Deixa A Fonte Despejar), entre outras. A seguir, em leituras bastante pessoais e seus criativos improvisos, respeitando sempre a genialidade de seus homenageados, lançou os LPs Os Pianeiros: Antonio Adolfo abraça Ernesto Nazareth (1981), no qual apresenta os choros Escorregando, Perigoso, o tango Bambino “Você Me Dá” (letra de Catulo da Paixão Cearense, voz de Zé Luiz Mazziotti), a valsa Expansiva, com a presença dos notáveis músicos Dino (violão de 7 cordas), Jorginho (pandeiro), Jacques Morelenbaum (cello), citando apenas alguns; Viva Chiquinha Gonzaga: Antonio Adolfo abraça Chiquinha Gonzaga (1985), o dobrado carnavalesco Ó Abre Alas e o tango O Forrobodó (duetos de Vital Lima e Nilson Chaves), a canção Lua Branca (com a clarineta de Paulo Moura), a polca Atraente (com o conjunto Nó em Pingo d’Água) são algumas das preciosidades garimpadas pelo mestre do piano.
Nesse ano, fundou o Centro Musical Antônio Adolfo, oferecendo em parceria com excelentes profissionais cursos de iniciação musical para crianças e de aperfeiçoamento em Harmonia, Composição e Arranjo, além de aulas práticas para diversos instrumentos. Já no final dos anos 80, pelo selo Som Livre gravou o álbum Cristalino, totalmente autoral, acompanhado de músicos como Paulinho Braga(bateria) e Nelson Faria (guitarra), podendo-se citar entre outras: Agitadinho, Floresta, Bom Dia, Balada.
Em 1996, retornou à produção de discos no selo Artezanal, agora associado com a distribuidora Kuarup, lançando o CD Antônio Adolfo, com arranjos de sua autoria, em show de harmonia e melodia nas faixas como Zabumbaia, Santo Expedito, Copacabana 54, a releitura instrumental de Juliana (parceria de Tibério Gaspar), Cristalina (prêmio Sharp para melhor música) e Vento A Favor (letra de Abel Silva), essas na voz da filha Carol Saboya. No ano seguinte, retornou aos estúdios para gravar Chiquinha com Jazz (Artezanal, Kuarup), quando repetiu o repertório do LP de 1985, com novas interpretações e acompanhamentos, o que lhe valeu outro prêmio Sharp de melhor arranjador na categoria instrumental.
Em 2005, mais uma parceria Artezanal & Kuarup apresentou o notável CD Carnaval Piano Blues, que somente a extrema sensibilidade de Antônio Adolfo, poderia traduzir em solos e improvisos pianísticos a beleza exaltada pela alegria ou tristeza de faixas como Pierrô Apaixonado (Noel Rosa, Heitor dos Prazeres), Cachaça (Mirabeau, Heber Lobato, Lucio de Castro, Marinósio Filho), É Com Esse Que Eu Vou (Pedro Caetano), Madureira Chorou (Carvalhinho, Julio Monteiro), Exaltação À Mangueira (Enéas Brittes da Silva, Aloysio Augusto da Costa), Recordar É Viver (Aldacir Louro, Aloysio Marins, Adolpho Macedo). Obra-prima! Poesia pura! Novamente com Carol Saboya, lançou Ao Vivo: Antônio Adolfo e Carol Saboya (Kuarup, 2006), gravado ao vivo no Campus da Universidade de Miami/USA e Lá e Cá – Here and There: Antônio Adolfo e Carol Saboya (Saladesom Records, 2010), incluindo clássicos americanos, nacionais e peças autorais.
No ano seguinte, em produção independente, Antonio Adolfo gravou Chora Baião, com destaque para Nó Na Garganta (Guinga), Chora Baião e Chicote (autorais), Gota d’Água (Chico Buarque), entre outras preciosidades. Em 2014, Adolfo prestou outra homenagem ao imortal Ernesto Nazareth, com o irretocável CD Rio, Choro, Jazz... (AAM Music), o qual inicia com a faixa de sua autoria, que dá nome ao disco e apresenta de Nazareth composições menos conhecidas como Feitiço, Não Caio Noutra, Coração Que Sente, Nenê, e outras renomadas. No mesmo ano, em fase exuberante do compositor e intérprete, o selo Deck Disc lançou O Piano de Antônio Adolfo, uma viagem emocionante, do primeiro ao último acorde, para se deleitar com Doce de Coco (Jacob do Bandolim), All The Things You Are (Jerome Kern, Oscar Hammerstein II), Sonoroso (K-Ximbinho, Del Loro), Ingênuo (Pixinguinha, Benedito Lacerda), Catavento E Girassol (Guinga, Aldir Blanc), e muito mais. Para se ouvir sempre!
Seu último trabalho Antônio Adolfo: Tema  (AAM Music, 2015), gravado nos Estados Unidos, recria com pitadas de jazz e músicos do quilate de Armando Marçal (percussão), Jorge Helder (baixo), Marcelo Martins (sopros), entre outros, composições autorais Alegria For All (com Tibério Gaspar), Natureza e Todo Dia (essas com Xico Chaves), Trem da Serra.
Antônio Adolfo, incontestável mestre do piano, alia técnica e coração, em peculiares composições de extremo bom gosto, com seu tocar elegante, criativo, popular e erudito, consagrado internacionalmente.


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